Bíblia em Contos

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O Retorno do Tecelão

O sol da tarde pesava sobre as ruas de pedra de Gibeão, trazendo consigo o cheiro misturado de terra batida, excrementos de animais e o aroma penetrante do zimbro queimado em alguma casa para purificar o ar. Eliabe caminhava devagar, sentindo o suor escorrer sob sua túnica de linho simples. Não era o calor, porém, que o fazia andar com aquela lentidão deliberada, evitando o contato com as sombras dos outros no caminho. Era o peso de um conhecimento íntimo e aviltante.

Há sete dias, um fluxo saíra do seu corpo. Não era doença, não era dor aguda, mas uma humidade constante e impura que manchava sua roupa interior e o separava de tudo e de todos. Ele lembrava das palavras do sacerdote, recitadas desde a infância como se fossem a topografia de um terreno sagrado e perigoso: *Quando um homem tiver um fluxo do seu corpo, o seu fluxo será imundo.* A impureza não era um mero conceito; era uma substância, um estado de ser que se comunicava como um fogo invisível.

Ao chegar à sua casa, uma estrutura de pedra baixa com uma única janela, ele não entrou pela porta principal. Contornou o pequeno edifício, dirigindo-se à estreita porta do quarto dos fundos, que dava para um pátio minúsculo e sombrio. Ali ele viveria, até que o fluxo cessasse. Sua mulher, Ana, já sabia. Ele a vira pela manhã, de longe, com os olhos baixos, movendo-se com a cautela de quem evita um vaso precioso à beira de uma queda. Ela não poderia tocá-lo. Se o fizesse, seria impura até a tarde, e teria de lavar suas roupas e banhar-se em água. Se ele cuspisse perto dela e ela não se lavasse, a impureza permaneceria. A lei era minuciosa, penetrante como a umidade no ar antes da chuva.

Dentro do quarto escasso, o ar estava parado. Eliabe sentou-se na esteira de palha, não na cama com colchão de lã que compartilhava com Ana. Toda cama onde se deitasse durante este tempo seria imunda. Todo objeto de madeira ou couro que ele tocasse – a cadeira tosca, a bilha de água, a própria porta – precisaria ser lavado com água corrente. A imundície era uma sombra que ele projetava sobre o mundo material.

Os dias seguintes foram um longo exercício de solidão e vigilância. A manhã chegava com o canto do galo, e ele se levantava, olhando para a fina fenda de luz que entraba pela porta mal ajustada. Seu trabalho no tear, no canto principal da casa, estava parado. Os fios de lã colorida esperavam, inertes. Ele era um artesão habilidoso, e suas mãos, calejadas e ágeis, coçavam pela inatividade. Agora, suas mãos eram instrumentos de contágio. Se alguém, inadvertidamente, se sentasse onde ele estivera sentado, teria de lavar as vestes, banhar-se e seria imundo até o anoitecer.

Uma vez, naquela semana, seu filho mais novo, pequeno Obed, de cinco anos, escapou da vigilância da mãe e correu para o pátio dos fundos. Eliabe viu-o através da fresta da porta, o rosto redondo iluminado por um sorriso, os braços abertos para um abraço. “Pai!” O coração de Eliabe contraiu-se como um punho. “Para, Obed! Fica onde estás!” A voz saiu áspera, mais áspera do que pretendia. O menino parou, confuso, o sorriso desmanchando-se como barro na chuva. Ana apareceu rapidamente, apanhou-o ao colo, murmurando explicações suaves, e afastou-se sem olhar para trás. Eliabe ficou ali, a mão na madeira áspera da porta, sentindo a lei como uma parede física entre ele e o calor do próprio filho.

O sétimo dia amanheceu diferente. Ao despertar, uma sensação de secura, de normalidade reconquistada. O fluxo cessara. Um alívio profundo, quase doloroso, lavou-o por dentro. Mas não era o fim. A lei tinha uma geografia precisa, e ele ainda estava no território da impureza. Agora começava o ritual do retorno.

Saiu do quarto dos fundos, mas não entrou na casa. Foi direto para a cisterna comum, no fim da rua, em uma hora silenciosa, antes do burburino da aldeia. Banhou-se completamente, esfregando a pele com a areia fina do fundo do balde. A água era fria, e ele estremeceu, mas era uma friagem limpa, purificadora. Voltou para casa, e Ana, com um olhar rápido e compreensivo, já tinha preparado duas rolinhas ou dois pombinhos jovens – a oferta pelo pecado e a oferta pelo holocausto – que ele teria de levar ao santuário. Eram aves pobres, de gente simples. Um cordeiro seria para os ricos; para ele, as aves bastavam.

A caminhada até o lugar alto onde o sacerdote local oficiava foi solene. Ele carregava as aves numa cesta de vime, sentindo o peso leve da vida que seria entregue. O sacerdote, um homem de idade com uma barba grisalha e olhos cansados, recebeu-o sem cerimônia. O ritual era conhecido por ambos. Para a oferta pelo pecado, uma das aves foi imolada sobre uma bacia de barro, o sangue escuro e vivo escorrendo. A outra ave, para o holocausto, seria queimada por inteiro, um aroma agradável ao Senhor. O sacerdote movia-se com eficiência, murmurando as orações prescritas. Não havia grandiosidade, apenas a rotina sagrada do restabelecimento.

Quando tudo terminou, Eliabe ficou ali por um momento, olhando a fumaça fina que subia do altar de pedras soltas. A lei era severa, sim. Separava, isolava, marcava. Mas naquele momento, ele não a sentia como opressão. Era como um caminho íngreme e pedregoso que, ao ser percorrido com exatidão, levava de volta. De volta ao convívio, ao toque da esposa, ao abraço do filho, ao trabalho no tear com a lã cheirosa. A pureza não era apenas um estado de saúde; era um estado de comunhão. Ser declarado limpo significava poder novamente habitar no meio do povo, participar da vida coletiva, aproximar-se, sem medo, do Santo que habitava no meio deles.

A jornada de volta para casa foi mais leve. O sol da tarde ainda era quente, mas agora ele andava no meio da rua, e quando um vizinho, conhecendo o significado de sua ida ao lugar alto, acenou com um breve aceno de cabeça, Eliabe correspondeu. Era um gesto pequeno, quase insignificante. Mas para ele, naquele momento, era como se toda a cidade de Gibeão, sob a vastidão do céu, respirasse em uníssono novamente, e ele, Eliabe, o tecelão, pudesse finalmente ouvir e fazer parte daquela respiração sagrada.

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