Bíblia em Contos

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O Arco e a Promessa

A terra cheirava diferente agora. Era um odor que Noé não conseguia decifrar – não era exatamente o cheiro de coisa nova, mas de coisa lavada, esfregada até às entranhas, deixada a secar sob um sol que ainda parecia hesitante. A arca, aquele enorme casco de sombras e rangidos, repousava inclinada nas encostas de um monte que os seus netos começavam a chamar de Ararate. Da madeira, ainda escorria uma umidade teimosa, um suor do madeiramento que tinha bebido o dilúvio durante um ano inteiro.

Noé passou a mão, áspera e sulcada como a casca de um carvalho velho, pelo tronco de um cedro que brotara perto. A vida voltava, teimosa, verde, quase ofensiva na sua urgência. Ele se lembrava do cheiro dos animais na arca, o denso aroma de pelagem, estrume, feno e medo. Agora, o vento trazia o cheiro limpo da água distante e da terra revolvida. Um cheiro de início. E também um vazio, um silêncio de fundo que nunca existira antes. O mundo estava vazio de vozes humanas, e essa quietude, por vezes, pesava mais que o zunido de milhares de criaturas dentro da arca.

Os filhos – Sem, Cam e Jafé – andavam pela planície, marcando territórios com os olhos, discutindo em vozes baixas sobre os vales mais férteis, as nascentes de água mais cristalina. As mulheres colhiam brotos e frutinhas selvagens, e o riso delas, ainda um som raro e precioso, ecoava estranho na imensidão. Noé observava, sentado numa pedra lisa, afiando uma enxada de pedra com outra. O trabalho continuava. A aliança com Deus não era um repouso, mas uma nova ordem para o labor.

Uma tarde, quando uma chuva miúda e quente pintou o ar com um brilho prateado, Noé sentiu um aperto no peito. Não era medo, nem angústia. Era algo solene, uma necessidade profunda que vinha das memórias do cheiro das madeiras, do balar dos cordeiros no convés superior, do canto dos pássaros soltos no quadragésimo dia. Chamou os filhos.

— Vamos construir um altar — disse, sua voz rouca pelo pouco uso. — Pedras brutas. Das que não foram tocadas pelo ferro.

Trabalharam em silêncio, Cam suando sobre as pedras maiores, Sem escolhendo com cuidado cada uma, Jafé ajustando-as com uma precisão de carpinteiro. O altar surgiu, tosco e poderoso, na clareira diante da arca. Noé então escolheu animais e aves, dos limpos, os que poderiam ser oferecidos. O ato em si era antigo, vinha de Abel, de Sete, de uma linguagem entre o céu e a terra que o dilúvio não apagara. Quando o fogo crepitou, consumindo a oferenda, uma fumaça densa e perfumada elevou-se reta, um pilar cinzento que furou a chuva miúda e subiu em direção às nuvens baixas.

Noé não ouviu uma voz. Mas sentiu, no próprio odor da fumaça que se dissipava, uma resposta. Uma atenuação daquele silêncio primordial. E então, como se a oferenda tivesse feito nascer uma cor no céu, a chuva parou. As nuvens se partiram ao meio, rasgadas por uma luz dourada e oblíqua. E Noé, erguendo os olhos cansados, viu a coisa que nenhum homem jamais vira.

Um arco. Um arco de luz pura, feito não de uma, mas de todas as cores entrelaçadas, apoiado nas bordas do mundo como uma ponte impossível e ténue. Parecia molhado, como se a própria luz tivesse sido lavada e agora brilhasse em sua essência. Não era apenas um fenômeno. Era uma palavra. Uma palavra sem som, gravada no céu com pigmentos de água e luz.

Noé caiu de joelhos, não por fraqueza, mas pelo peso daquela beleza. Seus filhos e as mulheres vieram, e todos ficaram em silêncio, olhando. E Noé soube, no íntimo do seu espírito, o significado. Era um lembrete. Um lembrete para o próprio Deus. Cada vez que as nuvens se reunissem, pesadas e escuras, aquele sinal apareceria, e Deus se lembraria. Lembraria da Sua promessa, da aliança estabelecida com toda carne, de que as águas do dilúvio nunca mais tornariam a cortar o fio da vida na terra.

A voz interior, então, tornou-se clara em seus pensamentos, enchendo-os como a luz enchia o arco no céu: “Eis o sinal da aliança que estabeleço entre mim e vós, e com todo ser vivo que está convosco, para perpétuas gerações. O meu arco tenho posto nas nuvens.”

Anos se passaram. Noé, já um ancião com as costas curvadas pelo cultivo da vinha que plantara num vale ensolarado, vivia os dias numa rotina abençoada e árdua. A terra dava frutos. Os netos multiplicavam-se, e suas vozes preenchiam o vazio. Mas a queda veio de onde menos se espera, numa tarde quente, quando o vinho novo, doce e forte, o surpreendeu na tenda.

Cam, o filho mais novo, de espírito rápido e olhos que às vezes cintilavam com uma curiosidade sem reverência, encontrou-o adormecido, despido. Em vez de cobri-lo, de guardar a nudez do pai como se guarda um segredo sagrado, saiu. E contou aos irmãos, com um sorriso que não era de preocupação, mas de um estranho regozijo, como quem partilha uma novidade picante.

Sem e Jafé não disseram uma palavra. Trocaram um olho, pegaram um manto, e caminhando de costas para não ver o que não lhes cabia ver, cobriram o pai. O respeito foi um manto mais pesado que a lã. Quando Noé despertou, com a cabeça latejante e um gosto amargo na boca, soube pelo silêncio tenso, pelo olhar evitado de Cam, pelo cuidado solene dos outros dois. O conhecimento caiu sobre ele como uma sombra.

As palavras que proferiu então não foram de raiva descontrolada, mas de uma profecia pesada, saída da terra molhada e do vinho derramado. Não era uma maldição vingativa, mas a leitura de um destino que a própria ação de Cam tecera. A servidão, uma sujeição que nasceria da quebra do laço primordial, do desrespeito ao pai, à fonte. A bênção a Sem e Jafé, por sua vez, era o reconhecimento de uma ordem que preservaria o sagrado.

Noé viveu mais trezentos e cinquenta anos após o dilúvio. Viu os primeiros tijolos serem moldados de barro, ouviu as primeiras discussões sobre uma torre que queria alcançar o céu. E sempre, após cada tempestade, ele parava seu trabalho, fosse na vinha, fosse ensinando aos netos os nomes das estrelas, e erguia os olhos. E lá estava, ténue e invencível, o arco nas nuvens. Não era um amuleto. Era uma lembrança. Uma promessa gravada no céu com água e luz, um pacto de misericórdia que começava com um homem velho, uma arca de madeira, e um mundo inteiro, dolorosamente e lindamente, recomeçado.

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