Bíblia em Contos

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Aviso de Paulo Sobre o Fim

Meus irmãos em Tessalônica,

Esta noite, enquanto a lâmpada de azeite aqui ao meu lado cospe sua fumaça negra e o vento noturno sacode a cortina de couro cru da minha janela, minha alma está pesada. Não pelo cansaço do dia – que foi longo, cheio de discussões acaloradas na praça e de trabalho árduo nas mãos, tentando ganhar o pão sem ser pesado a ninguém. A carga é outra. É a vossa angústia que me alcança, atravessando montanhas e mares, um eco perturbador nas cartas que chegaram pelas mãos de viajantes cansados.

Dizem que vos enganaram. Que alguém, com palavras torcidas como azeitonas esmagadas fora do tempo, vos convenceu de que o Dia do Senhor já tinha chegado. Consigo quase ouvir o burburinho nas vossas casas, o temor que congela o estômago, a pergunta que não cala: “Então falhamos? Fomos deixados para trás?” Vejo, na luz trêmula da minha lâmina, vossos rostos amados. E preciso que saibam: não se deixem abalar tão facilmente. Não percam a cabeça.

Antes desse Dia – aquele Dia verdadeiro, que virá como ladrão, mas não em segredo –, é preciso que algo aconteça. Algo terrível. Uma apostasia. Um afastamento frio e deliberado, não um deslize, não uma fraqueza momentânea, mas um levantar-se coletivo contra o que é santo. Como uma maré que, em vez de vir do mar, brota dos corações dos homens. E então… ele será revelado. O homem da iniquidade. O filho da perdição.

Escrevo estas palavras e a pena quase escorrega dos meus dedos. Não é uma alegoria. Não é um símbolo. É uma pessoa. Uma vontade encarnada em oposição. Ele se colocará no lugar de Deus, num trono que não é seu. Nos vossos próprios templos – não nos nossos humildes lares de reunião, mas nos lugares de poder e veneração pública –, ele se exibirá, declarando-se divindade. Lembram-se de quando estive convosco, e falei dessas coisas à luz do fogo, enquanto o vinho aquecia nossos dedos? Pois bem. O mistério da iniquidade já trabalha. Já fermenta no mundo, como o fermento na massa. Só que agora há um que o detém. Algo, alguém… segura essa fúria, impede que ela irrompa por completo.

Não me peçam para detalhar o que não me é dado ver com clareza. É um segredo que ainda repousa nos desígnios de Deus. Mas o detentor será tirado do caminho. E então, ah, então a iniquidade terá seu momento, breve e intenso como o relâmpago que rasga o céu antes da tempestade. Aquele iníquo virá. Com todo poder, sinais e prodígios de mentira. Com todo engano da injustiça para os que estão perecendo. Porque recusaram o amor à verdade que poderia tê-los salvado. Deus lhes enviará, então, uma operação do erro, para que acreditem na mentira. Para que sejam julgados todos os que não deram crédito à verdade, antes se deleitaram na injustiça.

Um calafrio percorre minha espinha. Não é apenas sobre eles, os que se perderão. É sobre vós. É sobre nós. Por isso, irmãos meus, amados do Senhor, firmem-se. Lembrem-se de como Deus vos escolheu desde o princípio, não por algum mérito vosso, mas por sua graça, pela santificação do Espírito e pela fé na verdade. Ele vos chamou, através do nosso evangelho, para alcançardes a glória do nosso Senhor Jesus Cristo.

Então, segurem-se firmes às tradições que vos ensinei, seja por palavra, seja por carta. Não sejam crianças levadas por qualquer vento de doutrina, por qualquer rumor alarmante que soa nas esquinas. O Dia não veio. E quando vier, não será um segredo. Será como o estrondo de dez mil trombetas, como a luz que cega o sol ao meio-dia. Até lá, o que fazer? Trabalhem as próprias mãos, como vos instruí. Cuidem uns dos outros. Orem sem cessar. E deixem que o próprio Senhor Jesus Cristo, e Deus nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança pela graça, consolem os vossos corações e os confirmem em toda boa palavra e obra.

A lâmpada está se apagando. O azeite chegou ao fim. Na escuridão que se avizinha, antes que a primeira luz da aurora raie o horizonte, minha última oração é por vós. Para que sejais fortes. Para que o amor de Cristo seja a vossa âncora, mais firme do que qualquer mentira que o mundo possa forjar.

Em Seu nome,

Paulo.

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