Bíblia em Contos

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Bíblia

O Único que Voltou

A poeira da estrada da Samaria grudava na garganta, um pó fino e pálido que sabia a cinza e a decepção. O sol, impiedoso, martelava nossos ombros e aquele silêncio pesado que às vezes caía entre nós, depois de horas andando. Ele ia à frente, Jesus, seus passos firmes no chão irregular, mas seu espírito parecia habitar um lugar muito distante. A gente seguia, nós os doze, tropeçando em pedras e em nossos próprios pensamentos confusos.

Foi André quem quebrou o silêncio, a voz rouca de tanto calar. “Mestre,” disse, limpando o suor da testa com o braço, “aumenta a nossa fé.” A pergunta parecia ter saído do fundo de todos nós. A coisa toda estava ficando… perigosa. As palavras dele sobre escândalos, sobre amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se atirar no mar se levasse um pequeno a tropeçar, tudo aquilo nos assustava. Exigia um coração de um outro mundo.

Jesus parou. Não de repente, mas com uma lentidão que fez todos nós congelarmos no lugar. Voltou-se, e seus olhos percorreram nossos rostos um a um, não com censura, mas com uma espécie de cansaço profundo, de quem vê uma semente sendo regada com vinagre. A luz do sol batia em seus cabelos, criando uma auréola efêmera de poeira dourada.

“Se vocês tivessem fé como um grão de mostarda,” ele disse, e sua voz era baixa, mas cortante como fio de faca, “poderiam dizer a esta amoreira: ‘Arranque-se e plante-se no mar’, e ela lhes obedeceria.” A imagem era tão absurda, tão vívida, que quase conseguia ouvir o esturro das raízes da grande árvore se desprendendo da terra seca e mergulhando nas águas salgadas. Não era sobre mover montanhas naquele momento. Era sobre uma árvore robusta, de raízes profundas, sendo transplantada para um lugar impossível pela mera palavra. A fé que ele pedia não era um espetáculo. Era algo minúsculo, quase insignificante em aparência, mas com uma força vital, germinativa, capaz de desafiar toda a lógica do mundo. Nós baixamos a cabeça. Quem de nós tinha sequer aquilo?

Ele continuou a andar, e nós, como um rebanho atordoado, seguimos. As palavras que vieram a seguir foram das mais difíceis de engolir. A parábola do servo. A ideia de que, depois de um dia inteiro no campo, o servo não recebe um banquete, mas deve primeiro servir o senhor, e só depois pensar em seu próprio conforto. “Assim também vocês”, ele concluiu, e o sol parecia esfriar um pouco, “quando tiverem feito tudo o que lhes foi ordenado, devem dizer: ‘Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever’.” Inúteis. A palavra ecoou nos meus ouvidos. Não era uma humilhação, eu fui aos poucos entendendo, mas um alívio. Não se tratava de acumular méritos, de barganhar com o céu. Era sobre reconhecer o lugar. O serviço como fim, não como moeda de troca. Uma libertação estranha e amarga.

Foi quando entramos na aldeia, não sei bem se era entre a Galiléia e Samaria, um lugar de fronteira e de ninguém. O cheiro chegou primeiro: um odor doce e apodrecido de carne doente, misturado com o cheiro acre de medo. E então os vimos. Aglomerados perto das pedras que marcavam o limite, um grupo de figuras esfarrapadas, mantendo a distância prescrita pela Lei, suas vozes rasgando o ar tranquilo da tarde num grito único e dilacerado: “Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós!”

Eram dez. A pele, onde se podia ver sob os trapos e as crostas, tinha a cor de nuvem de tempestade, esbranquiçada e morta. Um deles, de longe, parecia ter os traços mais duros, o nariz mais aquilino. Um samaritano. Misturado aos nove filhos de Israel. A desgraça era a única pátria que lhes restava.

Jesus nem mesmo se aproximou. Parou a uma distância segura, mas seu olhar não se desviou. Não havia repulsa nele, apenas uma atenção profunda, como um médico que observa um mal já diagnosticado. “Vão mostrar-se aos sacerdotes”, ordenou ele, sua voz clara e simples cortando o ar pesado.

A ordem era, ao mesmo tempo, um teste de obediência e um raio de esperança absurdo. Mostrar-se aos sacerdotes era o ritual para declarar-se curado. Mas eles ainda estavam doentes. Tudo em seus corpos gritava que nada havia mudado. Vi a hesitação no grupo, um olhar trocado entre eles, a confusão. Mas então, como se uma única centelha tivesse percorrido todos, eles se viraram e começaram a caminhar. Apenas caminhar. Confiando naquela ordem contra toda a evidência dos sentidos. A fé do grão de mostarda. Não uma fé que arranca árvores, mas que dá o primeiro passo com o corpo ainda apodrecendo.

Estávamos parados, observando aquelas figuras tristes se afastarem, encolhidas, pela estrada em direção a Jerusalém ou a algum santuário samaritano. O silêncio desceu novamente. Até que um grito, não mais de dor, mas de um assombro indescritível, rompeu o horizonte. Um dos homens tinha parado. Olhava para as próprias mãos, esfregava os braços, puxava as vestes para ver a pele. E então, num único movimento desesperado e gracioso, ele se voltou e começou a correr de volta. Não era uma corrida de homem enfraquecido. Era forte, veloz, os pés batendo no chão com uma vitalidade nova. Seus gritos agora eram de louvor a Deus, altos, desenfreados, quebrando o protocolo de tudo.

Ele se atirou no chão aos pés de Jesus, o rosto colado na poeira que, horas antes, era seu único território. As palavras saíam entre soluços de gratidão brutal. “Olhem”, alguém sussurrou ao meu lado. “É o samaritano.” O estrangeiro. O herege. O impuro por excelência.

Jesus olhou para baixo, para aquele homem tremendo de graça recebida, e depois ergueu os olhos para nós. Seu rosto tinha uma expressão de uma tristeza imensa. “Não eram dez os que foram purificados? Onde estão os outros nove? Não se encontrou ninguém que voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?”

A pergunta pairou no ar, mais pesada que qualquer sermão. Os nove haviam recebido o dom. Cumpriram a ordem. Foram até o fim do ritual. Estavam, provavelmente, nesse exato momento, sendo declarados limpos, reintegrados à sociedade, à religião, à vida normal. Eram os cumpridores do dever. Os bons servos. Mas no afã de receber o certificado de pureza, esqueceram-se do Doador. A obediência deles não tinha se transformado em gratidão. Ficou só no dever. Eram… inúteis, no sentido mais cru da palavra de Jesus horas antes. Cumpriram a função, mas perderam o sentido.

Então, voltando-se para o samaritano ainda prostrado, sua voz se tornou macia, um contraste tão grande que doía. “Levante-se e vá. A sua fé o salvou.” Salvou. Não apenas curou. A fé minúscula que o fez dar o primeiro passo, e a fé transformada em gratidão que o fez voltar, isso foi o que o salvou. Os outros tiveram a pele renovada. Ele teve o destino refeito.

Ele se levantou. Os olhos, antes baços pela doença, agora brilhavam com um límpido orvalho. Ele nos olhou, a nós, os discípulos que discutíamos sobre fé e grandeza, e em seu olhar havia uma compreensão simples e direta que nos deixou envergonhados. Depois, sem mais nada, virou-se e seguiu seu caminho. Não para os sacerdotes. Ele já não precisava daquele testemunho. Levava a cura no corpo e a salvação na alma, e isso era um certificado que nenhum homem poderia outorgar ou revogar.

Jesus retomou a caminhada, e nós o seguimos, em um silêncio agora completamente diferente. A poeira ainda grudava na garganta, o sol ainda castigava. Mas o mundo parecia ter virado de lado. A fé não era um troféu para exibir, mas um grão minúsculo a ser plantado no coração, mesmo que o solo parecesse estéril. O serviço não era uma escada, mas um chão. E a gratidão… a gratidão era o único aroma que poderia transformar o dever em adoração. Olhei para minhas mãos, sujas da estrada, e pela primeira vez, senti que a verdadeira impureza talvez não estivesse na pele do leproso, mas no coração ingrato que recebe o milagre e esquece o rosto do milagreiro. E naquela tarde interminável, enquanto o céu da Samaria começava a se pintar de púrpura, eu, apesar de todo meu medo e minha pequenez, senti um desejo forte e quieto: o desejo de ser, um dia, não um servo apenas cumpridor, mas um que sabe voltar atrás para dizer obrigado.

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