Bíblia em Contos

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A Visão do Tempo do Fim

Era um daqueles dias em que o calor do deserto parecia ter memória. Não era apenas o sol alto de agora, mas o acumulado de todos os sóis de todos os verões, uma respiração pesada e antiga sobre a planície. Eu, Daniel, sentado à sombra ínfima de uma parede de pedra, sentia o peso dos anos não apenas nos ossos, mas na própria luz que pousava sobre meus joelhos. Os rolos diante de mim cheiravam a pele de carneiro e a tinta de carvão, um cheiro de coisas permanentes, ou que desejam sê-lo.

A visão tinha sido à beira do rio, o Tigre, aquela faixa de vida serpenteando no meio da aridez. Os homens comigo fugiram, não por covardia, mas por um instinto são de criaturas diante do incriado. Eu fiquei. Sozinho. O que se ergueu diante de mim não era uma forma que os olhos pudessem descrever sem trair; era mais uma presença que alterava a qualidade do ar, como se o tempo, naquele ponto, tivesse uma densidade diferente. Dois outros estavam com ele, um de cada margem do rio, e suas vozes não eram sons, mas entendimento plantado direto na mente.

A pergunta que veio dos meus lábios secos foi a pergunta de sempre, a que ecoa no peito de todo o profeta, de todo o homem que vê o princípio e o fim: “Quando será o fim destas maravilhas?”

A resposta não foi um calendário. Nunca é. Foi um enigma vestido de linguagem humana. Ouvi sobre um tempo de angústia sem igual, sobre a salvação do meu povo cujos nomes estão escritos num livro que não é de pergaminho. E então, as palavras que me corroeram a alma desde então: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno.”

O silêncio que se seguiu àquela frase foi mais eloqüente que qualquer trombeta. Vi o fluxo da história humana não como um rio, mas como um campo de batalha imenso, onde a poeira que se levanta é feita de ossos, e o sol que a ilumina é o mesmo que testemunha o juízo. E depois, a ordem: “Tu, porém, Daniel, encerra as palavras e sela o livro, até ao tempo do fim.”

A visão se desfez como névoa ao vento quente. Fiquei ali, minhas roupas ainda úmidas da água do rio, meu coração um tambor surdo no peito. “Até ao tempo do fim.” A frase me perseguiu. Selar o livro não era escondê-lo, era protegê-lo, como se guarda uma semente de valor inestimável para um plantio futuro. As palavras não eram para agora; eram para *então*.

Anos se passaram. Muitos. A Babilônia caiu, outros impérios vieram, e eu, um homem velho em corte estrangeira, virava guardião de um segredo. Escrevi tudo, sim. Cada palavra, cada tremor. Mas ao final, confessei ao pergaminho: “Eu ouvi, mas não entendi.” Era uma humildade necessária. A profecia não é um mapa para decifrar; é um farol para se orientar na escuridão.

Numa tarde particularmente tranquila, já com a visão turva e as mãos trêmulas, peguei o rolo outra vez. Não para reler, mas para sentir seu peso. E, como se aquele gesto fosse uma chave, uma última claridade me alcançou. Não foi uma nova visão, era um eco, uma conclusão que vinha de dentro. A voz interior, que às vezes é a mais divina, sussurrou: “Tu, porém, segue o teu caminho até ao fim; descansarás e, no fim dos dias, te levantarás para receber a tua herança.”

Aquilo foi o meu óleo para a lâmpada. A angústia do “quando” se dissolveu. O “até ao tempo do fim” deixou de ser um peso e tornou-se uma promessa. O livro estava selado, mas a esperança, essa estava escancarada, viva como uma chama protegida do vento.

Minha tarefa não era desvendar o mistério. Era viver fiel no meio dele. Era confiar que Aquele que me mostrou o desfecho da história também escreveria, com Sua própria mão, o capítulo final de cada um dos Seus, inclusive o meu. A ressurreição não era apenas um evento futuro; era a lógica oculta de toda existência, a santa matemática de Deus onde nenhuma vida fiel se perde, apenas dormita no pó, à espera da voz que ordena ao sono que cesse.

Morri em paz, não porque soubesse as datas, mas porque conhecia o Autor dos Dias. O rolo ficou, selado. As palavras, dormentes. Até que o tempo do fim, como um sol nascendo no horizonte oposto, ilumine cada sílaba e desperte, do pó, aqueles a quem elas foram prometidas.

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