Bíblia em Contos

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O Leão Ruge em Betel

O sol da manhã ainda era baixo, cortando os cumes das colinas de Tecoa com uma luz âmbar e dura. Amós sentia o cheiro da terra seca, da poeira que já se levantava misturada ao aroma acre das cabras. Seus dedos, calejados, trabalhavam num galho retorcido de zimbro, reparando uma parte solta do cajado. O ofício era silencioso, mecânico, permitindo que sua mente vagueasse pelos vales e montanhas de Judá. Mas havia uma inquietação no ar, algo mais pesado do que o calor precoce. Era como a pressão que precede a trovoada no deserto, um silêncio carregado que faz as ovelhas se aglomerarem, inquietas.

Ele não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor, homem do campo, conhecedor dos sinais simples e cruéis da natureza: o passo do lobo, a nuvem de gafanhotos no horizonte, a cisterna que seca antes do tempo. Nos últimos dias, porém, um outro tipo de sinal começara a ecoar dentro dele, não nos ouvidos, mas nas entranhas. Era uma palavra que se formava como um caroço, dura, indigesta. Voz que não era sua. E com ela vinham imagens: Samaria, a capital do reino do Norte, com seus palácios de marfim. Via banquetes em leitos de ébano, o tilintar de copos de prata, o cheiro do vinho e dos perfumes caros. E via, ao mesmo tempo, com uma clareza que o fazia estremecer, os ossos quebrados da justiça sendo jogados aos cães às portas da cidade. Ouvia o gemido do pobre esmagado por um tributo, a viúva cuja herança era roubada por um selo falsificado, o camponês que vendia seu filho por um punhado de prata para pagar dívidas ao rei.

Naquela manhã, enquanto consertava o cajado, a palavra finalmente rompeu. Não como um rugido, mas como uma constatação grave, um princípio tão óbvio e terrível quanto a lei que rege o aprisco.

“Dois homens caminham juntos se não houverem combinado antes?” A pergunta brotou em seus lábios, em voz baixa, como se conversasse com o vento. Era o fundamento de tudo. A comunhão pressupõe acordo. E ele sabia, com uma certeza que lhe queimava o peito, que Iahweh e Israel já não caminhavam juntos. O acordo fora quebrado.

Ele se levantou, os ossos rangendo. Seus olhos percorreram o horizonte. “Um leão ruge no bosque, sem que tenha presa?” O rugido que ele sentia na alma não era de fome vã. Era o rugido de Iahweh. A presa estava marcada. “Cairá a ave no laço à terra, se não houver armadilha para ela?” Israel era a ave, orgulhosa em seu voo, desdenhosa. E o laço, ele via com clareza, era o próprio pecado deles, a opressão tramada nos corredores do poder, a luxúria que eles chamavam de progresso. O laço se fechava sobre suas próprias asas.

Um calafrio percorreu sua espinha, apesar do calor. “Tocar-se-á a trombeta na cidade, e o povo não estremecerá?” Em Betel, em Samaria, as festas eram a trombeta falsa. O povo dançava, mas não temia. A calamidade que se aproximava – ele não sabia sua forma exata, mas sentia seu cheiro de ferro e fumaça – era a resposta inevitável. Causa e efeito. Um povo não é destruído sem motivo. O Senhor dos Exércitos não movia um dedo sem razão.

A revelação era um fardo insuportável. Ele, Amós, de Tecoa, devia ir. Devia deixar suas ovelhas, sua terra seca mas honesta, e caminhar para o norte, para o coração podre de Israel. A ordem não vinha em frases curtas; era uma maré que o inundava, uma lógica divina que se impunha. Se o leão rugiu, quem não temerá? Se o Senhor Iahweh falou, quem não profetizará?

A viagem foi longa, poeirenta. Cada passo era uma confirmação do que viria. Ele via as caravanas ricas, os carregamentos de luxo para a capital. Via também os rostos cansados dos agricultores, a resignação nos olhos dos que eram espremidos entre os impostos do rei e a ganância dos latifundiários. Chegou a Betel no ápice de uma festa sagrada. O santuário real fervilhava. O cheiro de carne assada misturava-se ao incenso, mas para Amós, era o cheiro de um sacrifício abominável. A música alta, os cantos, as vestes bordadas – tudo soava falso, como o ruído de um sino rachado.

Ele não procurou os sacerdotes primeiro. Foi para um lugar alto, perto das portas da cidade, onde podia ser ouvido. Suas roupas de pastor o denunciavam, marcavam-no como um estrangeiro, um intruso do sul. Quando abriu a boca, sua voz não tinha a cadência treinada dos oradores do templo. Era áspera, direta, como o vento do deserto.

“Ouçam esta palavra que Iahweh fala contra vocês, filhos de Israel! Contra toda a família que Eu tirei da terra do Egito!”

O burburinho diminuiu um pouco. Alguns viraram o rosto, curiosos pelo distúrbio.

“Só a vocês Eu escolhi, entre todas as famílias da terra. Portanto, Eu lhes pedirei contas de todos os seus crimes.”

A palavra “crimes” ecoou, seca. Ele então começou a desfiar a lógica implacável que o consumira desde Tecoa. “Acaso andarão dois juntos, sem que estejam de acordo? Rugirá o leão no mato sem que tenha caça? Levantar-se-á o filhote do leão de seu covil se nada apanhou? Cairá o pássaro no chão, armadilha se não houver? Erguer-se-á do solo a armadilha se nada prendeu?”

As perguntas eram como pedras lançadas num lago parado. Criavam ondulações de silêncio. A lógica era simples, camponesa, irrefutável. E então, o golpe final: “Soou a trombeta na cidade, e o povo não ficou apavorado? Sobrevém uma desgraça na cidade, e Iahweh não a terá provocado?”

Seus olhos, que conheciam a vastidão do deserto, fitaram a multidão com uma intensidade terrível. “Pois o Senhor Iahweh nada faz sem revelar seu segredo aos seus servos, os profetas. Rugiu o leão – quem não temerá? Falou o Senhor Iahweh – quem não profetizará?”

Anunciou então o juízo, convocando os impérios cruéis do Egito e da Assíria como testemunhas contra aquela cidade opulenta. Descreveu a cena que lhe fora mostrada: inimigos cercando a terra, devorando como um leão devora uma ovelha, restando apenas pedaços – uma perna, uma ponta de orelha. Era a imagem de um despojo, de uma ruína completa. Os altares de Betel seriam derrubados, as casas de marfim, despedaçadas, as propriedades de verão, saqueadas.

Quando a voz dele cessou, o silêncio que se seguiu era diferente. Já não era o silêncio da indiferença, mas o silêncio gelado do choque. Alguns rostos mostravam ódio. Outros, um pavor profundo. Amós, exausto, sentiu o peso da palavra que saíra dele. Ela estava solta agora, cumprindo seu curso. Ele não era mais que um pastor que transmitira um aviso. O acordo estava rompido. O leão rugira. E agora, todos sabiam. O que fariam com esse conhecimento, era problema deles. Ele, tendo falado, poderia sentir, no meio do terror da mensagem, um fio de paz. Cumprira o combinado.

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