Bíblia em Contos

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Bíblia

O Caminho no Deserto

A lama do rio Quebar grudava entre os dedos dos pés de Eliazar, um barro escuro e frio que nunca parecia lavar completamente. Sentado em um banco tosco de madeira, fora da humilde casa de tábuas que agora chamava de lar, ele fitava o entardecer babilônico. O céu, imenso e opressor, pintava-se de tons de cobre e púrpura, cores que lhe pareciam sempre estrangeiras, agressivas em sua beleza. No ar, o cheiro constante de especiarias queimadas e óleo de lampiões se misturava ao odor do rio. Jerusalém, em sua memória, tinha um perfume diferente: de terra molhada após a chuva fina, de pão de trigo assando em fornos de barro, do incenso suave que subia do Templo.

Ele era um homem velho agora, os ossos doídos carregando o peso de décadas de exílio. Seus olhos, meio enevoados, ainda viam com clareza brutal as chamas consumindo as paredes de cedro, o brilho sinistro do bronze derretido escorrendo pelos degraus do pátio. Trouxera consigo apenas um rolo, desgastado nas bordas, cópia feita por seu próprio pai das palavras do profeta Isaías. Era seu tesouro mais precioso, mais que qualquer prata ou lembrança física de Sião.

Naquela noite, com a voz rouca da idade e do desuso, ele começou a ler para um pequeno grupo de filhos e netos nascidos já sob o jugo caldeu. Suas palavras eram sussurradas, mas carregadas de uma força que vinha das profundezas do seu ser.

“Não temas”, ele começou, e a própria frase fez um calafrio percorrer sua espinha. Era uma ordem. Um imperativo divino que atravessava gerações de dor. “Porque eu te resgatei, chamei-te pelo teu nome, tu és meu.”

Eliazar fechou os olhos por um instante. *Seu nome*. Não apenas Israel, o povo, mas Eliazar, filho de Josias, aquele que carregava a culpa silenciosa do sobrevivente. E na escuridão de suas pálpebras, uma memória invadiu: um dia, menino, tropeçando nas pedras do caminho para Gibeá, e a mão forte de seu pai, segurando-o pelo braço antes que caísse. “Eu te chamo pelo teu nome”, dissera seu pai, rindo. “E tu me respondes.” Aquele gesto simples de posse e cuidado agora ecoava nas palavras eternas do Eterno.

Ele continuou, a voz ganhando um fio de força. “Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando, pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.” Os olhos dos netos brilhavam à luz do pavio de óleo. Eles conheciam o medo. O medo dos soldados, dos decretos arbitrários, do desenraizamento profundo que era sua herança. Mas ali, naquelas palavras, havia uma promessa de companhia na própria travessia do perigo. Não uma promessa de evitar o rio ou o fogo – eles já haviam passado por ambos, literal e figuradamente – mas de não serem consumidos por eles. Eliazar pensou nas águas turbulentas do Quebar na época das cheias, e numa presença silenciosa e firme como uma rocha no meio da correnteza.

Então, veio a parte que sempre o fazia tremer, uma verdade que cortava como faca de dois gumes. “Porque eu sou o SENHOR, teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador… Não me recordarei dos teus pecados.” A voz quebrou. Os pecados. A idolatria nos altos, a injustiça nos portões, a surdez coletiva aos apelos dos profetas. Ele os recordava, cada um. A nação os recordava, em amargura. Mas o Santo de Israel, aquele cuja santidade era fogo consumidor, declarava um esquecimento divino. Não por leviandade, mas por um ato soberano de vontade, um apagar deliberado. Era um perdão tão vasto que doía, pois exigia que ele também se levantasse e seguisse em frente, sem o fardo familiar da culpa.

Ele leu sobre os julgamentos contra Babilônia, os opressores de agora, e um fogo frio de justiça distante aquecia seu peito. Mas o coração da mensagem, para ele, estava no que vinha a seguir. O Eterno falava de algo novo. “Eis que farei coisa nova, e agora sairá à luz; porventura, não a conhecereis?” Eliazar fez uma pausa longa, deixando a pergunta pairar no ar úmido. Coisa nova. A mente dele, apegada às velhas glórias do reino de Davi, às liturgias do Templo arrasado, se agarrava ao conhecido. Como poderia haver algo novo? Tudo de valor estava no passado, preservado em memória e lamento.

Mas as palavras insistiam, teimosas, vivas. “Farei um caminho no deserto e rios, no lugar solitário.” Ele olhou para fora, para a planície monótona e bem irrigada da Babilônia. Um caminho no deserto não era uma estrada real pavimentada. Era um traço de graça sobre o caos, uma direção onde só havia areia movediça e desorientação. E rios no ermo… não os canais artificiais e laboriosos dos engenheiros caldeus, mas fontes que brotavam do próprio seio da terra seca, por pura dádiva.

A leitura chegou ao fim com a justificação do povo, não por seus méritos – que eram inexistentes –, mas para a glória do próprio Deus. “A esse povo que formei para mim, o meu louvor relatará.” Eliazar enrolou lentamente o rolo, os dedos ossudos acariciando o couro envelhecido. O silêncio na sala era denso, carregado.

Nos dias que se seguiram, algo começou a mudar dentro dele. Não foi um êxtase, mas um lento realinhamento da alma. Ao caminhar pelas margens do Quebar, ele já não via apenas o rio do exílio. Começou a enxergar, com os olhos da fé, o contorno de um outro rio, ainda invisível, fluindo de uma fonte que não era daquela terra. Ele observava seus netos, com seus sotaques mesclados de hebraico e aramaico, e já não via apenas a perda da herança, mas os primeiros frutos de uma nova história que Deus estava escrevendo.

Uma tarde, o mais novo, de talvez cinco anos, correu até ele segurando um broto tenro que encontrara numa fenda entre duas pedras. “Olhe, avô! Algo verde!” Era insignificante, uma pequena planta frágil. Mas para Eliazar, naquele momento, foi como um sinal. A coisa nova não viria com exércitos ou com a reconstrução imediata das muralhas. Começaria assim, frágil e verde, brotando no lugar mais inesperado: no deserto do coração, no ermo do exílio, regada pela promessa de um Deus que dizia “Não temas, porque eu te remi”.

Ele sorriu, um sorriso que há muito não usava, e colocou a mão sobre a cabeça do menino. O caminho de volta ainda era um mistério. Mas ele, Eliazar, filho de Josias, começava a acreditar que havia Alguém abrindo uma vereda através do deserto da história, e que suas pegadas, mesmo as trôpegas e as dos seus, estavam sendo guiadas para casa. E isso era suficiente para o hoje. Era a coisa nova, nascendo no crepúsculo, à beira do rio estrangeiro.

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