Bíblia em Contos

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Bíblia

O Coro do Céu e da Terra

O sol da tarde começava a esfriar sobre Jerusalém, tingindo as pedras da cidade com um dourado que parecia líquido. No quartinho de telhado baixo que servia de escritório, Eliazar enrolou o pergaminho em que trabalhava e esfregou os olhos. A fadiga do dia, o cheiro constante de tinta e couro, o zumbido das moscas — tudo se fundia num peso sobre seus ombros. Ele subiu até a parte mais plana do telhado, buscando um sopro de ar, um instante de silêncio antes do anoitecer.

Foi então que o céu, num repentino golpe de generosidade, começou a se despedir do dia de uma forma que lhe roubou o fôlego. Nuvens raspadas, como fios de lã cardada, incendiaram-se em roxo e laranja. Mais acima, onde o azul já escurecia para o indigo, um pontinho prateado cintilou: Vénus, a estrela da tarde, firme e clara como uma lâmpada acesa no alto. Eliazar sentou-se lentamente na esteira de junco, esquecido do cansaço.

E, de repente, não eram apenas beleza. Era voz. Uma palavra antiga, meio esquecida no rolo dos Salmos que ele mesmo copiava, ecoou-lhe dentro: “Louvai ao SENHOR desde os céus”. Ele olhou para a estrela. E ela, em seu silêncio majestoso, parecia obedecer a uma ordem dada antes da fundação do mundo. Não era um astro morto. Era um louvador. Seu brilho constante, sua fidelidade no curso, era um cântico mudo de obediência gloriosa.

Seu olhar desceu, varrendo o vale. Os ciprestes alongavam suas sombras no chão, e o vento que começava a soprar do deserto fazia suas folhas sussurrarem. “Louvai-o, todos os seus anjos; louvai-o, todos os seus exércitos”. O vento não era um acaso. Era mensageiro. Carregava o cheiro da terra molhada após um breve chuvisco, o perfume das oliveiras, e soprava porque lhe era ordenado. Cada rajada era um “sim” ao Criador. Eliazar sentiu um arrepio. O mundo ao seu redor não era cenário. Era um coro.

Ele viu os pardais, uma revoada deles, mergulhando em direção aos campos para seu repouso. “Louvai-o, sol e lua; louvai-o, todas as estrelas luzentes”. A lua, ainda pálida no céu que não era totalmente noturno, assumia seu posto. E as estrelas, uma a uma, como pequenas fagulhas atiçadas na fornalha do firmamento, acendiam-se. Cada uma em sua magnitude, em seu lugar. Não havia disputa. A mais tênue, quase apagada pela poeira da altura, cantava a mesma nota da brilhante Sírius. “Ele as estabeleceu para sempre; deu-lhes uma lei que não será violada”. Aquela ordem, aquele estatuto eterno que mantinha o curso da lua e o ritmo das marés distantes, era a partitura do louvor cósmico.

Uma onda de humildade, vasta e profunda, inundou-o. Quem era ele, um escriba de dedos manchados de tinta, no meio desse concerto universal? Então, como se em resposta ao seu pensamento, o coro desceu da abóbada celeste. Do vale, o mugir paciente de um boi que era recolhido ao curral subiu até ele. “Louvai ao SENHOR desde a terra”. Os animais se juntavam ao hino. Os reptiles… ele viu uma lagartixa imóvel na parede, seu pequeno peito inflando e desinflando rapidamente. Até ela. Até as criaturas que rastejam, que os homens desprezam, tinham seu lugar no salmo da criação.

E o vento se fortaleceu, uivando levemente nas frestas das casas. “Fogo e saraiva, neve e vapores, e vento tempestuoso que executa a sua palavra”. Não apenas a bonança, mas a força indomável, o temporal que arrasa, obedecem. A tempestade que amedronta os homens é, aos ouvidos de Deus, um verso potente de um poema de poder.

Seus olhos percorreram a linha irregular dos telhados de Jerusalém, até onde a silhueta do Templo se cortava contra o céu. E então ele viu as pessoas. Homens voltando dos campos, mulheres reunindo as crianças, soldados trocando de guarda nas muralhas. “Reis da terra e todos os povos, príncipes e todos os juízes da terra; moços e moças, velhos e crianças”. Todos. O idoso encostado à porta, traçando memórias com seus dedos trêmulos, o jovem correndo atrás de uma bola de couro, a mãe cantarolando para acalmar o bebê. Toda a tapeçaria humana, em seus fios de alegria e sofrimento, de rotina e de drama, era chamada a se integrar. Não como intrusos, mas como a parte consciente da criação. A parte que podia, por graça, perceber a sinfonia e nela cantar com vontade própria.

Eliazar baixou a cabeça. Seu coração, que há pouco estava pesado, agora parecia leve e amplo como o céu. Ele não estava num telhado solitário. Estava no centro de um templo sem paredes, onde tudo, do verme ao arcanjo, erguia uma única voz em incontáveis línguas. A estrela cintilava, o vento soprava, a lagartixa respirava, o homem no vale lavava seus pés cansados. Tudo era louvor. O louvor da existência simples, fiel, obediente.

Ele se lembrou então de outro cântico, um que vinha da fornalha ardente: o de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, louvando a Deus com todas as obras do Senhor. Aqueles homens, no limite da morte, haviam visto o mesmo que ele via agora. O universo inteiro, um coro. E eles, no meio do fogo, eram apenas mais uma voz nesse coro, confiando que mesmo as chamas louvavam ao seu modo.

Quando a escuridão finalmente se instalou e o cintilar das estrelas se tornou uma multidão incontável, Eliazar desceu. Sua cela estava escura, mas ele não acendeu a lâmpada de imediato. Sentou-se à sua mesa, desenrolou um novo pergaminho, e mergulhou a pena no tinteiro. Não ia copiar. Ia escrever. E as palavras que fluíram, na caligrafia cuidadosa de quem entende o peso e a glória de cada letra, não foram sobre ele. Foram um eco, um frágil e humano “Amém” ao salmo que o cosmos, sem cessar, recita desde o princípio. Era seu lugar no coro. E era suficiente.

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