Era fim de tarde no vale, e o ar carregado ainda guardava o calor do dia. Elias sentia o peso nos ombros, não só do cesto de junco vazio, mas de um silêncio que há muito se instalara em seu peito. Os dias seguiam monótonos como o curso do riacho mais abaixo: cuidar das poucas oliveiras, reparar o muro de pedras soltas, observar o céu em busca de sinais de chuva que teimavam em não vir. A seca do solo parecia ecoar uma seca dentro dele. Rezava, é claro, mas as palavras subiam e se perdiam, parecendo não alcançar além do teto de sua casa de pedra. Era um murmúrio rotineiro, sem esperança.
A febre chegou de repente, como um vento maligno. Primeiro foi a criança mais nova, depois a mulher. Elias corria entre o pequeno quarto e a cisterna quase vazia, panos úmidos, ervas que não surtiam efeito. A tosse rouca da pequena Ana cortava a noite como um serrote. Ele se sentou no chão de terra batida, encostado na parede fria, e ali, na escuridão total, não saiu mais um murmúrio. Saíram as entranhas. Um grito mudo, um torvelinho de desespero que ele nem sabia guardar. “Por favor.” Não era uma palavra bonita, nem uma oração decorada. Era o último fio que o prendia a um mundo que desmoronava. “Por favor, não as leves. Eu não suporto.” Era um clamor tão profundo que parecia rasgar-lhe a garganta por dentro.
O sono, quando veio, foi um desmaio. E nele, sonhou. Não com anjos ou vozes celestiais, mas com água. Água fresca, abundante, correndo no leito seco do riacho, enchendo a cisterna até transbordar, molhando os lábios rachados de Ana. Acordou com o canto de um pássaro, antes do amanhecer. A casa estava em silêncio. Um silêncio diferente. Com o coração batendo na garganta, ele se arrastou até o leito. A testa de Ana estava fresca, suada. Ela respirava, num ritmo profundo e tranquilo. Ao lado, sua esposa, Hadassa, dormia um sono pesado, mas pacífico. A febre havia quebrado.
Elias saiu para fora, as pernas trêmulas. O primeiro filete de luz dourada cortava as colinas ao longe. Ele caiu de joelhos na terra ressequida. Não houve palavras, apenas um tremor que vinha dos pés à cabeça, e um pranto que lavou algo mais profundo que a poeira do rosto. Ele não entendia. Não havia merecido nada. Suas orações anteriores pareciam agora frágeis e egoístas. Mas aquele clamor de desespero, aquele grito no escuro… aquilo tinha sido ouvido. A sensação não era de um triunfo, mas de um desnudamento completo e, paradoxalmente, de ser envolvido. “Ele inclinou Seu ouvido para mim.” A frase veio à mente sem esforço, como uma verdade que sempre estivera ali, esperando para ser experimentada na carne e no osso.
Os dias que se seguiram foram de uma lentidão grata. A força voltou às suas mulheres. A chuva, enfim, veio, uma chuva miúda e persistente que beijou a terra e encheu o ar com aquele cheiro verde de renascimento. Elias começou a ver tudo com outros olhos. O pão simples sobre a mesa não era apenas alimento, era um milagre cotidiano. O riso de Ana no quintal era um cântico. Cada gole de água da nova água da cisterna tinha o gosto da graça.
Mas uma inquietação começou a nascer dentro dele. A gratidão transbordava e precisava de um canal. “O que devo retribuir ao Senhor por todos os seus benefícios para comigo?” A pergunta o acompanhava enquanto podava as oliveiras, enquanto consertava a cerca. Oferecer um cordeiro? Ele tinha tão pouco. Recitar salmos na sinagoga? Parecia pouco para algo que tinha acontecido no recesso mais íntimo e desesperado de sua alma.
Foi numa tarde, visitando o velho Simeão na vila próxima, que a resposta começou a tomar forma. Simeón estava mais fraco, seus olhos já não enxergavam os fios para tecer sua esteiras. Sentaram-se em silêncio, tomando chá de ervas. Elias, sem planejar, começou a falar. Falou da febre, do medo, do grito no escuro, do alívio que veio como um dom. Sua voz embargou. Quando terminou, viu que o rosto enrugado de Simeón estava banhado em lágrimas. “Há anos,” sussurrou o velho, “eu não ouvia alguém falar assim. Como se Deus estivesse mesmo perto, na dor e no livramento.”
Na caminhada de volta para casa, sob um céu salpicado de estrelas, Elias entendeu. O que ele tinha para oferecer era exatamente aquilo: a história. Sua história. Não uma história de um herói da fé, mas de um homem frágil que foi ouvido. O voto se formou em seu coração, claro e simples como a água da fonte: ele viveria, dali em diante, com as mãos abertas. A gratidão não seria um sentimento parado, seria uma ação. Ajudaria Simeón com suas tarefas. Partilharia o pouco azeite de sua colheita com a viúva do outro lado da colina, que tinha dificuldade para andar. E, sempre que a ocasião surgisse — num bate-papo no mercado, numa conversa à beira do poço —, ele contaria, com a simplicidade de quem fala de coisa íntima, que havia um Deus que escutava o grito. Que o choro podia durar uma noite, mas que o alívão vinha ao amanhecer.
Anos depois, sentado à porta de sua casa, agora com netos brincando aos seus pés, Elias olhava para o vale verdejante. A vida, é claro, continuara a trazer suas pedras no caminho: más colheitas, perdas, dias de nova seca interior. Mas algo fundamental havia mudado. A fé não era mais uma expectativa vaga por milagres espetaculares. Era uma caminhada. Era saber, nas próprias cicatrizes da alma, que mesmo quando os laços da morte o cercassem — a morte de sonhos, de forças, de planos —, ele havia aprendido a clamar. E no clamar, havia encontrado não apenas livramento, mas um companheiro para a caminhada.
Ergueu o copo de barro, cheio de vinho simples. O sol poente o tingia de rubro. “Ele é bom,” pensou, não como um conceito teológico, mas como a mais íntima e testada verdade de sua vida. E erguendo o copo um pouco mais, num brinde silencioso ao céu que se abria em tons de púrpura e ouro, acrescentou, apenas para seus próprios ouvidos e para Aquele que sempre ouvira: “A ti, levantarei o cálice da salvação, e invocarei o teu nome. Cumprirei os meus votos. Aqui, neste lugar comum, na simplicidade dos meus dias.” E o sorriso que lhe vinha aos lábios era tranquilo, marcado pelo tempo, e profundamente humano.




