O sol da tarde derramava sobre Jerusalém um mel dourado e espesso, impregnando as pedras claras da cidade com uma luz que parecia líquida. No pátio do palácio real, o ar estava carregado não do perfume habitual das flores, mas do cheiro acre do azeite misturado ao suor de homens ansiosos. Davi, de pé sob uma sombra estreita projetada por uma coluna, observava em silêncio. Seus olhos, normalmente tão vivos com a centelha de um cântico ou de uma decisão rápida, estavam fixos em um ponto além dos muros, no horizonte ocidental, onde as nuvens começavam a se acumular como exércitos de púrpura e ferro.
Eliazar, um dos capitães mais antigos, esfregava o punho de sua espada com um pedaço de linho. O movimento era repetitivo, quase um ritual. Ele não limpava sujeira, mas sim a própria ansiedade. Na manhã seguinte, ao romper do dia, a hoste de Israel partiria para enfrentar os amonitas, que se haviam fortificado em Rabá. A notícia dos preparativos inimigos era grave: carros de guerra, ferreiros trabalhando dia e noite, provisões trazidas de terras distantes. Uma sombra, fria e silenciosa, pairava sobre os corações mais corajosos.
— O rei deveria descansar — murmurou Eliazar, sem dirigir-se a ninguém em específico.
Mas Davi não ouvia. Seus lábios moviam-se em um sussurro quase imperceptível. Não era uma ordem, nem uma estratégia. Era um diálogo. A tensão no pátio não era apenas a de uma véspera de batalha; era a tensão de uma alma que conhecia o peso da coroa e a fragilidade da vida humana. Ele, o pastor que enfrentara um gigante com uma funda e fé, sentia agora o fardo de milhares de vidas dependendo de suas decisões. E em momentos assim, sua fortaleza não estava nos números de seus soldados, nem na afiação das lâminas, mas em algo muito mais profundo.
Ao anoitecer, a ordem inesperada foi dada. Não para revisar armaduras ou conferir mapas. Davi convocou os levitas e o sumo sacerdote. O santuário, ainda abrigado na tenda que acompanhara o povo pela jornada no deserto, tornou-se o centro das atenções. Tochas foram acesas, lançando sombras dançantes sobre os rostos sérios dos homens que se reuniram. O aroma do incenso, doce e solene, começou a substituir o cheiro de metal e temor.
Davi adentrou o espaço sagrado com uma simplicidade que surpreendia a muitos. Sem a coroa real, vestindo um manto simples de linho, ele parecia apenas um homem. E era exatamente isso que ele era, e o que ele queria ser naquela hora: um homem diante de seu Deus. Ajoelhou-se sobre a terra batida, e ao seu redor, em um semicírculo silencioso, ajoelharam-se também seus capitães, seus conselheiros, e até os servos mais humildes que haviam conseguido se achegar.
Não houve um discurso grandioso. O sumo sacerdote, com as mãos levantadas, começou a falar. Suas palavras, porém, não soavam como suas. Soavam antigas, cheias de uma autoridade que vinha de um lugar que nenhum exército poderia alcançar.
“O SENHOR te responda no dia da angústia”, sua voz ecoou na quietude da tenda, grave como o som de um bronze profundo.
Eliazar, ainda ajoelhado, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Não era medo. Era algo diferente. Era como se uma porta se abrisse no céu abafado da sua preocupação. A palavra “angústia” nomeou exatamente o nó que apertava seu estômago desde a manhã.
“O nome do Deus de Jacó te proteja.”
O nome. Não era um amuleto, uma palavra mágica. Era identidade. Era história. O Deus de Jacó, aquele que lutara com um homem à beira do ribeiro e o abençoara mesmo em sua ferida. Aquele Deus era a fortaleza.
As palavras continuaram, fluindo como um óleo precioso sobre feridas ainda não abertas. “Envie-te socorro do santuário e de Sião te sustenha.” Socorro do santuário. Eliazar olhou em volta. O santuário era aquele lugar simples, com seus véus e seu altar de bronze. Mas as palavras faziam parecer que dali, daquele exato ponto de oração, poderia surgir um exército de auxílio invisível, mais poderoso que todos os carros de ferro de Amom.
“Lembre-se de todas as tuas ofertas e aceite os teus holocaustos.”
Davi inclinou a cabeça mais profundamente. Suas ofertas não eram apenas os animais sacrificados naquele dia. Era sua vida, seu reinado, suas vitórias passadas e seus fracassos confessados. Tudo colocado sobre o altar.
Então veio a petição que fez o coração de todos acelerarem de esperança: “Conceda-te conforme o teu coração e cumpra todo o teu propósito.”
O coração de Davi. Qual era seu propósito ali? Não apenas a vitória militar. Era a preservação do povo da aliança. Era a justiça. Era o estabelecimento de um reino onde o nome do SENHOR fosse conhecido. A oração pedia que esse propósito, alinhado com a vontade divina, se cumprisse. E naquele momento, cada homem presente sentiu que seu próprio propósito – proteger seu irmão, defender sua família, servir ao seu rei e ao seu Deus – também estava sendo colocado diante do trono celestial.
A voz do sacerdote se fortaleceu, carregada de uma fé que era um escudo tangível: “Nós nos alegraremos pela tua salvação e em nome do nosso Deus hastearemos pendões. O SENHOR satisfaça a todos os teus rogos!”
Agora, era uma declaração. “Nós nos alegraremos”. Era futuro. Era certeza. A salvação ainda não havia acontecido no campo de batalha, mas já era celebrada no santuário. A fé antevia o que os olhos ainda não podiam ver. Eliazar sentiu seus ombros, antes carregados de um peso invisível, aliviarem-se. Um suspiro coletivo, quase um gemido aliviado, percorreu os homens ajoelhados. Hasteariam pendões. Bandeiras de vitória, não de ostentação humana, mas em nome do seu Deus.
A oração chegou ao clímax com uma afirmação que ecoou como um trovão calmo: “Agora sei que o SENHOR salva o seu ungido; ele lhe responderá do seu santo céu com a força salvadora da sua mão direita.”
“Agora sei.” Não era “espero”, nem “talvez”. Era conhecimento. Certeza adquirida não pela visão, mas pelo ouvir. Pela palavra proclamada. Pela memória das antigas fidelidades. Davi, o ungido, era objeto do cuidado específico de Deus. E a mão direita de Deus – símbolo de poder e ação – já estava em movimento.
O contraste final foi deliberado e poderoso: “Uns confiam em carros, outros em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos no nome do SENHOR, nosso Deus. Eles se encurvam e caem; nós, porém, nos levantamos e estamos de pé.”
Na mente de Eliazar, formou-se a imagem clara dos amonitas: a orgulhosa confiança em sua tecnologia de guerra, seus carros reluzentes, seus cavalos poderosos. E então viu sua própria fileira: homens com escudos de couro e espadas de bronze, desprovidos de tal esplendor militar. Mas possuindo um nome. O nome do SENHOR. Essa seria sua glória, seu motivo de confiança. A queda dos soberbos e a estabilidade dos que confiam.
Um silêncio profundo seguiu-se às últimas palavras. O incenso subia em espirais lentas para o alto da tenda. Davi levantou-se. Sua face estava molhada de lágrimas silenciosas, mas seus olhos agora brilhavam com a mesma chama que Eliazar lembrava dos dias mais jovens, quando coragem e fé eram a mesma coisa. Sem dizer uma palavra, ele virou-se e saiu do santuário. Seus passos eram firmes.
Eliazar ergueu-se também, e ao fazê-lo, percebeu que algo havia mudado. A angústia do “dia da angústia” havia sido nomeada e entregue. O socorro do santuário já havia sido enviado, na forma de uma paz inexplicável que arraigava seus pés ao chão. O propósito fora reafirmado. A certeza da resposta habitava o ar.
Ao saírem para a noite fresca, olhando para as estrelas que começavam a perfurar o véu escuro do céu, nenhum deles falava sobre táticas ou números. Sussurravam as frases que haviam ouvido, como se fossem provisões mais vitais que pão ou água. “O SENHOR te responda… O nome do Deus de Jacó… Nós nos alegraremos…”
A batalha de Rabá ainda era um amanhã incerto. Mas a resposta ao grito do coração já fora dada no santuário, naquele crepúsculo em que a oração de um rei se tornou o brado de confiança de todo um povo. Eles se deitaram naquela noite não com o sono inquieto de homens prestes a guerrear, mas com o descanso profundo daqueles que sabiam, agora, em quem confiavam. O resto pertencia às mãos que seguravam os cetros dos céus.




