Bíblia em Contos

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Bíblia

Vale do Desprezo e Silêncio

Era o vale. Sempre o vale. Antes, minhas palavras eram recebidas no conselho, à sombra do carvalho onde os anciãos se reuniam. Agora, meu auditório era este declive árido, esta ravina de pedra quente e poeira que se levantava ao menor sopro, grudando-se na pele úmida de suor e lágrimas. O sol, um disco de latão impiedoso, martelava a paisagem até que tudo brilhasse com uma luz doente e opaca.

E eles vinham. Os que eu teria desprezado em meus dias de prosperidade, cujos pais eu não julgara dignos nem de guardar os meus cães. Rapazes mirrados, de ossos pontiagudos sob a pele curtida, filhos da fome e da penúria. Viam-me de longe, sentado na cinza, o único trono que me restava. E riam. O som não era de alegria, mas um grasnado seco, um roçar de pedras. Vinham mais perto, e eu conseguia ver o brilho de escárnio nos olhos deles, uma malícia precoce alimentada pela miséria.

“Olhem só o príncipe”, gritava um, arrancando um punhado de gravetos secos e atirando-os ao vento que me cercava. “O que foi, poderoso? Perdeu sua coroa?” Outros se aproximavam, e o cheiro deles chegava antes – um odor agridoce de sujeira, de frutas apodrecidas colhidas nos lixões, de corpos sem água para se lavar. Formavam um semicírculo, não muito perto, mas perto o bastante para que eu visse os detalhes: os dedos dos pés encardidos e com unhas como garras, os cabelos embaraçados como ninhos de cobra, as roupas reduzidas a trapos que mal cobriam a vergonha.

Um deles, mais ousado, cuspiu no chão entre nós. A saliva escura formou uma mancha redonda na poeira. “Ele falava tanto com Deus”, disse o cuspidor, e os outros riram da piada que só eles entendiam. “Agora Deus não atende, é?” E então, num gesto que cortava mais fundo que qualquer espada, viravam as costas. Não um afastar-se respeitoso, mas uma volta lenta, desdenhosa, mostrando-me a grossura dos seus calcanhares rachados. E depois partiam, aos tropeções, suas gargalhadas ecoando nas paredes do vale como o grasnar de aves de rapina.

À noite, o terror era diferente. A dor física era uma besta de carga pesada e constante, uma presença que se aninhava nos meus ossos. A pele, coberta de chagas, parecia um pano grosso e repuxado, prestes a rasgar-se a cada movimento. A comichão era um fogo brando, inapagável. Deitado no chão duro, sobre um saco áspero, eu sentia o corpo pulsar em um ritmo agonizante. E então vinham os ataques. Não eram apenas dores, mas assaltos. Era como se uma mão invisível me agarrasse pelas vestes – pelos trapos que ainda me cobriam – e me sacudisse com violência incontrolável. Meus membros contraíam-se, os músculos travavam em nós de angústia. A dor tornava-se soberana, um tirano que ascendia ao trono do meu próprio corpo, destronando a razão. Gemia, e o som saía rouco, ecoando na solidão. Nos momentos de trégua, ofegante, eu escutava: o silêncio era pior. Era um silêncio ativo, pesado, como se o próprio ar me pressionasse, recusando-se a levar uma só de minhas súplicas para além do teto de pedra do céu.

A oração tornara-se um monólogo desesperado lançado a um muro. “Clamo a ti, e não me respondes”, sussurrava, e as palavras se perdiam na boca seca. “Fico em pé, e apenas me observas.” Tu te transformaste em algo cruel para mim, na força da tua mão que me persegue. Era essa a percepção mais devastadora: a mão que um dia me abençoara, que cercara a minha casa e os meus campos, agora apertava-me, esmagava-me. Não era ausência. Era presença hostil. Ele me lançava na lama, e eu, que antes era confundido com a poeira sob os pés dos notáveis, agora era literalmente menos que pó, era lodo, uma massa informe e repulsiva.

E então a memória, essa faca de dois gumes. Já não pensava em ouro, em rebanhos, em respeito. Pensava nos meus filhos. O grito vinha de um lugar tão profundo que parecia rasgar o que restava da minha alma. “Agora, porém, derramo a minha alma em pranto.” Eu os via, não como homens e mulheres, mas como crianças, correndo pelos pátios da casa grande, o som dos seus passos leves ecoando nas colunas. A voz do mais novo, tentando cantar uma canção que eu lhe ensinara. O cheiro do cabelo da mais nova depois do banho. Eram memórias tão vívidas que doíam fisicamente, uma pontada aguda no peito. Eu chorava por eles, mas também chorava por mim, pelo pai que fora, pela voz que os abençoava todas as manhãs. Agora, quem abençoaria a mim? Chorava até a exaustão, até que o sono, esse parente pobre da morte, me levasse por algumas horas de esquecimento torto.

Os dias se arrastavam, todos iguais no seu horror, mas cada um com sua nuance de tormento. A honra se desfez como fumaça. A música que uma vez alegrara meu coração agora era um rangido intolerável. A prosperidade era um conto de outro homem, uma história que eu ouvia sobre alguém que nunca conheci. Eu estava cercado. Pelos homens, pelo sofrimento, e por Ti. Como uma cidade sitiada, as muralhas caíram, e o inimigo entrou a esmo, pilhando e destruindo. Tudo o que fui foi dissipado, levado pelo vento quente do vale, aquele mesmo vento que antes trazia o cheiro das flores do campo e agora só trazia o gosto amargo da cinza.

E no centro de tudo, a pergunta que não era uma pergunta, mas um estado de ser: por quê? Não um brado de revolta, mas um lamento surdo, constante, como o zumbido de um enxame dentro do próprio crânio. Eu, que buscara a justiça e vestira a retidão, era agora um irmão dos chacais, um companheiro de avestruzes. Minha pele, negra e descascando, pendia sobre os meus ossos; meus ossos queimavam com a febre. A harpa que guardei em silêncio só conhecia agora a nota da lamentação, e minha flauta, o som choroso do pranto.

O vale era meu espelho. Seco, estéril, abandonado pelos bons ventos e pelas chuvas férteis. E eu, assentado no seu centro, era a sua expressão mais perfeita: um homem reduzido ao seu grito mais essencial, dirigido a um céu que permanecia de bronze, implacável em seu silêncio eloquente. A única certeza era a do abandono. E ainda assim, mesmo do fundo desse buraco, mesmo com a voz arranhada pelo pó e pelo desespero, o endereço do meu lamento permanecia o mesmo. Era a Ele que eu acusava de me despedaçar. Era para Ele que meu grito, em última instância, ainda se dirigia. No epicentro da descrença, uma fé paradoxal e ferida insistia em nomear Aquele que a ferira. O vale testemunhava não a ausência de um diálogo, mas o seu capítulo mais tenebroso e incompreensível.

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