Bíblia em Contos

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O Decreto e a Coragem

O sol daquela manhã não era o mesmo. A diferença estava no ar, um peso que se dissipara, deixando para trás uma leveza ácida, como o gosto metálico depois de uma grande tempestade. No palácio de Susã, as pedras de mármore, que há apenas um dia pareciam suar sob a opressão do decreto de extermínio, agora capturavam a luz de um modo quase ofensivo. Ester sentia os joelhos ainda fracos da audiência no pátio interior, da queda de Hamã, da condenação, da reviravolta que parecia um sonho febril. Mas o pesadelo maior ainda estava escrito, selado com o anel do rei, espalhado por cento e vinte e sete satrapias. Um decreto não se desfaz. A lei dos medos e persas era imutável.

Ela se levantou, as pregas de seu manto real arrastando-se sobre os tapetes de lã fina. A ansiedade, antes um nó frio na garganta, transformara-se numa urgência líquida que a impulsionava. Hamã estava morto, sim. Mas sua sombra, seu veneno, seu decreto de sangue, permaneciam vivos. Ester caminhou até as janelas que davam para os jardins suspensos. Lá embaixo, viu uma figura solitária em vestes reais púrpuras e brancas: Mardoqueu. Ele não se movia como um cortesão. Andava com a postura de um homem que carregara um fardo por toda a vida e de repente tivera os ombros aliviados, mas não a memória dos músculos doloridos. O rei lhe dera o anel de selar, a posição, a honra. Mas ainda faltava o essencial: a vida de seu povo.

Ela voltou-se. Precisava falar com Assuero outra vez. A coragem que a levara a aparecer sem ser chamada, arriscando a própria vida, agora se transmutava numa determinação mais complexa. Não era mais sobre um gesto desesperado, mas sobre um trabalho de persuasão, de angústia partilhada, de encontrar uma brecha na própria imutabilidade da lei. Os eunucos a observavam, seus rostos impassíveis, mas ela percebia uma centelha de curiosidade nova neles. A rainha que fora uma sombra por anos agora era o centro de um terremoto palaciano.

O rei a recebeu no aposento privado, onde o ar cheirava a sandalo e a tinta de papiro. Ele parecia mais pensativo do que irado, os dedos tamborilando no braço do trono portátil.
— Ester — disse ele, e a voz dele tinha uma fatiga que ela não ouvira antes. — Hamã pagou por sua traição. Mardoqueu está em seu lugar. O que mais pode pedir a rainha? Será dado. Até metade do reino.
Ela caiu aos seus pés, não num gesto teatral, mas com a genuína fadiga de quem carrega o destino de milhares. As palavras saíram entrecortadas, não por arte, mas por uma emoção que não conseguia mais conter em frases perfeitas.
— Se parecer bem ao rei, e se eu achei graça perante ele, se a coisa parece justa ao rei, e se eu lhe sou agradável… escreva-se que se revoguem as cartas concebidas por Hamã — a voz falhou um instante, ela engoliu seco — que ele escreveu para destruir os judeus que há em todas as províncias do rei. Pois como poderei ver o mal que sobrevirá ao meu povo? E como poderei ver a destruição da minha parentela?

O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado do problema insolúvel. Assuero ergueu a mão, um gesto pesado.
— Vedes — ele falou, olhando para além dela, para a parede onde um baixo-relevo mostrava a imensidão do império. — A propriedade de Hamã dei a Ester, e a ele penduraram na forca, porque atentou contra os judeus. Vós, pois, escrevereis aos judeus, como parecer bem aos vossos olhos, em nome do rei, e selai-o com o anel do rei; porque o documento que se escreve em nome do rei e se sela com o anel do rei não se pode revogar.

Ester compreendeu num clarão. Não era uma revogação. Era um contraponto. Uma nova escrita. Uma brecha na própria lei. O rei não podia apagar as palavras de morte, mas podia autorizar novas palavras de vida. A ordem permaneceria, mas sua força seria anulada por outra ordem, mais forte, mais urgente. Ela olhou para Mardoqueu, que entrara na sala, chamado por um mensageiro silencioso. Seus olhos se encontraram, e nele ela viu a mesma compreensão instantânea, o mesmo alívio agridoce. O perigo não desaparecera, mas agora eles tinham uma espada para enfrentá-lo.

A partir daí, foi um turbilhão. Os escrivães reais foram convocados, não os burocratas lentos, mas os mais velozes, aqueles que dominavam as línguas e os dialetos do império. A cena na sala dos escribas era de uma energia febril. Rolos de papiro fino eram desenrolados, tinta preta e vermelha preparada, penas sendo afiadas. Mardocheu, agora vestindo as cores do poder, ditava. Sua voz, antes usada para lamentações e advertências solitárias, agora ecoava firme, cada palavra um martelo forjando uma armadura para seu povo.

Ele autorizava os judeus, em cada cidade, a se reunirem e a se defenderem. A destruir, matar e aniquilar toda a força armada de qualquer povo ou província que os atacasse, no dia marcado pela sorte de Hamã — o décimo terceiro do duodécimo mês, o mês de Adar. E mais: poderiam saquear os bens dos seus inimigos. Era uma lei de guerra, de autodefesa radical, inscrita agora na autoridade real. Uma carta de esperança escrita com letras de ferro. Ester observava, às vezes sugerindo uma nuance, um termo. O anel do rei, no dedo de Mardoqueu, batia com um som seco e final sobre o selo de argila de cada documento, replicando o gesto fatal de Hamã, mas com um propósito inverso.

Os correios reais, os cavaleiros montados em cavalos velozes, criados nas coudelarias reais, foram despachados. Era uma cena que se repetia, mas com um espírito totalmente diverso da primeira. Antes, um ar de morte sussurrada. Agora, um clima de alerta solene. Os cavalos partiam em todas as direções, levando não um veredito de destruição, mas um direito de combate. A cidade de Susã, que mergulhara em confusão e terror com o primeiro decreto, agora respirava uma agitação diferente. Entre os judeus, a notícia se espalhou como fogo em capim seco. O jejum, o pano de saco, a cinza, deram lugar a um êxtase contido, a um preparativo febril. Eles não seriam cordeiros para o matadouro. Teriam uma chance.

Mardoqueu saiu do palacio finalmente. Não como o humilde servo à porta do rei, nem como o enlutado coberto de cinzas. Saiu vestido de azul celeste e branco, com uma grande coroa de ouro e um manto de linho fino e púrpura. A cidade de Susã exultou e se alegrou. Para os judeus, havia luz, alegria, gozo e honra. Em cada província, em cada cidade, aonde chegava a ordem do rei, havia festa e regozijo entre os judeus. Muitos dos povos da terra, vendo a maré mudar, o poder de Hamã desfeito e Mardoqueu elevado, declararam-se judeus. O medo dos judeus caiu sobre eles.

Ester ficou à janela, observando a cidade que se iluminava com lamparinas, ouvindo os cânticos que subiam das casas judaicas. O alívio era profundo, mas não completo. O decreto de Hamã ainda estava por aí, um veneno na veia do império. O dia treze de Adar ainda viria. A luta estava autorizada, mas não evitada. Ela colocou a mão sobre o ventre, pensando no futuro, no peso de ser ponte entre dois mundos. A história não terminava com um “e viveram felizes para sempre”. Terminava com um “e se prepararam para a batalha”. Havia uma justiça, sim, uma providência tecida nos fios invisíveis das escolhas e das coragens. Mas havia também o suor, o medo, o trabalho duro da preservação. Ester respirou fundo. O sol daquela manhã não era o mesmo. E ela também não era.

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