Era uma coisa que se via, mas não com os olhos do corpo. A memória falhava depois, como se a mente, diante daquilo, se encolhesse para não rachar. Lembro-me primeiro do silêncio. Um silêncio pesado, úmido, como o que precede a primeira trovoada de um temporal no cerrado. Só que não vinha temporal algum. O céu estava seco, de um azul profundo e antigo, mas parado. Tudo parado.
Então, veio a luz. Não uma luz que ilumina, mas uma que revela. Era como se o véu de todas as coisas se dissolvesse, e a estrutura oculta da criação ficasse à mostra. Foi quando vi o mar. Mas que mar era aquele? Não era de água, não tinha maré, nem espuma, nem cheiro de sal e alga. Era um mar de vidro, sim, mas vidro vivo, translúcido e profundo como um céu invertido. Misturado a ele, faíscas de fogo dançavam lentamente, como brasas presas em âmbar. Não dava para dizer onde terminava o chão e começava aquele abismo cristalino. E sobre ele, em pé, os que tinham vencido. Não havia muitos. Suas formas eram nítidas e ao mesmo tempo difíceis de fixar. Não ostentavam armaduras brilhantes ou auréolas convencionais. Tinham a marca da fidelidade no olhar, uma quietude que era poder. Seguravamos harpas, instrumentos estranhos, que pareciam feitos da mesma substância do mar debaixo de seus pés. Estavam parados, mas uma música silenciosa, uma expectativa de cântico, pairava sobre eles como um aroma.
O ar começou a ficar pesado, denso. Aquele silêncio inicial se transformou em um ruído de fundo, um som de fornalha distante, de fundição em larga escala. Era um som que vinha de toda parte e de lugar nenhum. E então, do que eu só posso chamar de Lugar Santíssimo, desceram os sete anjos. A palavra “anjo” é pobre, diminuta. Eram presenças, concentrados de propósito divino vestidos de uma forma que a vista suportava a duras penas. Traziam consigo sete pragas, as últimas. E a terrível beleza disso era que as pragas não eram bolsas ou frascos, mas algo intrínseco a eles, uma missão final que irradiava de seus seres como calor de uma forja. Seus rostos eram sérios, não com a seriedade da fúria, mas com a solenidade absoluta de um ato consumado, irrevogável.
Um deles, cujas vestes pareciam tecidas com o crepúsculo, moveu-se. E do templo, daquela região da visão onde a glória era tão densa que parecia um sólido, saiu uma voz. Era baixa, mas cortava o ruído da fornalha como uma faca fina corta um tecido grosso. A voz não pronunciava palavras humanas, mas o significado era claro como água de fonte: era a ordem. A ordem para que se cumprisse o que estava determinado desde antes da fundação do mundo. Era um sim divino para o fim de todas as coisas.
Foi então que os que estavam sobre o mar de vidro misturado com fogo começaram a cantar. Suas harpas, tocadas por dedos que conheciam a dor e a vitória, emitiram um som que era corda, mas também era vento e era memória. E a voz deles não era uníssono de coral treinado. Era uma mistura de sotaques, de timbres roucos e suaves, de histórias de pescadores, de pastores, de mães, de reis decapitados, de crianças que não chegaram à idade adulta. Cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus. Falavam do Mar Vermelho, do cavalo e do cavaleiro lançados no abismo, do livramento que é também um juízo. Mas o cântico não parava ali. Ele se entrelaçava, fluía naturalmente para o cântico do Cordeiro. E as palavras se misturavam, eram sobre Êxodo e sobre Calvário, sobre a libertação do Egito e a libertação do Pecado. A melodia era complexa, triste e triunfal ao mesmo tempo.
“Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor, Deus Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações! Quem não te temerá, Senhor? Quem não glorificará o teu nome?”
Perguntavam, mas a pergunta já era a resposta. A resposta estava naquele mar de vidro, naqueles anjos de pragas, naquela voz que saía do templo. A santidade deles era absoluta, um fogo que consumia toda leveza, toda trivialidade. Naquele momento, entendi, com uma clareza que doía, o que era a santidade de Deus. Não era apenas pureza. Era a integridade total do seu ser, a sua justiça e o seu amor operando em perfeita e terrível unidade. Era isso que tornava os seus juízos tão assustadores e, ao mesmo tempo, tão incontestavelmente certos. Era por essa santidade que os redimidos cantavam. Eles tinham sido queimados por ela e, paradoxalmente, salvos nela.
Os sete anjos receberam das mãos de um dos seres viventes – uma daquelas criaturas cheias de olhos que vi antes, em outra visão – sete taças. Taças de ouro. Ouro puro, incandescente, que parecia líquido e sólido ao mesmo tempo. Eram cheias da ira de Deus, que vive para todo o sempre. O contraste era cortante: o ouro, símbolo de realeza, de valor, continha agora a consumação de uma rejeição. A fumaça da glória de Deus, e do seu poder, encheu o templo, e por um longo instante – ou uma eternidade? – ninguém podia entrar ali. Nem mesmo os anjos com as taças. Era o momento solene entre a sentença e a execução. O universo segurou a respiração.
A visão começou a se desfazer então, não como um sonho que se esvai, mas como uma pintura sendo coberta por um véu espesso. A última coisa que guardei foi o reflexo do fogo do mar de vidro nos flancos das taças de ouro, e o eco remoto do cântico, que agora parecia sussurrar uma única palavra, repetida como uma onda que não encontra praia: “Verdadeiros… verdadeiros… verdadeiros são os teus caminhos”.
Fiquei só, no meu quarto comum, com o cheiro do dia comum no ar. Mas nada seria comum outra vez. Aquele mar de vidro estava agora dentro de mim. E o silêncio que veio depois era de um tipo diferente: era o silêncio de quem viu o fim começar, e sabe que o cântico, mais cedo ou mais tarde, será retomado.




