Bíblia em Contos

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O Luto de Jerusalém

Era uma cidade que parecia ter esquecido o próprio som dos próprios passos. O silêncio em Jerusalém não era paz; era um peso úmido e cinzento, como uma lã suja envolta sobre as pedras ainda quentes de um sol indiferente. O pó levantado pelas sandálias de estrangeiros assentava devagar sobre os escombros das muralhas. Anaiah, velho demais para ter sido levado, velho demais para reconstruir, sentia esse pó na língua, um gosto constante de cinza e abandono.

Ele se assentava à sombra do que fora a casa do oleiro, agora um amontoado de telhas quebradas e vergalhos retorcidos. Dali, via a colina onde o Templo não mais estremecia de luz ao alvorecer. Só restava uma cicatriz no céu, uma linha irregular de pedras carbonizadas contra o azul. Era aquela ausência que doía mais do que a fome. A cidade, outrora cheia de vozes, de risadas de crianças no mercado, do cantarolar das mulheres nos tanques, do burburinho dos sacerdotes, agora jazia numa quietude doentia. Jerusalém, a princesa entre as províncias, tornara-se uma viúva.

E que viúva. Não a que veste negro com uma dignidade solene, mas a que se revira no chão, as vestes rasgadas, o rosto sujo de lágrimas e terra. As ruas, outrora trilhas de festas e procissões, estavam desertas. Os portões, esses grandes músculos de bronze e madeira que rugiam ao se abrirem, pendiam de suas dobradiças, bocas abertas e mudas, engolindo apenas o vento seco do deserto. Os inimigos entraram por eles como donos da casa, e agora eram eles, os caldeus, que se moviam com passos firmes e olhos curiosos, vasculhando os restos. Jerusalém não tinha mais segredos. Tudo fora violado.

Anaiah fechou os olhos e lembrou das noites de Shabbat. O cheiro do pão fresco, a luz suave das lamparinas dançando nas paredes de pedra, a voz de seu pai lendo os Salmos. Tudo aquilo parecia um conto de outra vida, tão distante e doce que cortava a alma. Agora, a noite trazia um frio que penetrava os ossos e um medo diferente. Não o medo do inimigo às portas, mas o medo do vazio, do silêncio de Deus. Ele olhava para as estrelas, as mesmas que Abraão vira, e elas pareciam frias, distantes, como olhos de estranhos.

Os que sobreviveram ao ferro e à fome arrastavam-se pelas ruínas. Rostos macerados pela desgraça, olhos fundos que já não buscavam o horizonte, apenas o chão à frente, à procura de um resto qualquer, um grão, um pedaço de pano. Os amigos, os companheiros de infância, os vizinhos… muitos tombados nos becos durante o cerco, outros levados para uma terra distante, sua última imagem sendo a poeira dourada da estrada para Babilônia. Jerusalém estava só. Os povos ao redor, outrora aliados por conveniência ou temor, agora viam a sua desgraça e viravam o rosto. Alguns até sorriam, um sorriso curto e amargo de quem vê um rival cair. Não havia consolador.

A culpa era um bicho vivo no peito de Anaiah. Ele não precisava que os falsos profetas do passado, agora calados para sempre, lhe dissessem. Ela ecoava no silêncio dos átrios vazios. Lembrava-se das advertências, dos homens enviados por Javé, vozes roucas que pregavam nas esquinas, ignoradas, ridicularizadas. Lembrava-se da própria complacência, da maneira como se acostumara a uma fé cômoda, de ritos vazios e corações distantes. Haviam profanado o sábado, buscado alianças com potências ímpias, erguido altares a deuses de barro nos altos dos montes. Tudo por um pouco de segurança, um pouco de prosperidade. Tínhamos trocado a glória pelo efêmero, pensava ele, e o gosto dessa troca era agora o gosto de cinza na boca.

O inimigo triunfara, é claro. Estendera a mão sobre todos os seus tesouros. Os vasos sagrados, o ouro, a prata, tudo carregado como troféu comum. Ele vira os jovens, a flor da cidade, homens fortes e mulheres de beleza rara, serem amarrados e levados. Jerusalém, outrora vestida de linho fino e púrpura, agora se envergonia de nudez. Sua imundície estava nas suas saias, não era um segredo. Era uma chaga exposta, uma vergonha pública que todos podiam ver. E ela, a cidade, que se afastara de seu Deus, agora se encolhia, virando o rosto para a parede quebrada, incapaz de suportar o próprio olhar no poço escuro que servia de espelho.

Anaiah deixou escapar um gemido, um som baixo que se perdeu no vasto desamparo. Não era apenas uma cidade em ruínas. Era uma aldea devastada. O coração da aliança fora arrancado. As festas de peregrinação eram memórias fantasmagóricas. Os sacerdotes suspiravam, não em oração, mas em desespero. As virgens, que deviam dançar nos campos nos tempos da colheita, curvavam a cabeça, andando devagar, carregando jarros vazios.

“Senhor”, sussurrou ele, mas a palavra soou oca, apodrecendo no ar parado. “Vê a minha aflição.” Era a única oração que lhe restava. Não uma petição, não um louvor. Um simples apelo para ser visto. Porque naquela solidão absoluta, o pior era a sensação de ter sido esquecido, apagado da memória da própria misericórdia.

O dia declinava, alongando as sombras das ruínas. As pedras, outrora vivas com a presença do Altíssimo, eram agora apenas pedras, frias e mudas. Jerusalém, a viúva desolada, chorava na noite que se aproximava, e suas lágrimas eram as lágrimas salgadas e silenciosas dos que sobraram, regando um chão onde nada mais parecia poder crescer. A justiça havia passado como um fogo. E o que sobrava era o lento, pesado e insondável peso do luto.

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