O calor do entardecer em Jerusalém grudava na pele como um véu úmido. Dos aposentos mais altos do palácio, Davi observava a cidade adormecer em tons de âmbar e sombra, mas não havia paz em seu olhar. Um rolo de couro estava aberto à sua frente, sobre uma mesa de cedro, mas as palavras que ele buscava não vinham das letras já escritas. Vinham do silêncio abafado dos corredores, do sussurro que deslizava entre as colunas, do frio que lhe percorria a espinha em plena canícula.
Era como se o próprio ar estivesse envenenado. Ele, que enfrentara gigantes e exércitos, sentia-se encurralado por um inimigo sem rosto. Eles não marchavam sob estandartes, não desafiavam em campo aberto. Operavam nas entranhas do poder, nas brechas da confiança. Palavras eram suas espadas, e intrigas, suas lanças. Ouvira fragmentos de conversas, interceptara olhares calculistas entre certos conselheiros, percebera um súbito distanciamento naqueles que antes se apressavam para beijar a barra de seu manto.
“Protege-me, ó Deus, da conspiração dos perversos”, pensou, e a frase ecoou em sua mente com a força de uma súplica engasgada. Não era um grito de guerra, mas o sussurro de um homem que sente o chão minado sob seus pés. Ele se levantou, inquieto. O salão estava vazio, mas a solidão era ilusória. Ele podia quase vê-los, nos cantos escuros, afiando suas línguas como quem afia flechas em segredo. Eram palavras venenosas, torcidas, destinadas a atingir de surpresa. Atiravam do esconderijo, das brechas da lei, de trás de sorrisos cordiais. “Quem nos verá?”, era a pergunta que ele imaginava nos lábios deles. Planejavam maldades com esmero, tecendo redes invisíveis, confiantes de que ninguém desvendaria seus planos ocultos.
Davi caminhou até a janela. Lá embaixo, a vida seguia: o vendedor de azeitonas recolhendo sua barraca, crianças correndo atrás de uma bola de trapos, o cheiro de pão fresco subindo de alguma casa. Uma normalidade cruel, que contrastava com a tempestade silenciosa que rugia em seus aposentos. Ele fechou os olhos e, em sua mente de poeta e rei, a metáfora se tornou vívida, terrível. Não eram mais apenas homens. Eram caçadores. E ele, a presa. Armavam ciladas com astúcia, escondiam armadilhas no caminho real, confiantes em sua própria argúcia. “Nenhum dos seus planos falhará; cada coração é um abismo profundo”, murmurou para as pedras da cidade. A maldade humana, quando coletiva e planejada, tinha uma profundidade insondável.
Mas então, como um raio de luz cortando a escuridão mais densa, veio a imagem contrária. Davi sorriu, um sorriso amargo e confiante ao mesmo tempo. O próprio Deus se voltaria contra eles. Não com exércitos de anjos descendo das nuvens num primeiro momento, mas com sua própria língua. A flecha afiada que planejavam atirar se voltaria contra seu próprio peito. A palavra mentirosa que preparavam para arruinar outros se tornaria a evidência de sua própria ruína. Deus os faria tropeçar em suas próprias línguas.
A cena se desenhou diante de seus olhos espirituais com clareza quase cômica. Vi-los-ia fugindo, assustados, não de um inimigo visível, mas do terror que sua própria consciência, despertada pela mão divina, projetaria sobre tudo. A zombaria que preparavam para outros se tornaria seu próprio opróbrio. Todos os que testemunhassem aquilo sacudiriam a cabeça, não em admiração pelo plano maligno, mas em espanto diante do seu fracasso espetacular. A justiça, afinal, não era apenas um decreto; era uma lei tecida na própria estrutura do mundo. O mal carregava a semente de sua própria destruição.
Um vento súbito e fresco entrou pela janela, dissipando o abafamento. Davi voltou à mesa. A angústia que o apertava no peito começava a se transformar. Não em triunfo vingativo, mas em um temor reverente, profundo. O homem que estava só, cercado por inimigos invisíveis, já não estava só. A conspiração dos ímpios, por mais bem urdida, era finita, terrena. A justiça do Eterno era infinita, abrangente como o firmamento que agora começava a se pintar de estrelas.
Ele pegou o cálamo, molhou-o na tinta, e sua mão, antes pesada, moveu-se com uma fluidez repentina. As palavras que buscava agora jorravam, nascidas do alívio e da fé reconquistada. “O justo se alegrará no Senhor e nele buscará refúgio; todos os homens de reto coração gloriar-se-ão.” Não era um hino de vitória garantida sobre os inimigos, mas uma declaração de onde residia, verdadeiramente, a sua segurança. A alegria não vinha da queda alheia, mas da constatação de que havia um Refúgio que nenhuma conspiração poderia penetrar, uma Justiça que nenhuma astúcia humana poderia corromper.
Davi olhou novamente para a cidade adormecendo. Os sussurros nos corredores ainda existiriam. As intrigas, talvez, continuariam. Mas o frio na espinha se fora. Em seu lugar, uma serenidade sólida, como a pedra sobre a qual Jerusalém estava construída. O Salmo estava completo. Não era um grito de guerra, mas o registro silencioso de uma batalha travada e vencida na solidão de um quarto, na firmeza de um coração que, mesmo tremendo, aprendera a confiar. Ele soprou levemente o pergaminho antes de o enrolar. A noite, agora, não parecia mais tão hostil.




