Bíblia em Contos

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Lágrimas e Esperança em Susã

O ar em Susã era espesso e quente, um sopro constante que trazia o cheiro de especiarias distantes e da poeira do deserto. No palácio de inverno, a sombra dos altos muros oferecia uma trégua enganosa. Neemias, o copeiro, acabara de deixar os aposentos reais. Seus dedos ainda sentiam o contorno fresco da taça de prata, seu ouvido ainda retinha os ecos das frases cerimoniosas em persa. Mas seu coração estava em outro lugar. Muito longe dali.

Ele caminhou, não para seus aposentos, mas para um pátio lateral, onde uma figueira velha oferecia um dossel rarefeito. Seus pés, calçados com sandálias finas de servo do rei, arrastavam-se no chão de terra batida. Foi então que viu Hanani, um de seus irmãos, chegando com um pequeno grupo de homens. As vestes deles estavam empoeiradas, os rostos marcados por uma fadiga que ia além da viagem. Nos olhos de Hanani, Neemias não viu a alegria do reencontro, mas uma sombra profunda.

“Falas de Jerusalém?”, perguntou Neemias, sua voz soando estranha aos seus próprios ouvidos. O silêncio que se seguiu foi mais eloquente que qualquer grito. Hanani baixou a cabeça e, quando falou, as palavras saíram cortantes e baixas, como o sussurro de uma lâmina sendo afiada.

“Os que sobreviveram ao cativeiro, lá na província, estão em grande miséria e desprezo. O muro de Jerusalém está fendido, e as suas portas, queimadas a fogo.”

Algo se partiu dentro de Neemias. A imagem que carregava na alma – a cidade dourada de Davi, a cidade do Templo, mesmo em ruínas, como um símbolo silencioso de esperança – desmoronou. Ele não viu pedras. Viu vergonha. Viu a nudez de um povo exposto ao escárnio, a porta da casa arrombada e a claridade cruel do dia entrando onde só deveria haver a reverência da sombra. O muro não era apenas uma estrutura de defesa; era o rosto da cidade, sua dignidade. E aquele rosto estava dilacerado.

Sem uma palavra, ele se virou e entrou no edifício. Seus passos ecoaram no corredor vazio até sua câmara. O sol da tarde entrava em faixas oblíquas pela janela alta, iluminando o pó que dançava no ar. Ele parou diante de um baú simples. Seus dedos, hábeis no manejo das taças reais, tremeram levemente ao desatar o cordão de seu manto. Então, com um gesto brusco e antigo, rasgou a borda da túnica fina. O som do linho se partindo foi seco, definitivo. Em seguida, rasgou o manto. Pedaços de tecido caro caíram a seus pés como pétalas murchas.

Ajoelhou-se. Não numa postura estudada, mas como um homem cujas pernas já não o sustentam. A poeira do chão de terra, levantada por seu movimento, impregnou o tecido rasgado. Ele pegou um punhado dessa mesma terra e cinza de um braseiro próximo e espalhou sobre sua cabeça, sentindo a aspereza contra o couro cabeludo. O cheiro de cinza, acre e antigo, encheu suas narinas. Era o chero do luto. Do fim.

E então, por horas que ele não soube medir, Neemias chorou. Não um pranto alto, mas um lamento silencioso e profundo, que vinha das entranhas. Sua mente via os montes de entulho que outrora foram muralhas. Via os rostos magros dos remanescentes, tentando cultivar terra em meio ao caos, sob o olhar hostil dos samaritanos e outros povos. Sentia, como uma ferida própria, o desprezo que pesava sobre eles. E ali, naquela poeira, ele não era mais o copeiro do rei Artaxerxes. Era um filho de Judá, partido.

Quando as lágrimas secaram, restou um vácuo, um silêncio interior. Foi nesse silêncio que a oração nasceu. Não começou com fórmulas, mas com um suspiro que se tornou palavra.

“Ah! Senhor, Deus dos céus, Deus grande e temível…”

A voz dele era rouca, quase inaudível. Ele se lembrou então, não por acaso, das palavras de Moisés. As palavras da aliança. E elas vieram à sua boca com uma nova urgência: “Que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos.”

Aqui estava o alicerce. A fidelidade de Deus, não a deles. Ele se agarrou a isso como um náufrago a uma tábua. E então, veio a confissão. Não foi genérica. Foi dolorosamente específica, coletiva e pessoal.

“Peço-te que os teus ouvidos estejam atentos… para ouvires a oração do teu servo, que eu hoje faço perante ti, dia e noite, pelos filhos de Israel, teus servos. Confesso os pecados que nós, os filhos de Israel, temos cometido contra ti; sim, eu e a casa de meu pai temos pecado. Corruptamente nos temos portado contra ti, e não temos guardado os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos que ordenaste a Moisés, teu servo.”

Não havia autojustiça em Neemias. Ele se incluía no “nós” pecador. A ruína de Jerusalém não era um acidente do destino ou apenas obra de inimigos cruéis; era, em suas profundas raízes, o fruto amargo da infidelidade. Ele o reconhecia. E esse reconhecimento, em vez de afundá-lo em desespero, abria um caminho. Porque conduzia ao cerne daquela mesma aliança que invocara.

Ele então, com a coragem desesperada de quem lembra uma promessa em meio ao naufrágio, trouxe à memória as palavras ditas a Moisés no Sinai. As palavras que eram um último porto: “Se vós transgredirdes, eu vos espalharei entre os povos. Mas, se vos converterdes a mim, e guardardes os meus mandamentos… ainda que os vossos rejeitados estejam na extremidade do céu, de lá os ajuntarei.”

“Eles são os teus servos e o teu povo”, suplicou Neemias, seus olhos fixos no chão de terra, como se visse através dele. “Que resgataste com a tua grande força e com a tua mão poderosa.”

A oração se encerrou onde começara: na misericórdia. “Ah! Senhor, estejam, pois, atentos os teus ouvidos à oração do teu servo… e faze prosperar hoje o teu servo, e dá-lhe mercê perante este homem.”

“Este homem.” O rei. Artaxerxes, o monarca mais poderoso do mundo conhecido, em cujo palácio Neemias vivia. A petição final não era por uma fuga milagrosa, nem por um exército celestial. Era por algo tangível, político, humano: favor perante o trono. Neemias, da poeira do luto, já começava a planejar a reconstrução. A oração não o removeu do mundo; preparou-o para agir nele.

Os dias se passaram. Neemias cumpria suas funções com a precisão de sempre. Servia o vinho ao rei, atendia aos chamados, era a sombra silenciosa e eficiente nos banquetes. Mas algo mudara. Seus olhos, outrora sempre baixos em respeitosa submissão, agora, às vezes, fixavam-se no rosto do rei, estudando seu humor, seu cansaço, o momento exato. Um propósito frio e ardente como uma brasa oculta instalara-se em seu peito. A tristeza não saíra de seu rosto – era uma máscara gravada pela angústia genuína – mas por trás dela, movia-se uma quieta e obstinada esperança. Ele estava à espera. Não do destino, mas do momento certo. A oração não era um episódio; tornara-se a respiração de sua alma, o pano de fundo constante de cada gesto, cada pensamento. Ele carregava Jerusalém em seu coração, e aquela carga, pesada como pedra, era agora o que o mantinha de pé. A cidade em ruínas aguardava, sem saber, a resposta que começara a brotar nas lágrimas de um homem ajoelhado na poeira de um palácio estrangeiro.

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