O sol da tarde entrava oblíquo pela janela de madeira, pintando de âmbar a poeira que dançava lenta sobre a mesa. Na cadeira de balanço, Elias remexia uma carta amarelada, os dedos nodosos percorrendo as dobras do papel como quem lê em braille uma história antiga. Do quintal, vinham os gritos alegres dos netos, uma algazarra que era música para ele. Mas sua mente, naquela tarde quente, estava longe dali, presa nas palavras que o apóstolo escrevera a uma comunidade cheia de dons e vazia de algo maior.
Lembrava-se de quando era jovem, cheio de um fogo que queimava os outros. Queria falar com a eloquência dos grandes pregadores, entender todos os mistérios, mover montanhas com a força de sua fé. Achava que a fé era uma conquista, um troféu a ser exibido. E o amor? Ora, o amor era um sentimento bom, um complemento. Até que a vida, professor rude e paciente, começou a lhe dar outras lições.
Teve uma tia, Dona Margarida, que nunca soube articular uma defesa teológica complexa. Mal conseguia ler. Mas sua casa era um porto seguro. Elias recordava o cheiro do café sempre pronto, o colo que acolhia crianças sujas de terra, o silêncio que ela guardava diante das fofocas da vizinhança. Ela não falava dos dons do Espírito. Ela os vivia num tom menor, quase invisível. Um dia, adolescente cheio de certezas, ele a questionou sobre uma disputa na igreja. Ela, enquanto passava um pano úmido na mesa, disse apenas: “Filho, barulho a gente faz com a boca. O chão da casa a gente limpa com as mãos ajoelhadas.” Na época, não entendera. Agora, na velhice, aquela frase lhe parecia a mais pura exegese do capítulo que tinha em mãos.
Porque o amor, ele pensava, observando a neta mais nova tentando amarrar o cadarço com uma concentração feroz, não é um dom espetacular. É a paciência de esperar o nó desfeito, sem tomar a tarefa para si. É a bondade de elogiar o esforço, mesmo que o laço fique torto. É a renúncia a se mostrar sempre o mais capaz. A vida de Elias fora pontuada por rastros desse amor silencioso: o amigo que ficou ao seu lado no luto, sem discursos, apenas lavando a louça suja; a esposa, Teresa, que soube suportar seus humores áridos sem revidar, mas também sem se anular; o perdão que teve de engolir seco, amargo como fel, para dar a um irmão que o traíra – e que não produziu reconciliação dramática, apenas aliviou um peso de seu próprio peito.
Ele olhou para a carta. Não era a de Corinto, era uma que seu pai lhe escrevera, cheia de conselhos que na juventude soavam fracos. “Cuidado com o orgulho dos que sabem muito e amam pouco”, dizia uma linha. E ali estava o cerne. A fé que transporta montanhas, sem amor, era apenas um terremoto egoísta. A eloquência dos homens e dos anjos, sem amor, tornava-se um ruído irritante, um prato que cai no chão. Até a entrega heroica do corpo às chamas, se feita para ser visto, era como cinza ao vento.
O amor era paciente nas filas intermináveis, bondoso com o caixa cansado. Não invejava o carro novo do vizinho, nem se vangloriava da promoção do filho. Não se achava o centro das coisas. Suportava as mesmas histórias contadas mil vezes pelo avô senil, acreditava no potencial do filho pródigo mesmo quando todos duvidavam, esperava a cura do amargo, não desistia. O amor era a coluna que sustentava a casa quando o vendaval dos dons passava, estrondoso e passageiro.
Elias balançou a cadeira devagar. Os dons eram necessários, sim. A profecia, as línguas, o conhecimento – tudo tinha seu lugar. Mas eram como a mobília da casa: útil, bela, mas temporária. Um dia, o que é em parte desapareceria. A criança, ele pensou ao ver a neta correr para a mãe, um dia deixa de falar e pensar como criança. A maturidade traz uma visão mais clara, porém menos barulhenta. Agora, ele enxergava como num vidro embaçado, cheio de reflexos de si mesmo. Um dia, veria face a face. E então, o essencial, o que ficaria de pé, seria apenas o que ele tinha construído com amor. Fé, esperança e amor. Os três. Mas o maior, o alicerce que não racha, era o amor.
A tarde caía. Teresa entrou na sala com uma xícara de chá para ele, colocou-a na mesa sem dizer nada, apenas pousou a mão em seu ombro por um instante. Aquele toque, caloso e suave, continha mais teologia que todos os seus sermões de outrora. Elias sorriu, dobrou a carta guardada. A Palavra não estava apenas no papel amarelado. Estava ali, no silêncio compartilhado, no chá que esfriaria se ele não o tomasse, no som dos netos lá fora, no cotidiano sacro de uma vida comum. E isso, ele sabia agora, era tudo.



