Bíblia em Contos

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A Parábola das Duas Águias

Era um daqueles fins de tarde em Tel-Abibe, à margem do rio Quebar, quando o ar, pesado de calor e poeira, começava a ceder lugar a uma brisa que trazia o cheiro da terra úmida e distante. A comunidade de exilados, com suas vestes empoeiradas e rostos marcados por uma saudade que já era parte da pele, reunia-se como de costume para ouvir as palavras de Ezequiel. O profeta não era um homem de gestos largos ou voz retumbante. Sua força estava numa quietude carregada, nos olhos que pareciam ver além do rio e das planícies da Babilônia, até os montes de Judá, agora tão distantes.

Naquele dia, porém, algo diferente pairava sobre ele. Ele não começou com uma repreensão, nem com uma visão de rodas fogueantes. Fitou o povo, seus olhos percorrendo rostos conhecidos, e começou a falar de uma forma que parecia tecer uma tapeçaria com palavras.

“Ouvi-me,” disse, e sua voz era áspera como o cascalho do leito do rio. “O SENHOR Deus trouxe à minha mente uma parábola. Uma história sobre uma grande águia.”

Fez uma pausa, deixando a imagem pairar. As pessoas se inclinaram para frente, crianças quietas nos colos das mães.

“Imaginem essa águia,” continuou ele, os olhos perdidos num ponto acima das cabeças da multidão. “Não uma ave comum, mas majestosa, com asas imensas que cortavam o céu, de plumagem variada, rica em cores. Ela vinha do norte, trazendo o vento gelado das terras altas. E voou direto até o Líbano, até os cedros mais altos, aqueles cujos topos beijam as nuvens.”

As palavras dele pintavam quadros. Dá para ver a sombra da águia deslizando sobre os vales verdejantes. Ezequiel descreveu como a águia arrancou a copa mais tenra do cedro, um broto vigoroso, e o levou consigo. Não para destruí-lo, mas para plantá-lo.

“Ela o levou para uma terra de mercadores,” narrou o profeta, sua voz ganhando um tom mais narrativo. “Uma cidade de comércio, de canais e tijolos. Lá, ela o colocou em solo fértil, à beira de águas abundantes. Como se plantasse um salgueiro. E o broto criou raízes, cresceu, tornou-se uma videira de ramos baixos, voltada para a águia, dependente dela. Suas raízes estavam sob ela, seus galhos se voltavam para ela. Era uma videira viçosa, de ramos frondosos.”

A comunidade ouvia, tentando decifrar. Muitos sussurravam. A águia era Nabucodonosor, isso era claro. O broto do cedro, a linhagem real de Judá. O exílio do rei Jeconias e dos nobres, transplantados para a Babilônia. A videira que crescia era Zedequias, o tio deixado como rei-fantoche em Jerusalém, plantado pelo poder babilônico em solo aparentemente estável, sob o pacto e o juramento feito perante Deus.

Mas então a história de Ezequiel tomou um rumo. Sua voz baixou, tornou-se mais grave, como o rosnado de um trovão distante.

“Contudo,” disse ele, e a palavra caiu como uma pedra, “apareceu outra águia. Grande também, mas de presença diferente. Esta videira, ingrata e de coração volúvel, decidiu virar suas raízes para esta segunda águia. Esqueceu-se do solo onde foi plantada, daquela que a regava. Estendeu seus ramos para ela, na esperança de que esta nova águia a regasse ainda melhor, que lhe desse mais vigor.”

Ele descreveu a cena com amargura: a videira ambiciosa, querendo mais do que o pacto original, seus galhos se torcendo em direção ao Egito, à promessa vã de faraó. Era a traição de Zedequias, quebrando o juramento feito em nome de Deus para buscar aliança com o poder do Nilo.

“Pergunto a vocês,” Ezequiel ergueu a voz, e agora era o profeta do juízo que falava, “terá sucesso? A primeira águia, aquela que a plantou, simplesmente a deixará ir? Ela não arrancará com fúria suas raízes, não cortará seu fruto, não deixará que todos os seus renovos murchem? Será necessário um braço forte ou um grande exército para arrancá-la daquele solo que ela mesma rejeitou?”

A resposta estava na pergunta. Um silêncio pesado assentou-se sobre o povo. Eles sabiam. Sabiam das notícias que vinham de Jerusalém, das maquinações de Zedequias. Sabiam da fúria de Nabucodonosor.

Então, Ezequiel abandonou a parábola. A linguagem tornou-se direta, cortante como uma lâmina.

“Assim diz o SENHOR Deus: Por que ele desprezou o juramento e quebrou a aliança? Eu juro pela minha vida que o preço da traição ele pagará. Minha rede será estendida sobre ele, e na armadilha que ele armou para si mesmo será apanhado. Seus melhores homens cairão pela espada, e os que sobrarem serão espalhados a todos os ventos. E saberão que eu, o SENHOR, falei.”

A condenação era total. Não havia escape. A videira, por ter buscado a segunda águia, não encontraria alívio nela. O Egito seria um caniço rachado que perfuraria a mão de quem nele se apoiasse. A destruição era certa.

Mas era ali, no fundo do poço da parábola, que Ezequiel fez algo inesperado. Depois de anunciar o juízo, depois de deixar claro que o castigo vinha da mão do próprio Deus, irado pela quebra do pacto solene, seu rosto, por um instante, perdeu a rigidez. Um vislumbre de algo além da ira apareceu em seus olhos.

“Contudo…”

A palavra ecoou, pequena, mas carregada de um peso diferente.

“Assim diz o SENHOR Deus: Eu mesmo tomarei um broto do alto do cedro, da copa mais alta. Eu mesmo o arrancarei e o plantarei sobre um monte alto e elevado. No monte sublime de Israel eu o plantarei.”

A imagem era poderosa. Não era mais uma águia estrangeira plantando. Era o próprio Jardineiro divino intervindo. O broto não seria da videira rebelde, mas diretamente da linhagem original, da promessa davídica.

“Ele produzirá ramos, dará fruto, e se tornará um cedro majestoso. Debaixo dele habitarão aves de toda asa, à sombra dos seus ramos farão ninho todas as aves do céu.”

A promessa era de restauração, de uma realeza estabelecida por Deus, tão estável e acolhedora quanto um grande cedro. Um reino onde até as nações (as “aves”) encontrariam abrigo. E então veio a chave, o fechamento teológico de toda a história:

“E todas as árvores do campo saberão que eu, o SENHOR, abati a árvore alta e elevei a árvore baixa, sequei a árvore verde e fiz florescer a árvore seca. Eu, o SENHOR, falei e o farei.”

A assembleia ficou em silêncio. O crepúsculo descia, tingindo o rio Quebar de púrpura e ouro. A mensagem estava completa: o juízo era justo, fruto da infidelidade humana. Mas o último ato não seria da águia babilônica, nem da egípcia. Seria do próprio Deus, que, na sua soberania, corta e planta, seca e faz florescer. A esperança não estava na habilidade política dos reis, mas na fidelidade inabalável d’Aquele que um dia faria brotar, do tronco aparentemente seco de Jessé, um renovo verdadeiro.

Ezequiel não disse mais nada. Sentou-se na areia, cansado. O povo se dispersou em silêncio, cada um levando consigo a imagem das duas águias, da videira insensata e, por fim, do broto tenro que o próprio Deus plantaria em um monte que, naquele momento de exílio, parecia mais um sonho do que um lugar real. Mas era uma promessa. E no deserto da Babilônia, uma promessa era como um fio de água no leito seco de um rio.

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