Bíblia em Contos

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O Artífice e o Ídolo

A tarde em Jerusalém cheirava a poeira e medo. Um calor pesado, não apenas do sol declinante, mas da expectativa sufocante, subia das pedras das ruas e das paredes de casas amontoadas. Baruque, o escriba, enxugou a testa com a manga do manto, sentindo a umidade do suor se misturar ao pó do pergaminho sobre a mesa. Do lado de fora, na Praça do Ferro, o som vinha insistente: o martelar ritmado sobre o metal, o arrastar de toras de madeira pesada, o burburinho de vozes ansiosas. Era um som de fabricação. De criação.

Ele olhou para o homem sentado à sombra do pátio interno. Jeremias parecia esculpido em tristeza sólida. Seus olhos, fundos e escuros, não viam as videiras murchas ao redor, mas algo muito mais distante e terrível.

— Eles estão fazendo de novo — murmurou Jeremias, sem dirigir-se a ninguém em particular. Sua voz era áspera, como pedra desgastada por riachos de lágrimas. — Cortam uma árvore da floresta. Um carvalho, um terebinto, algo que cresceu com a chuva do Senhor, que estendeu seus ramos sob o céu que Ele criou.

Baruque calou a pena. Sabia que as palavras que viriam não eram para o rolo do censo, nem para o registro do templo. Eram para outra coisa. Uma crônica de um desvario.

— Um homem trabalha com o cinzel — continuou o profeta, e sua voz ganhou um tom narrativo, baixo e hipnótico. — Outro cobre o ídolo com prata batida, com ouro de Ufaz. Trabalham até as mãos ficarem calejadas e os olhos, ardidos da fumaça do fole. Pregam o deus com pregos, para que não balance.

Ele fez uma pausa, e um sorriso amargo torceu seus lábios.

— Imagina, Baruque. Um deus que precisa ser pregado para não cair. Um deus mudo. Eles o erguem, esse pedaço de madeira vestido de metal, e se curvam. Falam com ele. Pedem proteção ao que, horas antes, era parte de uma cerca, ou talvez um banco. Oferecem sacrifícios ao que não pode cheirar, não pode ouvir, não pode falar. É como terer medo de um espantalho em uma plantação de pepinos. Serve para algo? Guarda algo? Pode fazer mal? Não. Mas o coração deles… o coração deles prefere a mentira que podem ver e tocar.

A voz de Jeremias se elevou, não em gritaria, mas em uma força contida que parecia ecoar das próprias fundações da casa.

— Assim não será contigo, ó Jacó! Assim não é Aquele a quem pertences! Ele é diferente. Ele é o Formador de tudo. O verdadeiro Artífice.

Baruque começou a escrever, rapidamente, tentando capturar o ritmo daquela fala, que ora fluía como um lamento, ora trovejava como uma sentença.

— O Senhor — ditava Jeremias, e seus olhos agora brilhavam com uma luz refractária — é o Deus verdadeiro. Ele é o Deus vivo. O Rei eterno. Diante da sua indignação treme a terra, e as nações não podem suportar o seu furor.

Do lado de fora, um grito alegre de um artesão anunciava a conclusão de uma estátua. Ouvia-se um arrastar de pés, provavelmente carregando a nova divindade para algum nicho doméstico ou altar de esquina. A contrastação era tão brutal que Baruque sentiu um calafrio.

— Dize-lhes assim — Jeremias inclinou-se para frente, fixando Baruque. — Os deuses que não fizeram os céus e a terra desaparecerão da terra e de debaixo destes céus. São nada. Uma obra de ilusão. Na hora do juízo, perecem.

Ele falou então da potência de Deus, não com a linguagem fria dos sacerdotes, mas com a imagem de um homem do campo que vê a tempestade se formar. Descreveu o trovão da sua voz, tão imensurável que as águas dos céus rugiam em resposta. Falou dos relâmpagos que Ele lança, e a chuva que vem, e os ventos que saem dos seus tesouros. Cada elemento, uma palavra sua. Cada fenômeno, um suspiro de sua vontade.

— Todo homem se embrutece, e fica sem conhecimento — suspirou, e a fúria deu lugar a uma canção profunda. — O ourives se envergonha da imagem esculpida, porque sua fundição é mentira, e não há espírito nela. Vaidade são elas, obra de enganos. Hora da visitação, perecem.

Baruque escrevia, e as palavras no pergaminho pareciam ganhar peso. Não eram mais apenas anotações; eram um memorial do absurdo, um farol na névoa da idolatria. Jeremias falou da porção de Jacó, que não era como essas coisas. Ele era o Criador de tudo. Israel era o povo da sua herança. Seu nome era Senhor dos Exércitos.

Ao final, quando o crepúsculo pintou o céu com tons de púrpura e ferrugem, Jeremias baixou a voz novamente, para um sussurro rouco e pessoal, como se ensinasse uma oração secreta para um filho prestes a enfrentar o desterro.

— Ó Senhor, eu sei que o caminho do homem não está em seu controle, que não é do homem que caminha o dirigir os seus passos. Corrige-me, Senhor, mas com justiça; não na tua ira, para que não me reduzas a nada.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo último martelar distante, agora cessante. A estátua estava pronta. O ídolo, erguido. O coração de muitos, tranquilizado por uma falsa segurança.

Baruque enrolou o pergaminho, sentindo a textura áspera sob seus dedos. A cidade fora dos muros seguia sua vida, seu comércio de esperanças falsas. Mas ali, naquela sala escura que cheirava a tinta e verdade, havia um registro. Um clamor. Uma lembrança de que há um Deus que não precisa de pregos para se manter de pé. E que, um dia, toda fabricação humana se curvaria, não diante de um poste adornado, mas diante do trovão silencioso daquele que é. Eterno. Vivo. Rei.

E a noite caiu sobre Jerusalém, carregada do peso de uma escolha.

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