Bíblia em Contos

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O Ourives e o Bezerro de Ouro

O sol da Babilônia era um peso opressivo, um disco de bronze incandescente pregado no céu sem piedade. Avi, sentado à sombra irrisória de sua tenda de ourives, sentia o suor escorrer por suas costas não como água, mas como um óleo pesado, misturado com a fina poeira dourada que era sua vida. Seus dedos, calejados e hábeis, trabalhavam um pequeno bloco de madeira de cedro, dando-lhe a forma grosseira de um touro. Ao seu lado, sobre um pano de linho, jaziam as ferramentas de sua verdadeira arte: o cinzel, o martelo, o punção para detalhes finos. Mas aquela encomenda era diferente. Não era um colar para uma noiva nem um bracelete para um mercador. Era um ídolo.

Ele respirou fundo, o ar quente queimando-lhe os pulmões. Lembrou-se das palavras de seu avô, sussurradas em noites sob as estrelas de Judá, muito antes do aço caldeu arrastá-los para este vale alheio. Falava de um Deus que não podia ser contido, cuja voz era o vento nas colinas e cujo rosto ninguém podia ver e viver. Agora, Avi moldava deuses por encomenda. Para o mercador acadiano, um Baal de prata. Para a cortesã babilônica, uma Ishtar de ébano e lápis-lazúli. E agora, para um funcionário do palácio, um bezerro de madeira, que mais tarde seria revestido de ouro fino.

“Avi!” A voz era áspera, familiar. Hanan, seu aprendiz, entrou na tenda carregando um saco de carvão. “O forno está quase no ponto. A madeira está pronta para o fogo?”

Avi assentiu, sem levantar os olhos da figura em suas mãos. “Está. Mas primeiro, precisa ser perfeita. Cada curva, cada entalhe. Eles não adoram a madeira, Hanan. Adoram a perfeição que suas moedas podem comprar.”

Hanan riu, um som seco. “Falam que o deus Marduque foi moldado das lágrimas do abismo primordial. O nosso ali será moldado do cedro do Líbano e do suor de um judeu. Uma origem mais honesta, não?”

Avi não respondeu. Seus pensamentos vagavam para as palavras do profeta, aquelas que circulavam às escondidas entre os exilados, escritas em rolos desgastados. Ele as ouvira na última reunião na casa de Obadias. Um homem chamado Yesha’yahu, um voz do passado que falava ao futuro. “O artífice do ídolo trabalha com cinzel… metade da madeira ele queima no fogo, para assar o pão e cozinhar a carne… e do resto faz um deus.”

Era exatamente aquilo. A mesma árvore que alimentava o fogo do seu forno, que cozinhava o cordeiro que ele comeria à noite, fornecia o bloco para o deus encomendado. Uma mesma origem, destinos tão absurdamente diferentes. A madeira que aquecia seu corpo se tornaria o objeto de uma adoração gelada e vazia.

Os dias se arrastaram, quentes e poeirentos. A forma do bezerro foi finalizada, lisa, poderosa, com chifres curvados para o céu. Avi aplicou o gesso, criando o molde perfeito. Depois, com mãos firmes, derreteu o ouro no cadinho – o mesmo fogo que cozinhara seu pão naquela manhã agora liquefazia o metal precioso. O ouro derramado correu para o molde, um rio dourado e brilhante capturando a forma inerte da madeira. Quando esfriou, Avi quebrou o molde. E ali estava ele: um bezerro de ouro puro, reluzente, cego, mudo, imóvel sobre a bancada.

O funcionário do palácio veio buscá-lo. Seu rosto era largo, satisfeito. “Excelente trabalho, ourives! Ele será colocado no nicho da minha casa. As ofertas de incenso já estão preparadas. Certamente me trará prosperidade.”

Avi inclinou a cabeça, aceitando o pagamento. O peso das moedas em sua mão era frio. Ele observou o homem partir, carregando cuidadosamente o deus feito por suas mãos. Uma onda de náusea, repentina e profunda, subiu em sua garganta. Não era cansaço. Era a clareza de um absurdo monumental.

Naquela noite, ele não conseguiu dormir. A lua banhava Babilônia de um prata frio. Ele saiu da tenda, caminhando sem rumo pelas ruas laterais, até chegar a um canal menor, onde o cheiro da cidade era menos forte. Sentou-se numa pedra, olhando o reflexo da lua na água escura.

E então, como se uma voz sussurrasse dentro de seu espírito, não com som, mas com uma força de lembrança, as palavras do profeta voltaram, completas, vivas:

“Assim diz o SENHOR, teu Redentor, aquele que te formou desde o ventre: Eu sou o SENHOR, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra… que desfaço os sinais dos falsos profetas e torna loucos os adivinhos; que faço recuar os sábios e transformo em loucura o conhecimento deles.”

Avi olhou para o céu. Não o céu de bronze do dia, mas o céu noturno, estrelado, profundo, infinito. Aquele céu havia sido estendido. A terra sob seus pés, espraiada. Não pelas mãos de um ourives, nem pela vontade de um rei. Por um só. O mesmo que o formara no ventre de sua mãe, que conhecia seu nome, Avi, filho de Eliab, no meio da multidão exilada da Babilônia.

O bezerro de ouro era mudo. Mas o silêncio ao seu redor agora era diferente. Não era a ausência de som, era a presença de algo imenso. O ídolo que ele fizera com suas mãos jamais poderia dizer: “Não temas”. Jamais poderia dizer: “Eu te redimi, chamei-te pelo teu nome, tu és meu”. Jamais poderia prometer que as águas fluiriam sobre a terra seca, que o espírito seria derramado sobre a sua descendência.

Ele, Avi, havia pegado uma árvore. Parte usara para o fogo. Parte para um deus. Ambos se consumiriam, um em cinzas, o outro na poeira do esquecimento. Mas o Deus de seu avô, o Deus de Yesha’yahu… esse Deus tomara o barro e fizera um homem. Tomara uma nação em ruínas e prometera reconstruí-la. Tomara um coração seco como a madeira e falava agora de derramar água sobre ele.

As lágrimas chegaram então, silenciosas, lavando o pó dourado de seu rosto. Não eram de tristeza apenas, mas de um reconhecimento avassalador. Ele não era apenas um ourives num reino estrangeiro. Ele era Avi, inscrito nas palmas de uma mão que nenhum cinzel poderia esculpir. O verdadeiro Artífice não estava na tenda, trabalhando a matéria. O verdadeiro Artífice o cercava, falava através do tempo, redimia através da promessa. O ídolo era um ponto final. O Deus de Abraão era um caminho aberto, uma nascente no deserto.

Ao voltar para sua tenda, o dia já clareava no horizonte. O forno estava frio, as ferramentas inertes sobre a bancada. Hanan ainda dormia. Avi pegou um pequeno pedaço de argila que usava para esboços. Sem pensar muito, com a ponta dos dedos, começou a moldar não a figura de um touro ou de um deus celestial, mas a forma de uma colina baixa, com três pequenas elevações. Não era para venda. Não era para adoração. Era apenas um lembrete, tosco e imperfeito, feito pelas mãos de um homem que, naquela noite, se lembrara de que era mais do que suas mãos podiam fazer.

Ele era a obra. E o Oleiro, aquele que não se cansava, não se enganava, e cuja promessa era mais firme do que o ouro mais puro, seguia trabalhando.

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