Bíblia em Contos

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A Fonte e o Cântico de Eliazar

A man chamado Eliazar subiu a rampa do Templo num fim de tarde que cheirava a pó quente e a óleo de lamparinas. Seus pés, calçados com sandálias gastas pela estrada da Judeia, sentiam a pedra ainda morna do dia. Não era um dia de festa solene, mas ele viera mesmo assim, impelido por um cansaço que não era só do corpo. O coração, esse pesava como se carregasse no peito as cinzas de todas as derrotas silenciosas, dos medos que sussurravam no escuro, daquela angústia surda que acompanha os que vivem em tempos incertos.

O pátio dos homens estava menos cheio. Um levita, com voz rouca de tanto cantar, entoava um salmo ao longe, mas as palavras se perdiam no vasto espaço, misturadas ao arrastar de roupões de linho, ao balir distante de um cordeiro, ao rumor surdo da cidade abaixo. Eliazar encostou-se a uma coluna, seus olhos percorrendo a fachada imponente do Santo Lugar. Ele não era um homem de letras sofisticadas, não decorava profecias inteiras, mas trechos vinham à sua mente como fragmentos de um sonho. E veio-lhe então à memória, clara como água de fonte, uma palavra que ouvira na sinagoga: “Naquele dia, você dirá: ‘Eu te louvo, Senhor…’” A frase ficou rolando dentro dele, incompleta, como uma semente à espera de terra.

Um grupo de peregrinos galileus passou, falando alto. O ruído quebrou seu recolhimento, mas trouxe também um pensamento: a ira. Ah, a ira divina. Ele olhou as mãos, calejadas. Quantas vezes não sentira medo dela? Medo de um Deus distante e terrível? Mas o trecho continuava, teimoso: “…pois estavas irado contra mim, mas a tua ira afastou-se…”. Eliazar respirou fundo. O ar cheirava a incenso agora, trazido por uma brisa súbita que fez as chamas das lâmpadas dançarem. Era isso? Não era que a ira tivesse se evaporado como névoa. Era que ela tivera um propósito, um fim. Como o fogo que purifica o metal, não para destruí-lo, mas para separar a escória. Um alívio estranho, não doce, mas sólido, começou a se firmar em seu âmago. A disciplina não era o abandono. Era o contrário.

Ele se moveu, aproximando-se da área onde ficavam as pias de bronze. Um sacerdote, com seus trajes brancos imaculados, lavava as mãos com movimentos ritmados. A água brilhou ao sol baixo. *“Com alegria vocês tirarão água das fontes da salvação.”* A frase brotou completa em seu pensamento, e com ela, uma imagem vívida de seu poço em casa, no campo. O som do balde atingindo a água fresca e profunda, o esforço dos braços puxando a corda, a primeira gota, fria e pura, batendo nos lábios ressecados. A salvação não era um conceito vago, uma promessa para depois. Era algo que se tirava. Agora. Com esforço? Sim. Com os braços da fé. Mas se tirava. Era água para a sede de hoje.

Algo mudou dentro de Eliazar. O peso no peito não desapareceu, mas transformou-se. Já não era uma âncora, mas uma pedra fundamental. Ele se endireitou. Os olhos, antes baixos, levantaram-se e percorreram o pátio, a multidão dispersa, as torres de Jerusalém ao longe, tingidas de ouro pelo sol poente. E então, baixinho, quase um sopro, as palavras começaram a sair. Não era uma oração decorada. Era uma conversa.

“Eu te louvo, Senhor.” A voz era rouca, mas firme. “Mesmo quando eu não entendia. Tu eras a minha força. E agora… agora és o meu cântico.” Um sorriso discreto surgiu em seus lábios. Um cântico. Ele, Eliazar, agricultor, rude de mãos, não sabia compor salmos. Mas sentia uma melodia dentro do peito, uma batida tranquila que seguia o ritmo de seu próprio coração, agora em paz.

A alegria, percebeu ele, não era como a dos homens bêbados de vinho na praça. Era diferente. Era profunda, quieta, como a corrente subterrânea que alimentava seu poço. Transbordava, sim, mas para dentro primeiro, enchendo todos os espaços vazios de calma. “Com alegria tirarei água”, pensou. Amanhã, de volta ao campo, ao trabalho duro, às incertezas. A fonte não estava aqui, apenas no Templo. A fonte era o próprio Deus, e ele a levaria consigo.

Ele se virou, começando a descer a rampa de volta para a cidade baixa, para a estalagem humilde onde estava hospedado. A noite caía, e as primeiras estrelas pontilhavam o céu de um azul profundo. Olhou para as casas, para as luzes que começavam a cintilar. Sua voz, agora mais forte, sussurrou para o crepúsculo: “Clamem e celebrem, vocês que moram em Sião, porque é grande no meio de vocês o Santo de Israel.”

Não era um grito. Era uma afirmação. Um segredo proclamado ao escuro que se adensava. O Santo não estava confinado atrás do véu. Estava *no meio*. No meio da poeira das ruas, no meio dos conflitos, no meio do coração de um homem simples que subira ao Templo carregado de temor e descera dele carregado de canção.

Eliazar entrou na rua estreita. O cheiro era de comida simples e de animais. Um burro passou, arrastando as patas. Ele tocou no ombro do animal, num gesto quase inconsciente. A vida continuava, comum, terrena. Mas nada era mais o mesmo. Ele tinha uma fonte. Tinha um cântico. E, no meio de tudo, tinha a certeza silenciosa de que Aquele que é Grande, era, por um mistério tremendo e doce, também próximo. Muito próximo. E isso bastava. Era mais que suficiente para a jornada que ainda havia pela frente, sob o vasto céu noturno.

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