A poeira do entardecer era fina como cinza de carvão apagado. Subia das ruas não pavimentadas de Jerusalém com cada passo dos poucos que se atreviam a circular naquela hora, grudando-se à pele suada e ao muro ocidental do Templo, aquele que ainda tentava erguer-se, pedra sobre pedra cansada. Eu, Ezequias, filho de Jaaziel, um dos sacerdotes incumbidos da reconstrução, apoiei as mãos na pedra áspera. O sol, ao se pôr, não dourava a cidade; apenas a tingia de um tom ferrugem, cor de memória antiga e esperança adiada.
Havia décadas desde o retorno. Décadas desde que os cantos de Sião, aprendidos às margens dos rios da Babilônia, puderam enfim ecoar entre estes montes. Trouxemos de volta o ardor, as tradições, a Lei. Mas a graça? A graça parecia um perfume derramado há muito tempo, cujo frasco agora só guardava o aroma fantasma. O povo trabalhava sob um sol de chumbo, a muralha crescia devagar, e os corações… os corações estavam cheios do pó do caminho e de uma pergunta surda, que ninguém ousava vocalizar: “Foi para isto que Ele nos restaurou?”
Naquela noite, na minha cela escassa de luz, o rolo do salmista estava aberto diante de mim. Não eram as palavras triunfais de Davi que buscava, mas um lamento que ecoasse nossa condição. E então, os versos. Como chuva em terra ressecada, eles caíram:
*“Mostraste favor, Senhor, à tua terra; restauraste a sorte de Jacó. Perdoaste a culpa do teu povo e cobriste todos os seus pecados.”*
Um suspiro profundo saiu de mim, não de alívio, mas de angústia reconhecida. Sim. Isso aconteceu. Foi real. A mão pesada do cativeiro foi retirada. As correntes, quebradas. O perdão, declarado. Nós *sabíamos* disso. A memória coletiva guardava o estrondo dos portões da Babilônia se abrindo. Por que, então, o presente era tão árido? Por que a alegria tinha o gosto de farelo e a paz era apenas a ausência temporária de novos desastres?
Continuei lendo, e a voz do salmista, séculos à frente do meu tempo, parecia sussurrar dentro da minha própria alma:
*“Não voltarás a indignar-te contra nós? Não prolongarás a tua ira de geração em geração? Não nos restaurarás à vida, para que o teu povo se regozije em ti?”*
Lá estava. A pergunta não dita, o gemido escondido atrás do trabalho diário. Temíamos que aquele favor inicial fosse apenas um instante de clemência, seguido por um eterno e severo julgamento. Tínhamos voltado para a terra, mas não tínhamos certeza se Deus havia verdadeiramente voltado para nós. A terra gemia sob nossos pés, esperando mais do que nossos muros de pedra; esperando o toque d’Aquele que faz brotar a justiça.
Nos dias que se seguiram, passei a andar pela cidade com outros olhos. Observava Zorobabel, nosso governador, cuja fronte estava permanentemente sulcada pela preocupação com provisões e pela oposição dos samaritanos. Via as mulheres nos mercados, regateando preços com uma tenacidade que escondia o medo da próxima fome. Escutava os anciãos, que nas reuniões ao pôr-do-sol, lembravam com vozes trêmulas a glória do Primeiro Templo, um brilho que ofuscava nossa pobre realidade atual. Tudo era esforço. Tudo era *obtenção*. O dom, a dádiva gratuita, parecia ter ficado para trás, naqueles primeiros dias do êxodo da Babilônia.
Uma tarde, subi até o que seria o pátio dos sacerdotes. O altar dos holocaustos, provisório, estava frio. O vento soprava do deserto, trazendo o cheiro seco do sertão. Sentei-me sobre uma pedra lavrada, a cabeça entre as mãos. A oração não vinha em palavras, apenas num peso imenso sobre o peito. E no silêncio forçado daquele lugar inacabado, os últimos versos do salmo, que havia decorado, começaram a emergir não como texto, mas como uma promessa tangível, quase audível no sussurrar do vento:
*“Escutarei o que Deus, o Senhor, disser: ele promete paz ao seu povo, aos seus fiéis… Certamente, a sua salvação está perto dos que o temem, e a glória habitará na nossa terra.”*
Olhei em volta. Poeira, pedras semidesbastadas, silêncio. “Glória habitará nesta terra?”, pensei, com um ceticismo amargo. E então, como se em resposta, o vento mudou. Um cheiro diferente veio, não do deserto, mas dos vales ocidentais: a fragrância úmida de terra molhada, de chuva distante. Uma brisa suave, fresca, varreu o pátio. Não era um milagre, apenas uma mudança de vento comum no fim da tarde. Mas naquele instante, para mim, foi um sinal.
A “glória” de que falava o salmo não seria, talvez, a nuvem fulgurante de outrora. Talvez fosse algo que *habitava*. Que se fazia presente no cotidiano. E os versos finais se encaixaram, como chave em fechadura enferrujada:
*“A fidelidade e a verdade se encontrarão; a justiça e a paz se beijarão. A verdade brotará da terra, e a justiça descerá dos céus.”*
Não era uma visão apocalíptica. Era uma descrição de um relacionamento restaurado. A fidelidade de Deus e a verdade do homem, que andavam apartadas desde o exílio, se encontrariam outra vez. A justiça divina e a paz humana, inimigas em nossa experiência recente, se beijariam como amigos reconciliados. Não seria um evento espetacular, mas um brotar. Como a primeira erva teimosa depois da estiagem, a verdade brotaria *da terra*, desta mesma terra poeirenta que pisávamos. E a justiça desceria dos céus não como um raio, mas como a chuva serena, penetrante.
Desci do monte com o coração diferente. Não estava eufórico. A muralha continuava pela metade, o povo continuava cansado. Mas algo havia mudado dentro de mim. Comecei a ver os sinais pequenos. A justiça desceu dos céus na forma de uma chuva miúda e persistente na semana seguinte, que encheu as cisternas. A verdade brotou da terra quando o jovem casal que fora pego em adultério não foi apedrejado, mas, após confissão, foi acolhido em processo lento de restauração pela comunidade. A fidelidade e a verdade se encontraram no rosto de um velho escriba que, mesmo com visão falhando, ensinava a Lei às crianças sem cobrar nada, apenas pelo amor à Palavra.
E a justiça e a paz se beijaram. Isso eu vi numa sexta-feira, ao crepúsculo. Dois homens, um de Judá e um samaritano que fornecia madeira, estavam prestes a brigar por um pagamento mal-entendido. Os ânimos se exaltaram, os punhos se cerraram. E então, sem que ninguém soubesse bem porquê, ambos pararam. Olharam um para o outro, viram a mesma fadiga, o mesmo medo do futuro, a mesma necessidade de levar algo para casa. O samaritano abaixou a mão primeiro. O judeu suspirou, e propôs um acordo. Não foi um tratado político. Foi um beijo de paz, frágil e humano, no meio do canteiro de obras da história.
O Salmo oitenta e cinco não nos deu um novo Templo naquela semana. Mas plantou em nós, naqueles que tiveram ouvidos para ouvir além do ruído das marteladas, uma certeza vegetal, lenta e profunda. Deus não havia se arrependido do seu favor. Ele estava fazendo algo novo, que nascia não do estrondo, mas do brotar. A restauração completa ainda era uma promessa no horizonte, mas a graça, essa graça que temíamos perdida, estava aqui. No cheiro da chuva sobre a poeria, no acordo frágil entre inimigos, no ensino paciente de um velho. Habitando. Brotando. Beijando. E era o suficiente para seguirmos construindo, com esperança de barro e fé viva, pedra sobre pedra.




