Bíblia em Contos

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O Peso do Salmo na Escuridão

O ar na sala de trabalho de Eitan era espesso, não apenas com o calor que subia das pedras da cidade baixa, mas com um silêncio carregado. A tarde dourada entrava pela fresta da janela, iluminando o rolo de couro aberto à sua frente. Tinha sido um dia de ruídos. O mercado fora um tumulto de vozes ásperas, de negociações que beiravam a ameaça, de risadas que não vinham dos olhos. Ele ouvira fragmentos de conversas ao passar por grupos de comerciantes e soldados romanos: discussões sobre poder, sobre como subjugar o rival, sobre os prazeres efêmeros que Jerusalém, sob o jugo estrangeiro, parecia oferecer com mais urgência. Uma palavra, uma atitude, um olhar de desprezo por um mendigo aos pés do portão… tudo isso ecoava dentro dele agora, no silêncio do seu canto.

Seus dedos, manchados de tinta, repousavam ao lado do salmo que começara a copiar. *“Diz o insensato no seu coração: Não há Deus…”* A pena de ave parecia pesar uma tonelada. Ele não escrevia apenas palavras; tentava decifrar um eco, um diagnóstico profundo daquela agitação toda que sentira na própria pele. Não era apenas sobre ateísmo, aquele negar formal e intelectual. Era algo mais visceral, mais cotidiano. Era o homem que esmagava o outro na praça pensando: “Ninguém vê. Ninguém cobrará.” Era o corrupto no templo acreditando que seus rituais vazios bastavam, que a Justiça era uma ideia abstracta. Era a sordidez que nasce quando se vive como se o céu estivesse vazio, ou pior, indiferente.

Eitan fechou os olhos e deixou a memória mergulhar na cena do mercado. Lembrou-se de um homem, um vendedor de azeite de Hebrom. Seus olhos eram dois seixos lisos, duros. Um agricultor idoso, de mãos calejadas como casca de carvalho, discutia o preço. O vendedor falava com uma doçura falsa, mas seus olhos calculavam a fragilidade do velho. Eitan vira o momento exacto em que o vendedor adulterou a medida, um movimento rápido dos dedos no fundo da caneca de bronze. O olhar que trocaram depois não era de culpa, mas de triunfo mudo. *“Corromperam-se e cometeram abomináveis injustiças; não há quem faça o bem.”* O verso queimava no rolo. Não era uma generalização. Era aquele homem, naquele instante preciso. A corrupção não era um conceito; tinha o cheiro do azeite rançoso e a cor do bronze sujo.

Uma mosca zumbia teimosa contra a janela. O som misturava-se com os gritos distantes de crianças e o zurrar ocasional de um burro. Eitan levantou-se, os ossos rangendo. Caminhou até a abertura e pousou as mãos na pedra aquecida. Jerusalém estendia-se abaixo, um emaranhado de telhados claros e vielas escuras. Dali, era quase bela. Mas ele sabia o que habitava as sombras. Sabia dos covis onde se planejavam violências, dos aposentos onde se tramava a traição por um punhado de moedas de prata. O salmo vinha como um raio-X: *“Deus olha lá dos céus para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus.”* Essa era a imagem que o confortava e aterrava ao mesmo tempo. Um olhar. Não um olhar distraído, mas um exame profundo, um escrutínio que atravessava telhados e peitos, que lia o pensamento antes que se formasse na língua. Aquele vendedor não estava só. Estava sendo observado. Todos estavam.

E o veredito desse olhar celestial era devastador: *“Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.”* Eitan suspirou. Nem um sequer. A universalidade do fracasso era esmagadora. Incluía-o? Sim, ele sabia que sim. Na sua ira santa contra a injustiça alheia, quantas vezes não nutrira um orgulho silencioso, uma certeza de que *ele* era diferente? Era isso, talvez, a mais subtil das corrupções. Um calafrio percorreu-lhe a espinha, apesar do calor. O salmo não permitia espectadores. Colocava todos debaixo da mesma luz crua.

Seus pensamentos foram interrompidos por um alvoroço súbito vindo da rua principal. Gritos de pânico, o som metálico de armas sendo desembainhadas. Notícias corriam como fogo em palha seca: uma brigada romana estava fazendo uma rusga num quarteirão próximo. Alegavam busca por revolucionários zelotes. Eitan viu, da sua janela, famílias inteiras sendo arrastadas para a rua, homens acorrentados, o terror estampado nos rostos das mulheres. A opressão do forte sobre o fraco. Era a imagem viva dos *“que devoram o meu povo como se comessem pão”*. Os romanos, é claro. Mas também os próprios líderes do povo, os que colaboravam, os que se beneficiavam, os que fechavam os olhos. A devoração era física, política, espiritual. Um apetite insaciável que não invocava a Deus.

A noite caiu, trazendo um pouco de frescor, mas não de paz. A cidade parecia conter a respiração. Eitan voltou ao rolo. A lamparina de azeite projetava sombras dançantes sobre as palavras finais. *“Ah, se de Sião viesse já a salvação de Israel!”* Ele escreveu isso com uma letra mais urgente, quase desesperada. Era o grito que nascia do abismo do diagnóstico. Quando se vê a podridão até ao osso, só resta clamar por uma intervenção que seja total, radical, vindoura de fora do sistema doente. Sião, o monte do templo, o lugar da habitação simbólica de Deus. A salvação teria de vir dali, do próprio Deus, ou não viria.

E então, um sorriso cansado, frágil como o fio da lamparina, surgiu nos lábios de Eitan. O último verso. *“Quando Deus trouxer de volta os cativos do seu povo, então se regozijará Jacó, e Israel se alegrará.”* Não era um final feliz para o dia de hoje. A rusga romana provavelmente terminaria com crucifixões ao amanhecer. O vendedor desonesto prosperaria. O insensato continuaria a sussurrar, no segredo do seu coração, que não havia testemunha. Mas o salmo não terminava na corrupção. Terminava numa promessa de reversão. “Trouxer de volta”. Era uma imagem de restauração, de repatriamento, de um povo disperso pela sua própria estupidez e pela opressão alheia sendo reunido. E a alegria, então, seria autêntica, transbordante, incontida.

Eitan enrolou o couro com cuidado, amarrou-o com uma tira de linho. A sala estava agora em quase escuridão, só aquela pequena chama teimosa. O salmo não era um consolo barato. Era um espelho que mostrava a feiura mais profunda. Mas, ao mostrar, implicava Aquele que segurava o espelho. E, ao diagnosticar a morte, sussurrava, na última linha, sobre uma ressurreição futura. Ele soprou a lamparina. Na escuridão, a promessa pareceu mais sólida do que todas as pedras de Jerusalém. O insensato diria que era só escuridão. Eitan, sentindo o peso do dia e o alívio ténue da fé, sabia que era ali, naquela escuridão expectante, que a verdadeira história ainda estava por ser escrita.

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