Bíblia em Contos

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A Defesa de Jó nas Cinzas

O sol era um disco de bronze fundido no céu, um peso que parecia prensar a terra. O calor não vinha de cima, mas de todos os lados, subindo das pedras esbranquiçadas e da areia que tremeluzia ao longe. No meio daquele deserto que era mais silêncio do que paisagem, um homem estava sentado sobre um montículo de cinzas. Seu nome era Jó. As dores no corpo eram um fato contínuo, uma paisagem interna tão árida quanto a externa. Mas naquela tarde, o que o consumia não era a úlcera, nem a coceira insuportável, mas um fogo mais profundo: o fogo da inocência impugnada.

Ele pegou um pedaço de cerâmica quebrada e começou, quase sem pensar, a raspar a crosta seca de sua pele. O gesto era mecânico, um ritmo ancestral de sofrimento. Seus olhos, porém, estavam fixos no horizonte indistinto, onde o ar tremia sobre a terra. E dentro dele, uma voz se erguia. Não era uma voz audível, mas uma declaração solene, um juramento diante da testemunha invisível de tudo.

“Se eu tivesse caminhado com falsidade”, pensou, suas mãos parando por um instante, “se meus pés se apressaram para o engano… que Deus me pese numa balança justa! Ele conheceria a minha integridade.” A imagem veio clara: uma balança de pratos de bronze, reluzente sob um céu limpo. Num prato, seus atos; no outro, o peso plúmbeo da mentira. E ele sabia, com uma certeza que era o último esteio de sua alma, qual prato baixaria.

Um abutre planou no alto, um ponto negro e paciente. Jó seguiu seu voo lento com os olhos. A mente, alimentada pela febre e pela lucidez extrema que o sofrimento às vezes concede, começou a percorrer os caminhos de sua vida. Não como um rei que exibe seus tesouros, mas como um juiz que revisa, meticuloso, cada processo.

A questão das mulheres. “Oh, se eu tivesse olhado para uma donzela com cobiça no coração…” Ele lembrou das festas na cidade, das cortesãs com seus véus coloridos e olhos delineados com kohl. Lembrou da facilidade com que outros homens se perdiam naqueles sorrisos comprados. Mas para ele, aquilo sempre parecera uma armadilha tola e triste. “Porque isso seria um fogo que consumiria até os alicerces, uma iniquidade que os juízes condenariam.” Não era virtude por medo, era um entendimento claro: o deseho desordenado era um desvio, um roubo da dignidade alheia e da própria. Como construir uma casa sobre um abismo?

Seus pensamentos voaram para os que dependiam dele. Os servos, os pequenos, os que não tinham voz. “Se eu desprezei a causa do meu servo ou da minha serva, quando eles contendiam comigo…” Ele via a cena: a sombra fresca do pórtico de sua casa, um homem do campo, vestido com trapos de poeira, com as mãos calejadas abertas em queixa. Outro senhor talvez o tivesse expulsado com um gesto irritado. Mas ele se lembrava de se sentar, de ouvir a história enrolada e cheia de angústia. “O que faria eu, quando Deus se levantar? Quando ele vier me examinar, como lhe responderei?” A pergunta era retórica. Ele sabia a resposta: não havia resposta possível. Aquele que fez o rico e o pobre na mesma matriz não via diferença quando a justiça estava em jogo.

Os pobres. Seus olhos, agora embaçados, pareciam ver não o deserto, mas as estradas que levavam à sua porta. “Se eu retive algo que os pobres desejavam, ou deixei definhar os olhos da viúva…” Houve anos de seca, anos de gafanhotos. A fome esverdeava o olhar das crianças. Ele lembrava da ordem dada aos seus administradores: os celeiros não deviam ficar trancados. A partilha não era um ato de caridade esporádica, era um princípio da casa. “Se eu vi algum perecendo por falta de roupa, ou algum necessitado sem cobertura… se seus lombos não me abençoaram, se ele não se aqueceu com a lã das minhas ovelhas…” Era uma lógica tecida na trama do mundo: o bem que você faz volta, não como moeda de troca, mas como bênção silenciosa. Negá-lo era romper um fio vital.

Ele inclinou a cabeça. A sombra de seu corpo sobre as cinzas era alongada e frágil. A próxima confissão era mais grave, tocava no núcleo da soberba. A idolatria. “Se eu lancei mão da fortuna, se minha segurança foi o ouro puro… se me alegrei porque minhas riquezas eram muitas.” Houve tempo em que seus rebanhos cobriam os vales. Um homem menor teria visto aquilo como uma coroa, um troféu. Ele se esforçara para ver como uma administração. O perigo não estava na posse, mas no coração que se curva ao possuído. “Se eu olhei para o sol em seu esplendor, ou para a lua caminhante e majestosa, e meu coração se deixou seduzir em segredo…” A adoração ao criado em vez do Criador. Era o pecado mais sutil, o deslize de uma admiração que se transforma em devoção. Ele negava tê-lo cometido. A beleza do mundo era um reflexo, não a fonte.

E a hipocrisia, o pior dos males. “Se eu dissimulei meus pecados como os homens, escondendo minha culpa no meu peito…” A ideia lhe era repugnante. Ele conhecia os hipócritas da cidade, homens de palavras melífluas e corações fechados. Temia o juízo dos outros? Talvez. Mas temia mais viver uma mentira. A integridade era um acordo consigo mesmo, um caminhar com a face descoberta, mesmo sob o sol impiedoso da verdade.

A fadiga o venceu. O caco de cerâmica caiu de seus dedos trêmulos. O sol começava sua descida, tingindo o deserto de um laranja avermelhado e sangrento. O juramento estava completo. Cada porta de iniquidade havia sido verificada e encontrada fechada. Não por um anjo, mas por sua própria memória e consciência, aquela centelha divina dentro dele.

No silêncio que se seguiu, mais profundo que antes, Jó não sentiu alívio. Sentiu uma solidão abissal. Ele havia apresentado sua defesa ao tribunal vazio do céu. Havia invocado a terra para chorar por ele, os sulhos do campo para prantear. Havia dito, em essência: “Eis aqui a minha vida. Julgai-a.”

E do outro lado, só havia o silêncio. Um silêncio que não era de aprovação, nem de condenação. Era o silêncio do Mistério, que aceita o testemunho mas não dá o veredicto. Jó fechou os olhos. As cinzas cheiravam a fim de todas as coisas. Sua integridade, agora declarada com a clareza de um grito no deserto, era sua única companhia. E, naquele momento, ela parecia tanto um escudo quanto uma sentença. Ele estava nu diante de Deus, sem nenhuma folha de parreira para cobrir suas ações. E ali, naquela nudez completa, residia sua última e mais terrível verdade.

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