Bíblia em Contos

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Bíblia

Sob o Fogo do Juízo

O sol da tarde era um disco de cobre sujo pousado sobre a planície, esmagando Sodoma sob seu peso. Uma poeira fina, impregnada do cheiro doce e podre do mercado e do fumego das olarias, subia em espirais preguiçosas. Ló estava sentado à sombra estreita do portão da cidade, não por autoridade agora, mas por hábito antigo. Os anos em Sodoma lhe haviam dado um ar permanentemente preocupado, um homem cujos olhos pareciam sempre fitar algo distante, para além dos muros de barro e dos telhados planos.

Seus pensamentos eram interrompidos pela visão de duas figuras que surgiam da esteira tremeluzente do calor na planície. Andavam com uma firmeza incomum para aquela hora tórrida. Estranhos. Sem as trouxas dos mercadores, sem a pressa dos mensageiros. Quando se aproximaram, Ló sentiu um frio súbito, uma claridade nos olhos deles que a poeira do caminho não conseguia ofuscar. Não eram homens. Havia uma quietude neles, uma inteireza, que fez seu coração bater mais forte. Sem saber por que, ele se levantou e se prostrou, rosto na poeira quente.

“Meus senhores”, sua voz saiu rouca. “Por favor, afastem-se desta praça e venham à casa de seu servo. Permaneçam a noite toda, lavem os pés e sigam ao amanhecer seu caminho.”

Eles pareceram trocar um olhar que durou menos que um piscar de olhos. “Não. Passaremos a noite na praça”, disse um, e sua voz era como água corrente em lugar seco.

Ló insistiu, com uma veemência que ele mesmo não entendia. Era um sentimento de urgência, um aperto no peito. A praça, com o cair da noite, não era lugar para ninguém, muito menos para… para aquilo. Finalmente, cederam. Seguiram-no pelas ruas estreitas que cheiravam a urina e especiarias, sob olhares oblíquos de vendedores recolhendo suas esteiras.

Em casa, a tensão não se dissipou. Sua mulher preparou pães sem fermento, rápidos, e seus movimentos eram bruscos, os olhos evitando os hóspedes. As filhas, curiosa, espreitavam da outra divisão. Ló serviu a refeição em silêncio, mas os hóspedes não tocaram na comida. Sentaram-se à mesa como se fossem a parte mais sólida da casa, e o ar parecia vibrar ao seu redor. Antes que pudessem sequer se deitar, os ruídos começaram.

Não era o burburinho habitual da noite. Era um rosnado, um ajuntamento. Vozes grossas, empasteladas de vinho e má intenção, ecoaram do lado de fora da porta. Batidas. Não eram amigáveis. Ló sentiu o sangue gelar nas veias. Reconhecia aquelas vozes. Os homens da cidade, todos, jovens e velhos, de todos os cantos. A casa estava cercada.

“Onde estão os homens que entraram em tua casa esta noite? Traze-os para fora, para que os conheçamos!”, gritou uma voz que Ló identificou como de um ferreiro que morava perto do poço.

Conhecê-los. A palavra pesava como pedra. Ló engoliu seco. Olhou para os hóspedes. Eles permaneciam sentados, impassíveis, mas havia uma luz nos olhos deles agora, uma luz de fornalha. Aperrando as entranhas de medo, Ló saiu para o vestíbulo e fechou a porta atrás de si, trancando-os dentro. A multidão era uma massa indistinta de rostos suados e olhos cintilantes à luz das poucas tochas. O fedor de vinho e suor era avassalante.

“Irmãos, por favor, não façam esta maldade”, sua voz falhou, tentando soar conciliadora, soando apenas desesperada. “Olhem, tenho duas filhas, virgens. Deixem-me trazê-las para fora. Façam com elas o que bem lhes parecer. Mas a estes homens não façam nada, pois eles se abrigaram sob a sombra do meu teto.”

O silêncio que se seguiu foi pior que os gritos. Ele próprio ouviu a monstruosidade de suas palavras ecoando em sua cabeça. Oferecer suas próprias filhas. A justiça do forasteiro acima da carne de sua carne. Era o costume antigo, horrível, e ele o invocara como último argumento. A multidão riu, um som rouco e hostil. “Afasta-te!”, rosnou o ferreiro. “Este sujeito veio para cá como estrangeiro, e agora quer fazer de juiz? Agora trataremos pior contigo do que com eles.”

Avançaram contra a porta. Ló recuou, tropeçando. A madeira gemeu sob o peso dos corpos. E então, a porta se abriu. Não pela força da multidão, mas de dentro para fora. Os dois hóspedes estavam ali. E algo mudou no ar. Uma pressão, um zumbido agudo que paralisou. Estenderam as mãos — mãos que de repente pareciam não pertencer mais a formas humanas — e puxaram Ló para dentro, fechando a porta. Os gritos do lado de fora tornaram-se confusos, depois agonizantes. Golpes cegos na madeira, que se transformaram em arranhões fracos. Um brilho ofuscante, puro e terrível, filtrou-se pelas frestas da porta, iluminando o rosto aterrorizado da mulher de Ló, as filhas encolhidas num canto.

“Tire daqui quem você tem aqui”, a voz do hóspede não era mais de homem, era como o som de muitas águas, mas sussurrada. “Genro, filhos, filhas, todos os que são teus nesta cidade. Porque vamos destruir este lugar. O clamor contra eles se tornou grande diante do SENHOR, e o SENHOR nos enviou para destruí-los.”

Ló, trêmulo, saiu novamente. A multidão estava dispersa, homens cambaleando, esfregando os olhos como se tivessem sido cegados por uma luz forte, tropeçando e caindo nas ruas escuras em busca de suas casas. Ele foi à casa de seus futuros genros, os noivos de suas filhas. “Levantem-se! Saiam deste lugar! O SENHOR vai destruir a cidade!”, suas palavras eram um fio de voz rouca, cheia de pânico. Mas para os jovens, aquilo soou como delírio. Riram dele. “Estás a brincar, sogro?”, disseram, e viraram-se para o outro lado no leito.

Ao amanhecer, os anjos — Ló agora não tinha mais dúvida do que eram — o pressionavam. “Levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas que aqui estão, para que não pereças no castigo da cidade.” Ele hesitava, paralisado por uma ligação doentia àquele lugar, pelo terror do desconhecido. Os homens então, em um ato de misericórdia impaciente, agarraram pela mão ele, sua mulher e suas duas filhas, e os puseram fora da cidade. A carne deles era quente ao toque, mas a força era descomunal, inumana.

Quando estavam fora dos muros, num dos caminhos da planície, um deles falou, e sua voz carregava o peso de uma ordem cósmica: “Foge pela tua vida! Não olhes para trás, nem te detenhas em toda esta planície! Foge para os montes, para que não pereças!”

Ló, ofegante, olhou para os montes distantes, azulados e hostis. O medo falou mais alto. “Oh! Não, meu Senhor! Eis que agora teu servo achou mercê aos teus olhos, e engrandeceste tua misericórdia que me fizeste, preservando-me a vida. Não posso fugir para os montes, para que me não apanhe este mal, e eu morra. Eis ali uma cidade perto, para onde eu posso fugir. É pequena. Deixa-me ir até lá — e ela é pequena — para que minha vida seja salva.”

Era um pedido mesquinho, cheio de cálculo pequeno, em meio àquele juízo grandioso. O anjo, em um suspiro que parecia ecoar a paciência infinita do próprio céu, concordou. “Concedo-te também isto: não subverterei a cidade de que falas. Apressa-te, refugia-te nela, porque nada poderei fazer enquanto não tiveres ali chegado.”

O sol raiava sobre a planície, um sol normal, dourado, terrivelmente comum. Foi então que começou. Um silvo no ar, primeiro. Depois um rugido que vinha do céu e da terra ao mesmo tempo. Ló e os seus correram em direção à pequena cidade, Zoar. A mulher de Ló ia atrás. A ordem ecoava em sua cabeça: “Não olhes para trás”. Mas o rugido aumentava. Era como se a fundação do mundo estivesse sendo arrancada. Era fogo? Era estrondo? Era o som da justiça sendo derramada como metal fundido. Ela não aguentou. No limiar da salvação, no último instante, seu pescoço torceu-se. Um relance. Apenas um.

Ela viu. E no instante em que viu, seu corpo em fuga congelou. Os músculos em movimento petrificaram-se no ar. A carne, os vestidos, os cabelos ao vento, tudo se fundiu, se compactou, se transformou em um mineral pálido e grosseiro. Não houve grito. Apenas um sussurro seco, o som de grãos se rearrumando. Uma estátua de sal, com a inclinação de quem olha para trás, permaneceu ali, na planície, sob um céu que começava a vomitar enxofre e fogo.

Ló não olhou. Entrou em Zoar, com as filhas, enquanto a terra tremia. A destruição chegou. Das alturas, era como se um imenso alqueire incandescente tivesse sido virado sobre o vale. Sodoma, Gomorra, Adma, Zeboim. Cinza, fumo e um cheiro pútrido de enxofre queimado que impregnaria a região por gerações.

Temendo ficar em Zoar — a pequena cidade agora lhe parecia gigantesca e vazia — Ló fugiu para os montes com suas duas filhas. Habitaram numa caverna úmida e escura. O mundo deles havia acabado. O silêncio era total, quebrado apenas pelo vento uivante nas fendas das rochas. A vida, naquela escuridão primordial, reduziu-se ao mais básico, ao mais terrível. As filhas, acreditando serem as últimas pessoas na terra, embriagaram o pai com vinho e deitaram-se com ele, em atos de uma desesperança profunda e torpe. Desses atos nasceram filhos, que seriam pais de nações inimigas de Israel. Ló, o homem justo que se atormentara nas portas de Sodoma, terminou seus dias na obscuridade de uma caverna, um sobrevivente marcado pelo fogo do juízo e pela sombra salina de uma esposa que não conseguira obedecer. A misericórdia o poupara, mas ele carregou consigo, até o fim, o cheiro de fumaça e a memória da cidade que ele, no fundo, também amara demais para deixar sem ser forçado.

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