O calor em Jerusalém naquele final de tarde era do tipo que pesa nos ombros. Um suor fino e persistente escorria pelas costas de Habacuque, sentado no terraço plano de sua casa, de onde se via uma nesga do vale e os primeiros lampiões a tremeluzir na cidade baixa. O ar cheirava a poeira cozida e a fumaça distante de alguma fogueira. Ele fechou os olhos, mas as imagens não iam embora: o mercador enganando o pobre no mercado com pesos adulterados, o olhar vazio do juiz que aceitara um suborno descarado, o gemido abafado da viúva cuja herança fora roubada por homens com túnica bordada e coração de pedra.
Era uma agonia que ia além da indignação. Era um osso entalado na garganta da alma. “Até quando, Senhor?” As palavras escaparam-lhe dos lábios rachados, não como uma oração formal, mas como o lamento rouco de um homem que já perdeu a conta dos dias de silêncio divino. “Até quando clamarei por socorro, e tu não me ouvirás? Gritarei a ti: ‘Violência!’, e não salvarás?”
Ele se levantou, inquieto, e começou a andar de um lado para o outro no terraço, os pés descalços sentindo o calor residual das pedras. Para Habacuque, aquele não era um problema de filosofia ou teologia abstrata. Era uma fissura no próprio alicerce do mundo. Deus havia dado uma Lei, um pacto, um caminho. Judá estava pisoteando tudo, rasgando o contrato sagrado com unhas sujas de ganância. E o pior, o que lhe corroía as entranhas durante as vigílias noturnas, era a aparente inércia do Céu. “Por que me fazes ver a iniquidade e contemplar a opressão? A destruição e a violência estão diante de mim; há contenda, e o litígio se suscita.”
A noite caiu de repente, como costuma acontecer no oriente. Um manto escuro pontilhado de estrelas frias, distantes. Habacuque desceu para o pequeno cômodo onde estudava. Um rolo da Lei estava aberto sobre a mesa de madeira tosca, à luz vacilante de uma lamparina de azeite. A chama dançava, projetando sombras que pareciam monstros nas paredes de argila. Ele lia as promessas, as advertências solenes. Tudo parecia agora letra morta, eco de uma voz que se calara. A justiça divina, outrora tão clara nos tempos dos profetas antigos, agora parecia embotada, adormecida. “A Lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta. Pois o ímpio cerca o justo, e a justiça é torcida.”
Sua oração se intensificou, tornou-se um verdadeiro combate espiritual, um debate com o Eterno. Não era uma revolta blasfema, mas a angústia fértil de quem acreditava demais para aceitar a contradição calada. Ele esperava uma repreensão, um sinal de fogo, um terremoto. Qualquer coisa que quebrasse aquele silêncio opressivo que pesava mais do que o calor do dia.
E então, veio.
Não como um trovão, mas como uma certeza súbita que se implantou em seu espírito, uma percepção avassaladora que fez o ar do cômodo ficar estático. A lamparina pareceu arder mais alto por um instante. Habacuque sentiu um frio percorrer sua espinha, um tremor que não era de medo, mas de pavorosa reverência. Deus estava respondendo. E a resposta não era um aceno reconfortante.
A voz que ele percebeu no íntimo não trazia consolo para Judá. Trazia um furacão.
“Olhai entre as nações e vede; ficai pasmados e admirai-vos, porque realizo em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando vos for contada.”
Habacuque segurou a borda da mesa, os nós dos dedos brancos. O que era aquilo? Uma invasão? Um julgamento?
E a visão se formou em sua mente, com a clareza crua de um pesadelo acordado. Ele viu um povo. Não um exército organizado e nobre, mas uma horda. Rostos duros como sílex, olhos estreitos e ávidos. Os caldeus. Um nome que até então era apenas um sussurro ameaçador nas rotas de comércio, uma potência nascente além do Eufrates. Deus os estava levantando. Não como aliados, mas como um instrumento de ira, um flagelo.
A descrição que se seguiu na sua mente foi de uma violência tão gráfica que ele quase vomitou. “Eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcha sobre a largura da terra, para se apoderar de moradas que não são suas.” Ele via os cavalos, não como os cavalos de Judá, mas bestas velozes como leopardos, mais ferozes que lobos ao anoitecer. Via a cavalaria avançar como vento do deserto, poeira levantada até o céu, um rugido ensurdecedor de rodas de carros de guerra. “Todos eles vêm para fazer violência; a expressão dos seus rostos é como o vento oriental, e eles ajuntam cativos como areia.”
Era um exército que não conhecia nobreza, apenas a pilhagem. Sua força era seu deus. “Ele então passa como o vento e segue adiante; mas ele é culpável, aquele cuja força é o seu deus.” Habacuque via, em flashes terríveis, a investida contra cidades fortificadas. Eram como um homem rindo diante das muralhas, juntando terra contra elas, tomando-as num instante. A soberba deles era sua armadura. E Judá, a vinha do Senhor, apodrecida por dentro, seria esmagada por essa força bruta e impiedosa.
A visão cessou tão subitamente quanto começara. Habacuque estava de joelhos, ofegante, o suor agora frio encharcando suas vestes. O alívio que ele buscara não chegara. Em seu lugar, uma perplexidade mais profunda, um abismo de novas questões. Como podia? Como o Deus santo, que odiava a violência, podia usar um povo mais violento e ímpio ainda para castigar seu próprio povo? O remédio não era pior que a doença? A justiça divina parecia ter se embrulhado em uma contradição monstruosa.
A noite avançava lá fora. O silêncio voltou, mas agora era um silêncio carregado, pesado com o eco da revelação terrível. Habacuque ficou ali, no chão frio, o rosto entre as mãos. A primeira oração, a do lamento, estava respondida. Mas no seu peito nascia outra, mais urgente e mais audaciosa ainda. Ele sabia, com uma clareza que o aterrorizava, que não poderia parar ali. O diálogo com o Divino havia sido aberto, e a próxima palavra seria dele. O profeta, que pedira por justiça, agora tremia diante da forma que ela tomaria. E, naquela vigília solitária, começava a entender que o caminho entre o clamor e a compreensão era mais escuro e mais longo do que ele jamais imaginara.




