Bíblia em Contos

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O Cântico do Copista no Escuro

A luz da tarde entrava pela fenda da tenda, um fio de ouro poeirento que cortava a penumbra e ia descançar, trêmulo, sobre o rolo de couro que eu apertava nas mãos. Do lado de fora, o arraial de Israel murmurava com as vozes do crepúsculo: o balir distante de ovelhas, o riso agudo de uma criança, o tinir metálico de um caldeirão. Aqui dentro, porém, o silêncio era espesso, carregado do cheiro de pele de cabra, óleo de oliva e tinta antiga.

Meu nome é Eri, e sou um dos copistas da tribo de Levi. Minhas horas são medidas pelo ritmo lento da pena sobre o pergaminho, pela sombra que se alonga no chão de terra batida. Naquele dia, porém, a tarefa não avançava. As palavras do rei Davi, que eu deveria transcrever, pareciam-me distantes, como um cântico ouvido do fundo de um vale. O peso dos últimos meses – os boatos de conspiração no palácio, a doença do meu irmão mais novo, a seca que ameaçava os rebanhos do norte – apertava-me o peito com uma mão invisível e fria.

Então, quase por rebeldia, deixei a cópia oficial de lado e peguei um fragmento menor, um pedaço de couro mais áspero que guardava para anotações privadas. E comecei a escrever, não como copista, mas como um homem que sonda suas próprias feridas à luz de uma lamparina vacilante. Escrevi as palavras que martelavam dentro de mim, as palavras do salmo que há tanto tempo decorara, mas que só agora pareciam buscar um eco na caverna do meu espírito.

*“Diante dos deuses eu te canto, ó Senhor.*”

Minha pena hesitou. “Deuses”. No plural. Aquele termo sempre me causara um certo incômodo. Não eram estátuas de madeira ou pedra que se alinhavam nos altares dos povos ao nosso redor? Fantasmas do deserto, sombras sem poder? E, no entanto, Davi os mencionava. E, de repente, entendi. Não se tratava de dar-lhes existência, mas de proclamar a soberania do Único mesmo no território imaginário deles. Era um ato de coragem, um cântico entoado no salão do próprio inimigo. Naquele instante, a minha tenda apertada transformou-se. As vozes do arraial tornaram-se os sussurros de mil falsos conselhos, as dúvidas que se erguiam como divindades menores dentro de mim, exigindo adoração através do medo. E eu, com a tinta ainda fresca no couro, cantei. Em silêncio. Um cântico seco, nascido não da alegria, mas da pura teimosia da fé.

*“Eu me prostro diante do teu santo templo e louvo o teu nome…”*

Prostar-me. Ali, sentado sobre um banco baixo, meus ossos fizeram a memória do gesto. A testa tocando o chão frio, a rendição total da postura. Eu não estava no átrio do templo em Jerusalém. Estava no meio do acampamento itinerante, com o cheiro de animais e fogueira. Mas o templo não era apenas pedra e cedro. Era a morada da *hesed*, da graça fiel e covenantal do Eterno. E essa graça, eu sabia, não estava confinada. Ela envolvia aquele pedaço de couro, a minha tenda, a doença do meu irmão, a seca nos campos. Louvar o Seu nome era reconhecer o caráter por trás do título. Era agarrar-me ao fato de que Aquele que prometeu é fiel para cumprir, mesmo quando os caminhos à frente são obscurecidos pela poeira da incerteza.

A pena começou a mover-se com mais fluidez, como se as próprias palavras fossem água limpando a areia de um riacho entupido.

*“…pois o teu amor leal e a tua verdade engrandecem o teu nome acima de tudo. No dia em que eu clamei, tu me respondeste…”*

“No dia em que eu clamei”. Meus olhos se encheram de água. Não de forma dramática, mas com a súbita lembrança de um fato simples, quase esquecido. Três luas atrás, quando os primeiros sintomas acometeram meu irmão, eu subira a colina fora do acampamento e, sem palavras elaboradas, gritara para o céu noturno. “Não o leves!”, foi tudo que conseguira dizer. Uma prece rude, arrancada da garganta. E a resposta não viera como um trovão, nem como uma cura instantânea. Viera como a força silenciosa para buscar o ancião curandeiro, como a paciência para aplicar os unguentos amargos, como o sono profundo que finalmente acalmará a febre do rapaz na terceira noite. A resposta fora a própria presença sustentadora no processo. O amor leal, a *hesed*, operando nos detalhes ínfimos e suados do cuidado.

Um sorriso cansado, mas real, tocou meus lábios. A escrita tornou-se confessional.

*“Fazes-me crescer a força da alma.”*

Era isso. Não era uma força muscular, visível. Era algo no âmago, uma fibra interior que se fortalecia precisamente por ser testada. A fraqueza que eu sentira ao começar a escrever não desaparecera, mas agora tinha uma companheira: uma resiliência quieta, um fio de aço no centro do espírito, temperado no fogo da angústia e resfriado na água da lembrança. Davi, o rei-guerreiro, o poeta, conhecia essa força. Ela não vinha dos braços que arremessavam pedras, mas da alma que se dobrara perante o Senhor.

O último verso que risquei naquele fragmento foi uma promessa e um desafio:

*“O Senhor cumprirá o seu propósito para comigo. O teu amor, ó Senhor, permanece para sempre; não abandones as obras das tuas mãos.”*

Ali parei. O “propósito” era um mistério. Talvez eu nunca fosse mais do que um copista na sombra. Talvez meu irmão se recuperasse para viver uma vida longa, ou talvez não. A seca podia passar ou devastar. O salmo não oferecia um mapa, mas uma bússola. A bússola era o amor leal, permanente, que não se baseava na minha perfeição, mas no caráter imutável dAquele que me formou.

Dobrei o fragmento de couro com cuidado e guardei-o na dobra do meu manto. A tarefa oficial de copista poderia esperar até o amanhecer. Saí da tenda. A noite havia caído completamente, um manto de veludo negro cravejado de diamantes frios. As fogueiras do arraial cintilavam como joias terrenas. O mesmo murmúrio do crepúsculo persistia, mas agora soava diferente. Já não era o ruído de fundo da minha ansiedade, mas o coro da vida comum, sob um céu imenso.

Levantei o rosto para as estrelas, aquelas mesmas que Abraão contemplara. E sem cerimônia, com a voz rouca por horas de silêncio, pronunciei as palavras, não mais como um escriba que copia, mas como um homem que se apropria de uma verdade:

“O Senhor cumprirá o seu propósito para comigo.”

Era um cântico no escuro. Um cântico diante dos “deuses” silenciosos do medo e da incerteza. E, naquela noite, era o suficiente. Era mais do que suficiente. Era tudo.

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