Bíblia em Contos

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Saudade de Sião no Exílio

A solidão no exílio tem um peso diferente. Não é apenas a ausência de rostos conhecidos, é a secura no ar, o cheiro de terra estrangeira, o som das canções que não são as tuas. Efraim ficara para trás, uma lembrança dolorosa e doce ao mesmo tempo, como a cicatriz de uma ferida que não quer fechar. Aqui, nas terras altas e rochosas ao norte, o mundo parecia ter perdido sua cor. O céu era de um azul pálido, quase desbotado, e o vento que descia das montanhas carregava o sussurro de línguas estranhas, não as palavras cantadas do Sinai.

Como a corça suspira pelas águas correntes, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.

Ele se lembrava das fontes de Cesareia de Filipe, não muito distante dali. Águas geladas e claras, nascendo da rocha viva, correndo com uma canção própria. Ia até lá, às vezes, só para ouvir. Para se sentar na margem úmida e fechar os olhos. A imagem que vinha, porém, não era das águas à sua frente, mas do pátio do Templo, nos grandes dias de festa. O rebuliço alegre, o cheiro intenso do incenso misturado ao aroma dos sacrifícios, o coral dos levitas subindo como fumaça espessa em direção ao céu. Era uma memória que doía nos ossos. A saudade era um animal vivo, um bicho faminto que roía suas entranhas dia e noite.

As lágrimas tinham se tornado seu pão. As pessoas da terra, com seus deuses de pedra e seus rituais mudos, perguntavam, com uma curiosidade seca: “Onde está o teu Deus?” A pergunta ecoava no silêncio do seu quarto, nas trilhas vazias, no mercado barulhento. Ele não tinha resposta. Apenas sentia o abrir-se de um vácuo dentro do peito. Onde estava? A pergunta era um fio de navalha.

À noite, deitado no leito de palha, era pior. A escuridão trazia consigo um desfile de fantasmas. Os rostos dos amigos, o abraço do irmão mais novo, a voz do pai abençoando a mesa. E o som… o som das procissões, dos tamborins, da multidão em festa. “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?” Ele sussurrava para si mesmo, numa tentativa de autoconsolo que soava falsa até para seus próprios ouvidos. A alma não se enganava. Ela sabia da profundidade do poço.

Mas havia um refrão, um fragmento de melodia que insistia em voltar, teimoso como a erva que brota entre as pedras. Era uma música antiga, aprendida no colo da mãe. Uma canção sobre o amor firme do Senhor, sobre sua misericórdia que se renovava a cada manhã. Mesmo sem conseguir cantá-la com os lábios, ela ecoava no seu espírito, um baixo contínuo por baixo do ruído da aflição. “Espera em Deus, pois ainda o louvarei.” A frase surgia não como um grito de vitória, mas como um murmúrio rouco, um fio de esperança puxado do fundo do desespero. Era um ato de vontade, não de sentimento. Um compromisso com a memória do Deus que um dia se revelara, mesmo que agora parecesse oculto atrás de um véu espesso.

Um dia, particularmente sombrio, ele subiu a um outeiro. A vista era ampla, mostrando os vales verdes e os cumes cinzentos. E no horizonte, lá muito longe, para onde seus olhos se alongavam até doer, talvez ficasse Jerusalém. O coração deu um salto. Um profundo abatimento, como uma onda pesada do grande mar que ouvira falar, rolou sobre ele. As lágrimas vieram de novo, silenciosas e quentes. Era o lamento de um filho longe de casa, de um exilado que carregava Sião dentro de si como uma marca no espírito.

“Por que te esqueceste de mim?” A pergunta subiu, crua, sem adornos. Era a queixa de Jó, o grito do justo sofredor. A dor era tão real quanto as pedras sob seus pés. Ele sentia a investida das ondas do abismo, do turbilhão de águas profundas que ameaçavam afogar sua fé. A ausência de Deus era um fato quase tangível.

Mas então, no meio do vendaval interior, veio uma cena à mente. Não do Templo lotado, mas de uma tarde distante, na infância, às margens do Jordão. Ele, menino, observara uma garça pescar. A ave permanecera imóvel, paciente, por um tempo que lhe pareceu eterno. De repente, num movimento mais rápido do que o olho podia seguir, mergulhara o bico nas águas e erguera um peixe prateado que lutava ao sol. A lembrança veio acompanhada de um pensamento claro, como se fosse uma voz externa, mas que ele soube que vinha do profundo do seu ser: a fidelidade não é um sentimento. É um rio subterrâneo que corre mesmo quando a superfície da terra está ressecada.

A noite caiu. As primeiras estrelas, frias e distantes, pontilharam o manto escuro. Ele desceu do outeiro, o corpo cansado, a alma ainda ferida, mas com um resto de quietude. O abatimento ainda estava lá, era uma presença pesada. A saudade continuava a doer como um membro fantasma. Mas aquele murmúrio teimoso persistia. “Espera em Deus.” Não era um clímax, não era uma solução mágica. Era uma espécie de pé firme no meio do lodo. Era a corça, faminta e sedenta, que, mesmo sem ver o ribeiro, segue o instinto profundo que lhe diz que a água existe, que ela está em algum lugar, e que vale a pena continuar a caminhar, a suspirar, a procurar.

Ele entrou em sua casa estrangeira. Acendeu uma lamparina. A chama vacilou, depois se firmou, lançando sombras dançantes nas paredes. E naquela pequena luz, naquela solidão que não tinha cura à vista, ele fez a única coisa que podia fazer. Não cantou um hino de alegria. Não ergueu as mãos em triunfo. Apenas sussurrou, na língua de seus pais, para o silêncio que o cercava e para o Deus que parecia ausente: “Ainda o louvarei, ó Salvador meu e Deus meu.” Era um voto. Era um fio de esperança lançado no escuro. Era, simplesmente, tudo o que lhe restava. E naquele momento, era o suficiente.

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