Bíblia em Contos

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O Caminho de Volta da Pele

O sol da manhã batia na tenda de Aminadabe com uma claridade que parecia querer expulsar toda sombra de dentro. Ele estava ali, parado, olhando para as próprias mãos. A pele, antes apenas áspera do trabalho com os rebanhos, agora mostrava uma mancha esbranquiçada e deprimida que lhe dava arrepios. Sete dias de isolamento fora do acampamento, sete dias de gritar “Impuro! Impuro!” para qualquer alma que se aventurasse perto. O cheiro da solidão era um peso mais denso que a doença.

A notícia chegara através do seu irmão mais novo, ofegante: “O sacerdote Efraim volta hoje das inspeções ao norte. Ele pode te ver.” A esperança, naquele contexto, não era um sentimento alegre, mas uma faca fria pressionada contra a garganta. Tudo dependia do olhar daquele homem, do seu julgamento.

Efraim, filho de Gersom, era um homem de passos pacientes. A jornada lhe dera o rosto queimado e os olhos que pareciam enxergar além da superfície das coisas. Ao ver Aminadabe à distância, parado além do limite das pedras que marcavam a separação, não fez cara de nojo nem de piedade. Seu rosto era um estudo de concentração. Com gestos meticulosos, lavou as mãos numa bacia de água corrente que seu ajudante carregava, enxugou-as num pano limpo e se aproximou.

“Mostre-me o lugar”, disse, a voz calma mas sem calor desnecessário.

Aminadabe, a voz rouca de tanto ficar em silêncio, estendeu o braço. Efraim observou. A mancha era branca, sim, mas não tinha pelos brancos. Não parecia ter penetrado mais fundo que a pele. O sacerdote pediu para ver as costas, o peito. Suas mãos, respeitosas, não tocavam a pele doente. Era um exame de olhos, de comparação com a pele sã ao redor.

“Vá à sua tenda. Fique mais sete dias. No sétimo dia, eu voltarei.” A sentença era mais branda que a condenação definitiva, mas ainda assim um exílio. Aminadabe acenou com a cabeça, um nó de alívio e apreensão na garganta. Sete dias mais de conversas com os abutres e com o vento.

Na manhã do sétimo dia, o sol encontrou Aminadabe já banhado, com roupas limpas, o coração batendo feito um pássaro preso. Desta vez, Efraim veio com mais coisas. Trouxe duas aves vivas—pardais de asas trêmulas—, um pedaço de cedro, um fio de lã escarlate e um ramo de hissopo. Havia também um vaso de barro com água da fonte. A cerimônia tinha um ar estranho, quase primal, que falava de vida e morte de um modo que Aminadabe não compreendia totalmente, mas que sentia nas entranhas.

Efraim ordenou que se matasse uma das aves sobre a água da fonte, dentro do vaso de barro. O som do pequeno pescoço torcido ecoou no silêncio. A ave viva, junto com o cedro, a lã escarlate e o hissopo, foi mergulhada no sangue e na água. Então, o sacerdote aspergiu Aminadabe sete vezes. A mistura, fina e vermelha, caiu sobre seu rosto, suas mãos, a mancha. Era fria. Era purificadora. Ele soltou a ave viva, que levantou voo num ímpeto desesperado, sumindo no azul do céu. “Ela leva a impureza para longe”, murmurou Efraim, e pela primeira vez Aminadabe entendeu uma coisa não com a mente, mas com o peito.

Mas não estava completo. Tinha de rapar todo o cabelo, a barba, as sobrancelhas. Lavar o corpo e as vestes. Só então poderia entrar no acampamento, mas ainda não na sua tenda. Mais sete dias de espera, agora dentro da comunidade, porém à parte. Era um retorno gradual, uma reintegração lenta como o crescer da pele.

No oitavo dia, o último ato. Aminadabe estava diante da Tenda do Encontro, com três cordeiros sem defeito, uma medida de flor de farinha amassada com azeite, e um bocado de azeite puro. O ar cheirava a sangue, a fumaça, a coisa santa. Efraim, agora com suas vestes sacerdotais completas, tomou um dos cordeiros para a oferta pela culpa. O sangue do animal foi posto na ponta da orelha direita de Aminadabe, no polegar da mão direita e no polegar do pé direito. A sensação era pegajosa, quente, marcante. Depois, do azeite puro, ele derramou um pouco na própria palma da mão esquerda e, com o dedo da direita, fez o mesmo gesto: orelha, polegar da mão, polegar do pé, sobre o sangue. O restante do azeite foi derramado sobre a cabeça de Aminadabe.

A fumaça do holocausto subiu reta, um cheiro repousante para o Senhor. Aminadabe ficou ali, o azeite escorrendo levemente pela testa, misturando-se às lágrimas silenciosas que finalmente ousavam cair. Não era apenas a pele que estava sendo tratada. Era o seu lugar no meio do povo. Era o seu nome, que não seria mais sussurrado com medo.

Efraim colocou uma mão firme em seu ombro, a primeira vez que o tocava. “Está purificado. Vá para casa.” A palavra “casa” nunca soara tão doce. Aminadabe virou-se e caminhou em direção às tendas. Os olhos das pessoas que encontrou não mais se desviavam. Alguém até lhe acenou. Ele respirou fundo, sentindo no corpo todo o peso do longo e minucioso caminho de volta, que não era apenas sobre uma mancha na pele, mas sobre uma ferida na alma da comunidade que agora, lentamente, começava a cicatrizar.

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