Bíblia em Contos

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O Dilema de Mateus

O sol da manhã ainda era baixo, cortando oblíquo a poeira suspensa da oficina. Mateus apertava a grosa contra a tábua de cedro, sentindo a resistência da madeira sob seus dedos calejados. O movimento era antigo, quase um reflexo depois de tantos anos de carpintaria. Cada raspagem lançava um farelo dourado e cheiroso ao chão de terra batida. Era um trabalho bom, honesto. Um trabalho que falava de ordem, de medida certa, de propósito. Ele gostava disso.

Mas, como uma sombra que se alonga sem aviso, o pensamento voltou. Era sempre assim. Enquanto as mãos executavam uma tarefa reta e limpa, a mente vagava por becos tortuosos. A discussão da noite anterior com seu irmão mais novo, Joel, ecoava dentro dele. Uma bobagem, no fundo, sobre a divisão da colheita das oliveiras do pai. Mateus sabia que tinha direito a uma parte maior; o costume, a própria lei dos antepassados, era clara. O primogênito recebia porção dobrada. Joel, com sua maneira desprendida e um sorriso fácil, dissera que não importava, que poderiam dividir tudo igual. E Mateus, por dentro, sentira um alívio imediato, quase uma alegria leve. Seria mais simples, mais pacífico. Mas então, uma voz áspera e familiar sibilou em seu íntimo: *”É teu por direito. Se desistires, estás a desprezar a lei, a enfraquecer a ordem. É uma covardia.”*

Ele apertou a grosa com força, fazendo um sulco profundo demais na madeira. Amaldiçoou baixo. Por que aquela simples concessão parecia, ao mesmo tempo, um ato nobre e uma traição? Por que a lei, que ele amava e estudava desde criança nas sinagogas, que lhe dava o contorno seguro do certo e do errado, agora parecia um muro a separá-lo não dos ímpios, mas da própria paz que desejava? Ele queria ser bom, não apenas correto. E ali, na quietude da oficina, uma terrível suspeita começou a germinar: talvez a lei, ao mostrar-lhe com perfeita clareza o que era retidão, também lhe mostrasse, com uma precisão cruel, o quanto ele estava longe dela.

Lembrou-se de quando era adolescente, antes de entender plenamente os mandamentos. A vida tinha uma fluidez diferente, uma ignorância que era quase inocência. Sim, havia erros, mas eram nebulosos, sem contornos definidos. Então veio o estudo sério da Torá, a orientação do rabino. A descoberta da lei foi como acender uma lâmpada de azeite num quarto escuro. Que revelação gloriosa! Havia um caminho, um desenho sagrado para tudo: para o trabalho, para o comer, para o falar, para o adorar. Ele se agarrou àquela luz com fervor. Era a própria vontade de Deus manifesta.

Mas a mesma luz que iluminava o caminho reto também projetava, com sombras alongadas e grotescas, os seus próprios defeitos. Antes, uma mentira ocasional parecia apenas um deslize. Agora, à luz da lei, era uma transgressão gravada com fogo contra o Deus da Verdade. A raiva que às vezes fervia nele, antes justificada como “calor no sangue”, era agora assassinato no coração, condenado pelos profetas. A cobiça, um olhar rápido para a esposa do vizinho, que antes passava como um pensamento fugaz, tornava-se adultério diante da pureza exigida. A lei não criava o pecado, não. Mateus percebeu isso com um arrepio. O pecado já estava lá, adormecido, misturado à sua própria natureza. A lei apenas o despertou, lhe deu nome e sobrenome, e o acusou com autoridade divina.

Ele parou de trabalhar, as mãos caídas ao lado do corpo. O cheiro do cedro, antes reconfortante, agora parecia pesado. Era como se ele fosse dois homens. Um, o Mateus que se assentava aos sábados na sinagoga, que concordava mentalmente com cada “amém” proferido, que admirava a lei, que a reconhecia como santa, justa e boa. Esse homem desejava, com todas as forças de sua alma, cumpri-la. Queria aquele contorno perfeito para sua vida.

O outro homem era um estrangeiro que habitava seus ossos e suas entranhas. Era esse estrangeiro que, mesmo concordando com a lei, encontrava em si uma força contrária, uma lei diferente. Quando a vontade era fazer o bem, o mal se apresentava, colado a ele. Era uma luta sem tréguas, uma guerra civil na alma. Ele fazia o que não queria, e deixava de fazer o que desejava ardentemente. “Que homem miserável eu sou!”, pensou, e a frase ecoou em sua mente como um lamento antigo, não seu, mas de outro que também lutara.

Mateus olhou para as ferramentas penduradas na parede: serrotes, formões, martelos. Instrumentos para dar forma, para construir. Ele sentia que sua vida interior era uma madeira nodosa e rebelde, que rachava justo quando se tentava alisá-la. A lei era como o formão mais afiado, mas quanto mais ele tentava esculpir a si mesmo com ela, mais profundas ficavam as rachaduras. A intenção era boa, o instrumento, perfeito. Mas as mãos… as mãos eram incapazes.

A tarde chegou, trazendo a hora de fechar a oficina. Enquanto arrumava as ferramentas, seus olhos pousaram num pedaço de madeira torto, rejeitado para o trabalho fino. Era um galho de oliveira velho, cheio de curvas e voltas, impossível de ser endireitado. Serviria apenas para a fornalha. Ele o pegou, sentindo o peso e a textura áspera. Aquilo era ele. Por mais que a lei pressionasse, exigindo retidão, a natureza da madeira, sua própria fibra, resistia.

O desespero era um poço frio no seu estômago. Se a lei, que era boa, só servia para mostrar sua ruína, então qual era a saída? Quem o livraria desse corpo entregue à morte? A pergunta ficou suspensa no ar empoeirado, sem resposta.

Foi então que, ao sair para o pátio, seus olhos encontraram o céu. O sol poente tingia as nuvens de roxo e dourado, uma glória silenciosa e gratuita. E de repente, sem razão aparente, uma palavra veio à sua mente, não como um raciocínio, mas como um suspiro de uma parte mais profunda de sua alma: *Graça*.

Não era uma solução lógica para o dilema. Não apagava a luta, não endireitava a madeira torta. Mas era como se, ao reconhecer-se completamente perdido nas garras da lei do pecado, um outro caminho se insinuasse. Um caminho que não começava com o “deves”, mas com um “já está feito”. A luta continuaria, ele sabia. O homem velho, o estrangeiro dentro de si, ainda respiraria. Mas talvez, apenas talvez, houvesse outra lei em operação, mais forte. Uma lei do Espírito. Uma vida que não dependesse de sua força para esculpir a si mesmo, mas de se entregar, como aquela madeira torta, às mãos de um Carpinteiro muito maior.

Mateus soltou o galho de oliveira. Ele ainda era um homem dividido. A noite cairia e, com ela, dúvidas e medos voltariam. Mas, naquele instante, olhando para o céu que se abria em cores impossíveis, sentiu o primeiro vislumbre de uma paz que não era sua, que lhe era oferecida. Era um começo. Um suspiro no meio da guerra. E, por enquanto, era suficiente. Ele recolheu as ferramentas, fechou a porta de madeira maciça da oficina, e voltou para casa, carregando consigo o cansaço, a luta, e uma pequena, tenra, inexplicável esperança.

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