Bíblia em Contos

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O Administrador Astuto e o Rico

O sol da tarde despejava sobre Cafarnaum uma luz dourada e pesada, que poeira e suor tornavam tangible no ar. Na casa de Simão, o curtidor, um grupo de homens ouvia com atenção incomum. Não eram apenas os discípulos; entre eles havia fariseus, seus rostos compenetrados, e também gente comum, atraída pela fama daquele rabi da Galileia. Jesus estava sentado sobre um banco baixo de pedra, seus olhos percorrendo um a um, como quem mede a fundação de uma casa.

Ele começou a falar não de reinos distantes, mas de coisas terrenas, do barro do cotidiano. Contou de um homem rico, um latifundiário cujas terras iam além do que a vista alcançava, ao sopé das colinas de Gileade. Este homem tinha um administrador. E este administrador, um homem astuto cujo nome ninguém lembrava, foi acusado de dissipar os bens do patrão. “Que é isso que ouço a teu respeito?”, bradou o rico, sua voz um trovão contido. “Presta contas da tua administração, pois já não podes mais administrar.”

O homem, chamado à presença do senhor, sentiu o chão sumir sob seus pés. Suas mãos, acostumadas a manejar rolos de débitos e créditos, tremeram levemente. “Que farei?”, pensou, enquanto o rosto severo do patrão lhe queimava a pele. Cavar? As forças lhe faltavam, anos de mesa e tinta cobravam seu preço. Mendigar? A vergonha seria um manto mais pesado que a fome. Então, algo se acendeu atrás de seus olhos, uma centelha de pura e desesperada esperteza.

“Já sei o que fazer”, disse para si mesmo, um sorriso breve e amargo tocando seus lábios, “para que, quando for despedido da administração, me recebam em suas casas.”

E pôs-se a agir com uma velocidade febril. Chamou um a um os devedores do seu senhor. O primeiro, um cultivador de oliveiras, cheirava a terra e azeite. “Quanto deves ao meu senhor?”, perguntou o administrador, a voz agora um fio sereno. “Cem batos de azeite”, respondeu o homem, os olhos baixos. “Toma a tua conta, senta-te depressa e escreve cinquenta.” O cultivador olhou para ele, perplexo, depois uma luz de compreensão e alívio iluminou seu rosto asperamente cuidado. Assentou o novo valor com mão trêmula de gratidão.

Veio outro, um trigueiro, com os vestígios da colheita nos coturnos. “E tu, quanto deves?” “Cento e quarenta coros de trigo.” “Toma a tua conta e escreve oitenta.” Nada de explicações, apenas a transação rápida, o rasurar do papiro, o selo aplicado com urgência. Cada canetada era um degrau que o administrador construía para sua própria queda futura, mas também uma ponte lançada para um refúgio. Ele estava, com cálculo frio, usando a riqueza alheia — a riqueza que já lhe escapava das mãos — para comprar benevolência, para tecer uma rede de obrigação que o amparasse no dia seguinte ao desprezo.

Quando o senhor soube — pois os sussurros correm mais rápido que os cavalos nas estradas empoeiradas —, ele não rugiu de fúria. Surpreendentemente, um misto de exasperação e admiração crua lhe tomou o semblante. “E o senhor louvou aquele administrador desonesto, porque agiu com sagacidade.” A palavra ecoou na sala abafada: *sagacidade*. Os filhos das trevas, explicou Jesus, sua voz carregada de um significado denso, são mais hábeis no trato com sua própria geração do que os filhos da luz.

E então, sem transição brusca, como quem vai da sombra de uma árvore para a luz plena do meio-dia, ele aprofundou o golpe. “E eu vos digo: fazei amigos por meio das riquezas da injustiça, para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos.” Não era um elogio à desonestidade, mas um golpe de faca na hipocrisia. As riquezas, essa “riqueza da injustiça”, são em si mesmas instáveis, corruptíveis, um mestre falso. Mas podem ser usadas, devem ser usadas, não para acumular tesouros em baús, mas para cultivar algo que sobreviva à ferrugem e ao ladrão: relacionamentos, bondade, justiça, o bem no reino dos céus. “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito.” A mão que maneja o shekel de cobre com integridade é a mesma a quem se confiará o verdadeiro tesouro. A mão que torce a medida no pequeno negócio já está deformada para o grande. “Se, pois, nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras?”

Os fariseus, homens que amavam o dinheiro e a respeitabilidade que ele comprava, ouviam tudo aquilo com um sorriso desdenhoso e tenso. E Jesus, virando-se para eles como se sentisse o peso de seu escárnio, disse: “Vós sois os que justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações; porque o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação.”

A Lei e os Profetas, ele continuou, eram até João. Agora, o Reino de Deus era anunciado com uma urgência nova, e todos se esforçavam por entrar nele. Mas não era um esforço de rituais vazios ou de barganhas financeiras com o divino. Era um esforço de conversão total, de ajustar a vida àquela nova e abrasadora realidade.

E para gravar essa verdade a fogo, ele contou uma última história. A cena mudou para os portões de uma cidade opulenta, talvez Jerusalém ou mesmo Roma em miniatura. Havia um homem rico, vestido de púrpura e linho finíssimo, que todos os dias festejava esplendidamente. À sua porta, sob a mesma arquitetura de mármore que ele atravessava sem ver, jazia um mendigo chamado Lázaro. O nome dele importava: “Deus ajuda”. Lázaro estava coberto de chagas, e os cães — esses animais impuros e vadios — vinham lamber-lhe as feridas. Seu desejo era comer as migalhas que caíam da mesa do rico, mas nem isso lhe era dado. Apenas os cães lhe faziam companhia.

Veio, porém, o dia que iguala a todos. O mendigo morreu. E não houve funeral, apenas o silêncio pesado da rua. Mas ele foi “carregado pelos anjos para o seio de Abraão”. A imagem era de um descanso profundo, de uma intimidade reconfortante, como uma criança no colo do pai. O rico também morreu, e foi sepultado. Pompa, lamento, uma tumba lavrada. Mas no Hades, lugar dos mortos, ele ergueu os olhos, estando em tormentos.

E viu ao longe, num abismo intransponível, Abraão, e Lázaro no seu seio. A inversão era total, absoluta, escandalosa. “Pai Abraão”, clamou, sua voz agora despojada de toda autoridade terrena, “tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro que molhe a ponta do dedo na água e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama.”

A resposta veio, não com triunfo, mas com uma solenidade triste e irrevogável. “Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente os males; agora, porém, ele aqui é consolado, e tu atormentado. Além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os de lá atravessar para nós.”

Desesperado, o rico pensou nos seus. “Pai, então, peço-te que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.” Era um lampejo tardio de preocupação, ainda que enviesada. Abraão foi inexorável: “Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos.” Não, insistiu o rico, acreditando conhecer a psicologia humana, “mas se algum dos mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam.” A sentença final caiu como uma lápide: “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos.”

Na casa de Simão, o curtidor, o silêncio que se seguiu era espesso, carregado do cheiro do couro em tratamento e do suor da tarde. A história não terminava com uma moral explícita. Ela apenas ficava ali, pairando, como a visão de um abismo entre dois destinos. O administrador astuto, usando o efêmero para garantir seu futuro terreno. O rico anônimo, cego para o homem à sua porta, preso para sempre no tormento de uma riqueza que se tornara sua única realidade. E Lázaro, o ajudado por Deus, no único lugar onde as feridas finalmente saram.

Jesus não olhou mais para os fariseus. Seu olhar parecia atravessar as paredes de pedra, fixo num horizonte que só ele enxergava. A lição estava dada, não em preceitos, mas em retratos vívidos e terríveis. Era sobre a fidelidade no pouco, sobre o uso das riquezas — essa “coisa alheia” — para algo maior, sobre a cegueira que um luxo auto centrado produz, e sobre a palavra já dada, as Escrituras, que são luz suficiente para quem quer ver. O abismo, uma vez consolidado pela escolha de uma vida inteira, é, afinal, intransponível.

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