Bíblia em Contos

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Bíblia

A Sombra e o Coração

Jonas sentou-se no chão áspero, a leste da grande cidade de Nínive. O sol, impiedoso, martelava sua nuca e os ombros já queimados. Ele havia construído, com mãos trêmulas de raiva e cansaço, uma frágil cabana de folhas secas e galhos retorcidos. Dali, ele podia ver as vastas muralhas da cidade, e o espetáculo o enojava.

Não era o cheiro, que o vento leste às vezes trazia – um misto de esterco, fumaça de forja e o doce pesado de óleos. Não era o barulho distante, o murmúrio de milhares de vidas que ele considerava indignas. Era o silêncio. O silêncio dos céus. Nenhum fogo caindo. Nenhum estrondo divino. Apenas o vento quente sibilando sobre a colina desolada, carregando poeira.

Ele cravou os olhos no horizonte, esperando, contra toda esperança, ver um clarão no céu azul-acinzentado. Nada. A promessa de destruição total, aquela que ele havia proclamado com voz de trovão pelas ruas largas daquela metrópole perversa, havia se dissipado como orvalho ao sol. E Deus havia permitido. Pior, Deus havia se compadecido.

“Não foi isso que eu disse, lá em casa, quando ainda estava em meu país?” A voz saiu áspera, um sussurro carregado de cinzas, dirigido ao céu vazio. “Por isso me adiantei, fugindo para Társis. Porque sabia que és Deus clemente e misericordioso, tardio em irar-se e de grande benignidade, e que te arrependes do mal.” Cada palavra era um espinho cravado em seu próprio orgulho. Ele havia conhecido o coração de Deus, e essa mesma compaixão que o salvara do ventre do grande peixe agora o asfixiava. Preferia ser conhecido como profeta mentiroso, um alarmista fracassado, do que testemunhar a graça transbordando sobre a Assíria. Que direito tinham eles? Bebês que em poucos anos segurariam espadas contra o povo de Deus, velhos que em sua juventude talvez tivessem esquartejado israelitas? A compaixão divina parecia-lhe, naquele momento, uma forma profunda de injustiça.

O sol subiu ainda mais, tornando o ar um líquido pesado e quente. A sombra mísera da cabana encolhia, recuando como um animal acuado. O suor escorria por suas costas, salgando os cortes dos galhos. Um cansasso de alma, mais profundo que o cansaço do corpo, o entorpeceu. Desejou, com uma intensidade que o assustou, simplesmente não existir. “Agora, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver.” A oração não foi um grito, mas um suspiro de desistência, o som de algo dentro dele quebrando.

A resposta não veio em palavras. Veio em uma sombra.

Ele não percebeu no início, absorto em seu próprio martírio. Um frescor tocou sua nuca, um alívio tão súbito que arrancou um suspiro involuntário. Olhou para cima. Sobre a estrutura precária, uma planta crescera com velocidade silenciosa e milagrosa. Era uma aboboreira, suas largas folhas em forma de coração se entrelaçando num dossel denso e verde, barrando a fúria do sol. A sombra era fresca, úmida, cheirava a vida. Jonas sentiu os músculos da mandíbula relaxarem, sem que ele ordenasse. Um alívio físico tão grande que, por um instante, apaziguou a tempestade em seu espírito. Aquilo era um bem. Um bem simples, tangível. E ele, Jonah, o beneficiário. Pela primeira vez desde que saíra de Nínive, algo era conforme a sua vontade. Ele se aninhou naquela sombra, e um sono pesado, não de paz, mas de exaustão adiada, o venceu.

O dia seguinte amanheceu ainda mais quente. Jonas acordou com a sombra ainda sobre ele, e um sentimento estranho e confuso lhe apertou o peito. Olhou para a aboboreira, seu verde vibrante contra a palidez do chão. Era uma coisa boa. Sua coisa boa. Um sinal, talvez, de que Deus entendia seu ponto, afinal. Aprovava até seu descontentamento justo. A planta era um prêmio de consolação, um tapete fresco estendido para ele, o profeta ofendido, enquanto a cidade indigna prosperava lá embaixo.

Mas Deus não tinha terminado de falar.

Na madrugada seguinte, quando o primeiro fio cor-de-rosa riscou o leste, Jonas foi acordado por uma sensação estranha. Um roçar áspero contra o pé descalço. Sentou-se rápido. A aboboreira, outrora tão vigorosa, estava murcha. Suas folhas, outrora tensas como couro novo, pendiam flácidas e amareladas, suas bordas já encaracoladas e secas. E sobre elas, rastejando com uma voracidade silenciosa e metódica, estava uma larva. Uma única, pequena, de um branco pálido e quase translúcido. Ela devorava, milímetro a milímetro, o pecíolo que sustentava a vida da planta. Jonas observou, paralisado, enquanto a pequena criatura terminava seu trabalho e, em questão de minutos, o caule se partiu com um estalo seco. A copa verde desabou sobre a cabana, esmagando-a parcialmente, antes que um vento súbito e abrasador, um vento vindo do deserto sírio, surgisse como um forno sendo aberto.

O sol, agora sem barreira, caiu sobre Jonas como um malho. O vento quente era um sopro de forja, levando a poeira e a areia fina que ardia na pele e nos olhos. A sombra tinha desaparecido. O bem tinha sido revogado. A cabeça de Jonas latejou. A pele, que começara a cicatrizar, ardia de novo. O desespero que se abateu sobre ele foi físico, visceral, um pânico diante da hostilidade total dos elementos. Ele se encolheu, tentando fazer de seu corpo um alvo menor para o sol. A raiva voltou, mas agora era uma raiva fraca, derrotada, misturada a um sofrimento animal. “Melhor me é morrer do que viver.” A mesma palavras, mas agora eram um lamento, não uma acusação.

E então, a Voz. Não no trovão, não no terremoto. Na quietude abafada pelo vento quente. Era uma pergunta, suave como o roçar da larva na folha, e penetrante como o calor.

“Tens tu justa razão por te irares por causa desta aboboreira?”

Jonas engasgou. Justa razão? Claro que tinha! Era a única coisa boa, o único conforto em todo este deserto de decepção! “Tenho justa razão!” ele gritou para o vento, a voz rachada. “E isso até à morte!”

A última palavra ecoou, absurdamente grandiosa no contexto daquela planta murcha. E a Voz veio de novo, agora carregada de uma ironia triste, uma paciência infinita.

“Tu tens pena desta aboboreira, na qual não trabalhaste, nem a fizeste crescer; que numa noite nasceu, e numa noite pereceu. E não hei de eu ter pena de Nínive, aquela grande cidade, onde há mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e também muito gado?”

O silêncio que se seguiu não era mais vazio. Era pesado, carregado da presença dAquele que falara. Jonas não olhou mais para a cidade. Olhou para o caule quebrado da aboboreira, para a larva minúscula e agora inerte na areia. Ele não trabalhara por ela. Não a plantara, não a regara. Apenas a recebera. E sua pena tinha sido imensa, egoísta, possessiva.

E então, como se uma venda caísse de seus olhos interiores, ele viu. Não as muralhas, mas o que havia dentro delas. Não exércitos, não impérios. Pessoas. Cento e vinte mil almas confusas, tateando no escuro de sua própria ignorância, como crianças que não sabem distinguir a mão direita da esquerda. E o gado, animais mudos que pastavam ignorantes da história, da culpa, da política. Toda uma criação pulsante, frágil, necessitada.

Sua raiva, seu senso de justiça ferido, pareceram de repente pequenos. Tão pequenos quanto a larva. Tão secos quanto a planta murcha. Ele sentou-se na colina, sob o sol que agora parecia menos um castigo e mais um simples fato do mundo, envolto num silêncio que não era de abandono, mas de uma presença insondável. Deus não lhe dera uma resposta que satisfizesse sua lógica. Der-lhe-ia uma imagem, um espelho. A compaixão que Jonas achara fácil dirigir a uma planta, e impossível dirigir a uma cidade, era a mesma compaixão que sustentava o universo.

A história não termina com Jonas se levantando, sacudindo a poeira e indo pregar com novo ânimo. Termina com ele sentado. Olhando. E, talvez pela primeira vez, começando a entender o tamanho do coração que ele, teimosamente, insistia em servir. O vento quente continuou a soprar, mas agora carregava uma pergunta que queimava mais que o sol: tendo experimentado em sua própria pele o valor de uma única sombra, como poderia negar um universo de sombra a um mundo inteiro que cambaleava sob um calor muito maior?

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