Era tempo de exílio. O ar em Tel-Abibe, junto ao rio Quebar, carregava o cheiro de terra molhada e de cinza distante. Ezequiel, sacerdote sem altar, sentia o peso dos dias não pelo calor do sol, mas pela friagem de uma ausência: a de Jerusalém. Então, como em outras ocasiões, a mão do Senhor veio pesada sobre ele, e o espírito o transportou para além das planícies da Babilônia, para um lugar de visões feitas de memória e condenação.
Diante dele, não erguia-se um muro, nem um templo, mas uma cidade que era um navio. Tiro. A princesa dos mares, soberba em sua beleza, ancorada não em rochas, mas no comércio de todo o mundo conhecido. O Senhor lhe ordenou que erguesse uma lamentação sobre Tiro, e as palavras começaram a brotar dele não como choro simples, mas como um canto fúnebre complexo, um inventário de esplendor que precedia a ruína.
“Tu, ó Tiro, disseste: Sou perfeita em formosura.” Ezequiel via. E descrevia. Teu território estava no coração dos mares; os teus construtores aperfeiçoaram a tua beleza. E como era essa beleza? Eram quilhas de cipreste do Senir, tomadas das montanhas brumosas ao norte. Mastro de cedro do Líbano, alto e reto, que parecia desafiar o céu. Remos de carvalho de Basã, resistentes como a lei dos antigos. Convés de pinho das ilhas de Quitim, embutido com marfim polido, que reluzia sob o sol mediterrâneo como água parada.
As velas não eram simples panos. Eram finíssimo linho bordado do Egito, estandarte azul e púrpura das costas de Elisa. Coberturas eram de lã tingida dos montes de Edom, vermelha como o pôr-do-sol sobre o deserto. Os teus remadores eram os homens de Sidom e Arvade, braços calejados pelo ritmo das águas. Os teus pilotos, os sábios de Tiro, homens que liam as estrelas não para adorá-las, mas para traçar caminhos de lucro.
E o exército que guarnecia as tuas muralhas? Eram os mercenários de Pérgamo e da Lídia, escudos de bronze pendurados nas amuradas, lanças faiscando. Homens de Arvade e de Heleteque vigiavam nas torres, rostos impassíveis. Era uma cidade-fortaleza que navegava, uma ilha de riqueza móvel.
Mas a força de Tiro não estava em suas vigas ou em seus soldados. Estava em suas trocas. E aqui a visão de Ezequiel se tornava um mosaico vivo, um tumulto de cores, aromas e sons. Toda a costa era teu mercado. De Judá e da terra de Israel traziam trigo, minas, mel, azeite e bálsamo, produtos da terra prometida trocados por sonhos de grandeza alheia. Damasco, com seus vinhedos e suas ovelhas, enviava vinho de Helbom e lã branquíssima.
Vendedores de Vedã e Javã traziam ferro trabalhado, cassia e cálamo em rolos apertados. De Dedã, tapetes pesados para os salões dos ricos. Da Arábia e de todos os príncipes de Quedar, carneiros, bodes, o cheiro forte do curral e da lã não lavada. Sabá e Raamá ofereciam as especiarias mais raras: canela, olíbano, mirra, pedrarias – o ouro em pó e em aroma.
Harã, Cané e Éden, mercadores da Assíria e da Caldéia, traziam vestes finas, mantos de azul marinho, tapetes multicoloridos, cordas resistentes entrançadas em couro. Os navios de Társis cruzavam os mares mais bravios, e em troca da tua abundância, descarregavam prata, ferro, estanho e chumbo. Iavã, Tubal e Meseque negociavam contigo seres humanos e objetos de bronze. De Bet-Togarma, cavalos de guerra, animais de carga, mulas, o rinchar metálico que anunciava tanto o comércio quanto o conflito.
Os homens de Rodas patrulhavam as rotas; as ilhas do Egeu pagavam tributo. Edom enviava seus corais e rubis; Judá e Israel, seu trigo e seus unguentos. Damasco trazia vinho e lã de cor púrpura. Danitas e gregos remavam em tuas galés; os teus calafates eram de Gebal, os mais hábeis do mundo em vedar fendas com estopa e betume. Até a distante Pérsia e Lídia colocavam seus exércitos a teu serviço, por um preço.
Era um circo de nações, um frenesi de chegadas e partidas nos teus portos duplos. O alvoroço era constante: o grito dos capatazes, o rangido dos guindastes de madeira, o baque das mercadorias no cais, o cheiro misturado de especiarias doces, peixe salgado, óleo de cedro e suor humano. Tiro não produzia quase nada da terra. Tiro produzia rotas. Produzia desejo. Produzia dívida e dependência. E, na sua soberba, acreditava-se indestrutível, uma deusa sentada num trono sobre as ondas.
Ezequiel via tudo isso, e o canto de lamentação em sua boca adquiria um tom fúnebre. “Tu estavas cheia e sobrecarregada no coração dos mares.” Os teus mercadores eram como príncipes, os teus negociantes, os nobres da terra. Mas a visão mudou. O céu, antes azul sobre o mar cor de vinho, escureceu. Um vento leste, áspero, vindo do deserto, começou a soprar. Não era o vento que traz a areia, mas o que traz a ruína.
“O teu remador te levou por grandes águas; o vento leste te quebrou no coração dos mares.” Ezequiel via o naufrágio em câmera lenta. O navio-cidade, tão cuidadosamente construído, encontrava sua fenda não num rochedo, mas na vontade do Altíssimo. A riqueza, a multidão de mercadores, os exércitos mercenários, a sabedoria dos pilotos – tudo se mostrava inútil. Num grande estrondo que ele ouvia nos ouvidos da alma, as quilhas se partiam. O cedro do Líbano estalava como osso seco. O mar, outrora sua estrada, tornava-se sua sepultura.
A carga preciosa afundava: os fardos de estanho, os cofres de prata, as ânforas de azeite, os rolos de púrpura. Os remadores, outrora hábeis, subiam aos mastros quebrados, gritando, até serem engolidos pelas vagas. Os pilotos, os calafates, os mercenários, todos desciam às profundezas. O espanto apoderava-se de todos os que habitavam nas ilhas; os seus reis arrepiavam-se de horror, e o desespero pintava-se-lhes no rosto.
Os mercadores, ao longe, nos outros portos, choravam. Rasgavam as vestes, punham terra sobre a cabeça. Lançavam-se ao pó, e num pranto que não era só por perdas materiais, mas por um mundo que ruía. “Quem era como Tiro?”, perguntavam, surdos. A cidade que era coroa de beleza, o entreposto dos povos, jazia agora no fundo do mar. Tornara-se um lugar para os pescadores estenderem as suas redes. Um monturo de madeiras nobres apodrecendo sob as algas. Seus habitantes, espalhados, tornavam-se uma lenda, um aviso.
Ezequiel suspirou, esgotado. A visão se dissipou. O cheiro do mar salgado deu lugar novamente ao cheiro do rio e do acampamento. O cântico fúnebre estava completo. Não era apenas sobre uma cidade fenícia. Era sobre qualquer reinado humano edificado sobre a troca, sobre o orgulho, sobre a ilusão de auto-suficiência. Tiro confiava na perfeição de sua construção e na extensão de suas alianças. Mas esquecera-se do Construtor dos mares e do Dono de toda a riqueza. A queda, quando veio, não foi um acidente de navegação. Foi um juízo. E o silêncio que se seguiu ao estrondo era mais eloquente que todo o ruído do seu mercado. Era o silêncio de Deus após a sentença. Um silêncio que, o sacerdote exilado sabia, ecoaria através dos séculos, para quem tivesse ouvidos de ouvir.




