A areia fina e branca de Siquém ainda guardava o frescor da noite quando Ana começou a subir o outeiro. Seus pés, calejados de décadas de caminhar sobre pedras e terra ressequida, afundavam levemente a cada passo. O manto, um tecido grosso e desbotado, arrastava-se atrás dela, recolhendo sementes de cardo e o pó do caminho. Ela não ia ao templo naquela manhã. O templo era para os que tinham algo a oferecer, um cordeiro, um saco de farinha, uma prece robusta de gratidão. Ana levava apenas o vazio. Um vazio que tinha a forma precisa de um ventre que nunca se arredondou, de uma casa silenciosa, de um nome que desapareceria com ela na sepultura.
Sentou-se sobre uma rocha lisa, voltada para o leste, onde o sol começava a rasgar o véu cinzento da alvorada. O vale estendia-se abaixo, e o silêncio era tão profundo que ela podia ouvir o zumbido de um inseto distante e o bater próprio do seu coração, lento e cansado. Era ali, naquela solidão, que ela costumava vir para brigar em silêncio com o Senhor. Hoje, porém, nem para brigar tinha forças. A resignação era um peso mais pesado que a ira.
Fechou os olhos, e as palavras vieram sem forma, apenas um suspiro preso no peito. “Até quando?” Era a única pergunta. A pergunta de uma vida inteira.
Então, não em sonho, mas em uma quietude mais intensa que invadiu seu espírito, pareceu-lhe ouvir uma voz. Não era um som que ecoava nos ouvidos, mas uma ressonância no osso, no sangue. E a voz não vinha de fora, mas do deserto dentro dela. Era uma voz de águas profundas, de raízes antigas.
*Canta, ó estéril, que não deste à luz; irrompe em cântico e clama de alegria, tu que não tiveste dores de parto; porque mais são os filhos da mulher abandonada do que os filhos da que tem marido.*
Ana abriu os olhos, confusa. O sol agora banhava o vale em ouro, e o calor começava a subir da terra. “Estéril.” A palavra era uma marca a ferro quente. Como cantar sobre ela? Como alegrar-se por uma desolação? Olhou para suas mãos, enrugadas e vazias. Abandonada. Sim, assim se sentia. Mesmo com a presença do velho Eliab, seu esposo, bom homem mas distante em sua própria resignação, ela era uma tenda desguarnecida, cujas cordas estavam frouxas e cujas estacas vacilavam.
A voz, ou a consciência dela, persistia, tecendo imagens em sua mente. Não era mais apenas sobre ela, Ana, filha de Raquel, de Siquém. Era sobre uma cidade. Jerusalém? Sim, mas também uma cidade interior, uma morada da alma. Ela via, como em uma visão desperta, muralhas desmoronadas, portas arrombadas, ruas outrora cheias de risadas de crianças, agora silenciosas e cobertas de ervas daninhas. Via a própria desolação do seu ser refletida naquela cidade fantasma.
*Estende para a direita e para a esquerda as cordas da tua tenda; firma bem as tuas estacas. Porque transbordarás para a direita e para a esquerda; a tua descendência possuirá as nações e fará que sejam habitadas as cidades assoladas.*
Ela olhou para o horizonte. Seu pequeno mundo era aquele outeiro, a casa à beira do caminho, o espaço estreito de sua existência. “Estender as cordas?” Sua tenda era minúscula, sua vida, contida. Mas a voz falava de expansão, de transbordamento. Falava como se a esterilidade não fosse o fim, mas um campo arado, preparado para uma safra que os olhos não podiam ver. Uma safra que não brotaria do seu próprio corpo, talvez, mas de algo mais.
A memória do seu avô, um homem que murmurava as Escrituras enquanto consertava redes, veio à tona. Ele falava de um juramento, de uma aliança feita com montanhas. *“Porque isto é para mim como as águas de Noé…”* As palavras do profeta, que ela ouvira em fragmentos, agora se reorganizavam dentro dela com um sentido novo e avassalador.
A aliança não fora quebrada. A ira havia durado um momento – um longo, interminável momento em sua vida – mas a misericórdia era o fundamento eterno. Era como se as águas do Dilúvio, que haviam apagado uma criação, tivessem dado lugar a um pacto colorido no céu. Seu próprio deserto, sua aridez de anos, poderia ser, de alguma forma, o prelúdio de um jardim.
*Ó aflita, arrojada pela tempestade e desconsolada! Eis que eu assentarei as tuas pedras com antimônio, e te alicerçarei com safiras.*
As lágrimas, há tanto tempo secas, começaram a correr. Não eram lágrimas de amargura, mas de um reconhecimento profundo e doloroso. Ela era a aflita. A tempestade havia sido real: as esperanças adiadas ano após ano, os olhares de pena, a solidão íntima. Mas a promessa era de alicerce. Não de uma reconstrução qualquer, mas de uma fundação adornada com safiras. Beleza nascida da ruína. Valor imensurável assentado sobre a fraqueza.
O dia avançava. Ana não sentia fome nem sede. Uma leveza estranha tomara o lugar do peso. Ela desceu do outeiro, mas não era a mesma mulher que subira. O caminho de volta parecia diferente. A casa pobre, de pedras soltas e telhado de ramos, já não a olhava com hostilidade. Era uma tenda. E as cordas… como estender as cordas?
Naquela tarde, quando a pequena Rute, filha de uma viúva do povoado, veio, como sempre vinha, pedir um pouco de água, Ana não apenas lhe deu de beber. Convidou-a para entrar. Sentaram-se no chão de terra batida, e Ana, com uma voz rouca de tanto tempo em silêncio, começou a contar uma história. A história de uma cidade em ruínas que seria restaurada. De uma mulher estéril que se tornaria mãe de multidões. Rute, de olhos arregalados, escutava.
Nos dias que se seguiram, outras crianças começaram a aparecer. Órfãos, filhos de famílias pobres, pequenos rostos curiosos atraídos pela nova luz nos olhos de Ana. Ela não tinha pão para dar a todos, mas tinha histórias. Tinha a promessa. Ensinava-lhes os nomes das estrelas, falava das promessas feitas a Abraão, contava, com uma nova compreensão, sobre o cântico da mulher estéril.
A casa pequena tornou-se estreita. Com a ajuda de Eliab, que observava a transformação da esposa com assombro silencioso, estenderam uma lona grande ao lado da casa, amarrando-a com cordas robustas em estacas mais profundas. Sob aquela tenda improvisada, as vozes das crianças ecoavam. A esterilidade de Ana germinava em uma descendência de espíritos. Ela era mãe, não de um, mas de muitos. Sua cidade assolada, sua alma outrora em ruínas, agora era habitada pelo riso e pela curiosidade.
Anos depois, quando a morte veio buscá-la, suave como o cair da tarde, ela estava sob a grande tenda. Cercada de rostos que não eram do seu sangue, mas que eram sua herança. Um dos rapazes, agora um jovem escriba, lia em voz alta as palavras que ela amava: *“Porque o Senhor te chamou como a mulher desamparada e triste de espírito…”* Ana sorriu, um sorriso de paz profunda. Seus olhos, já turvos, fitaram as cordas da tenda, firmes contra o vento que soprava do deserto. Ela cantara. E sua canção, feita de silêncio quebrado e promessa abraçada, ecoaria naqueles corações para sempre. A muralha estava reedificada. As portas, guardadas. E a luz das safiras imaginárias do seu alicerce parecia brilhar, tênue e persistente, no crepúsculo que se anunciava.




