O sol da tarde começava a inclinar-se sobre as vastidões de Moabe, lançando sombras longas e douradas que se estendiam como dedos sobre a multidão. O ar, carregado do calor do dia, trazia agora uma ligeira fresquita, misturada ao cheiro persistente de poeira, suor e lã de rebanho. Uma quietude incomum pairava sobre o acampamento israelita, uma expectativa palpável que fazia até as crianças se aquietarem ao colo das mães.
No alto de uma colina baixa, apoiado num cajado que mais parecia parte do seu próprio corpo, Moisés estava de pé. Não era o homem impetuoso dos anos no Egito, nem o líder relutante da sarça ardente. O tempo, as lutas, a proximidade insuportável do Sagrado e o peso do governo haviam cravado marcas profundas em seu rosto. Seus olhos, sobrancelhas espessas já grisalhas, percorriam aquele mar de rostos. Viu velhos que, como ele, carregavam a memória do açoite egípcio; homens e mulheres no vigor da vida, marcados pelos anos errantes; jovens que só conheciam este mundo de areia e promessa. E crianças, muitas crianças, o futuro descalço e inquieto de uma nação.
Ele inspirou fundo, e quando falou, sua voz não trovejou. Saíu áspera, carregada de uma gravidade que fez o último sussurro morrer.
“Agora, pois, ó Israel,” começou, e as palavras pareciam brotar da terra seca, “ouça os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes.”
Uma mulher mais ao front apertou o xale contra o corpo, sentindo um calafrio que não vinha do frio. Era o tom da despedida. Todos sabiam.
“Não acrescentareis à palavra que vos ordeno, nem diminuireis dela,” Moisés continuou, seu olhar fixando-se num grupo de jovens sacerdotes, “para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos ordeno.”
E então, ele os levou de volta. Não com uma lista de regras, mas com uma cena de terror e fogo. “Os vossos olhos são os que viram o que o Senhor fez por causa de Baal-Peor,” lembrou, e muitos baixaram a cabeça, a vergonha daquela apostasia ainda uma ferida mal cicatrizada na alma coletiva. “Todo o homem que seguiu a Baal-Peor, o Senhor teu Deus o destruiu do meio de ti.”
O contraste veio em seguida, como um refrigério. “Mas vós, que apegados estivestes ao Senhor vosso Deus, todos estais hoje vivos.” A palavra “hoje” ecoou no silêncio, pesada como um diamante. Era um dom. Frágil. Condicional.
E ele pintou, com palavras simples e vívidas, o momento fundador. “Vinde às campinas ao pé do monte, e parai. Lembrai-vos do dia em que estivestes diante do Senhor vosso Deus em Horebe.” Sua voz baixou, quase um sussurro que todos se esforçavam para captar. “O monte ardia em fogo até ao meio do céu, e havia trevas, nuvens e escuridão. E o Senhor vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes, porém, além da voz, não vistes figura alguma.”
Ali estava o cerne. Ele insistiu, como quem grava uma verdade em pedra: “Guardai, pois, com diligência as vossas almas, pois nenhuma figura vistes no dia em que o Senhor vosso Deus falou convosco em Horebe, do meio do fogo. Para que não vos corrompais, fazendo para vós alguma imagem esculpida, semelhança de homem ou mulher…”
A lista fluía, um inventário poético da tentação humana: figuras de animais, de pássaros, de coisas que rastejam, de peixes. A proibição não era contra a beleza da criação, mas contra a confusão mortal entre o Criador e a criatura. “Não levantes os teus olhos aos céus,” advertiu, com um gesto que parecia abarcar o firmamento que começava a se pintar de estrelas, “e vejas o sol, e a lua, e as estrelas, todo o exército dos céus, e sejas impelido a te prostrar diante deles.”
A razão era histórica, visceral: o Senhor havia tirado aquela gente, aquela massa amorfa de escravos, do Egito, da fornalha de ferro. Eles eram o povo da aliança. A herança.
A narrativa então se voltou para o futuro, para uma terra que ele, Moisés, só veria de longe. “Quando, pois, fores pai de filhos, e de filhos de filhos, e envelhecerdes na terra,” disse, e sua voz ficou carregada de uma dor pessoal que todos compreendiam, “e vos corromperdes, e fizerdes alguma imagem esculpida, semelhança de alguma coisa… hoje tomo por testemunhas contra vós o céu e a terra, que certamente logo perecereis.”
Era um destino de ferro. A dispersão, o exílio, a adoração a deuses de madeira e pedra em terras estranhas. “E dali buscarás ao Senhor teu Deus,” ele profetizou, e aqui um primeiro fio de esperança teceu-se na trama sombria, “e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma.”
A história de Israel, na boca de Moisés, não era um conto de glória infalível. Era o relato de um povo teimoso e amado, de um Deus ciumento e misericordioso. “Porque pergunta agora aos tempos passados que foram antes de ti, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra,” desafiou ele, sua postura ereta, desafiadora contra o céu que escurecia. “Houve jamais um povo que ouvisse a voz de Deus falando do meio do fogo, como tu a ouviste, e vivesse?”
A resposta, claro, era não. Aquele era o seu distintivo, a sua glória e a sua responsabilidade esmagadora. “A ti te foi mostrado, para que soubesses que o Senhor é Deus; nenhum outro há, senão ele.”
O discurso fluía, ora íntimo como uma conversa ao redor da fogueira, ora solene como um cântico no tabernáculo. Ele falou das cidades de refúgio, da justiça a ser administrada com temor. E então, como quem entrega o tesouro mais precioso, anunciou a separação das três tribos a leste do Jordão. Era o pacto se movendo, se concretizando.
Por fim, após as leis, após as advertências, veio a nomeação. Josué. O nome pairou no ar como uma bênção e uma lâmina. “O Senhor irritou-se contra mim, por causa de vós,” confessou Moisés, sem amargura, apenas com a resignação de quem aceitou o veredito divino. “E jurou que eu não passaria o Jordão.” Mas Josué passaria. A liderança mudaria de mãos. A promessa, porém, permaneceria.
A noite já havia caído completamente quando ele terminou. As fogueiras do acampamento cintilavam como estrelas caídas no vale. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo choro contido de um bebê e o uivo distante de um chacal.
“Agora, pois, ó Israel, ouve,” ele repetiu, exausto, fundindo sua vida com a mensagem. “Guarda-os, para que vivas, e entreis, e possuais a terra que o Senhor Deus de vossos pais vos dá.”
Ele desceu da colina lentamente, seu corpo curvado sob o peso dos anos e da revelação. A multidão não se dispersou imediatamente. Permaneceu ali, em grupos silenciosos, como se o eco das palavras ainda vibrasse nas montanhas de Moabe. Um homem mais velho, com os dedos deformados por anos de trabalho no barro, olhou para as mãos vazias e depois para o céu estrelado. A lição estava gravada, não em pedra ou argila, mas num lugar mais profundo: o Deus que os libertara era invisível, intangível, e exigia uma fidelidade que fosse além dos olhos. Exigia o coração.
E naquela noite, sob o mesmo céu que testemunhara a promessa a Abraão, Israel entendeu, talvez como nunca antes, o preço terrível e doce de ser o povo escolhido. A terra que mana leite e mel estava logo ali, além do rio. Mas a posse real dependia de lembrar, sempre, a voz no fogo que não trazia forma alguma.




