O sol da tarde mergulhava as ruas de Corinto numa luz dourada e poeirenta. Dentro da casa de Gálio, na sala ampla do andar superior, o ar estava carregado de algo mais espesso que o calor do fim de dia. Era uma tensão silenciosa, misturada com o cheiro de óleo de lamparina e pão recente. Reuniam-se ali, como todos os primeiros dias da semana, os que chamavam a si mesmos de “os santos”. Mas naquele dia, a santidade parecia ter se esfarelado nas arestas das palavras não ditas.
Lídia, viúva de mãos calejadas pela linha e pela agulha, sentava-se num banco baixo, perto da janela. Seus olhos, normalmente serenos, fitavam o chão de terra batida. Ela havia confeccionado com suas próprias mãos as túnicas para os órfãos que Acaico cuidava nos fundos da cidade. Ninguém falara sobre isso na reunião de ações de graças. A palavra fora dada a Apolo, o grego eloquente, de voz melodiosa, que discorrera sobre os mistérios dos céus com uma língua que parecia fita de seda. Todos se maravilharam. Até mesmo Priscila, normalmente ponderada, balançara a cabeça, extasiada. Lídia sentira apenas um nó na garganta. O que eram belas palavras diante de uma criança tremendo de frio?
Do outro lado da sala, Marcos, um ex-soldado com uma perna que doía nas mudanças de tempo, remexia-se inquieto. Sua contribuição era a força bruta: carregava os sacos de trigo para as viúvas, consertava os telhados depois das tempestades. Era um serviço mudo, suado, sem glória. Na semana passada, tentara expressar, de forma truncada, uma impressão que tivera durante a oração – uma certeza súbita de que deveriam cuidar do velho Simão, o judeu paralítico que mendigava no porto. As palavras saíram pesadas, desconexas. E foram seguidas por um silêncio constrangedo, antes de Apolo retomar o fio de seu discurso com uma citação dos Profetas. Marcos mordeu o interior da própria bochecha.
E havia a jovem Talita, com seus olhos vívidos e um dom estranho que a assustava. Às vezes, em meio aos cânticos, uma visão lhe tomava conta: imagens de alerta, de perigo, de encorajamento. Na última assembleia, ela gritara, sem querer, sobre um laço escondido no caminho da comunidade. Todos a olharam como se fosse uma invasão, uma interrupção na liturgia bem-comportada. Aquiles, irmão de Gálio e homem dado à ordem, sugerira depois, com delicadeza, que talvez fosse melhor se ela contivesse tais impulsos, ou ao menos os partilhasse em particular. Talita sentira-se como um membro deslocado, um dedo que se mexe fora de tempo.
O irmão mais novo de Priscila, um rapaz chamado Lucas, tinha o dom das línguas. Em momentos de arrebatamento, sons estranhos e melódicos brotavam de seus lábios, e seu rosto se transfigurava numa paz impressionante. Para alguns, era a prova mais alta do Espírito. Para outros, como o prático Áquila, marido de Priscila, era um ruído incompreensível que atrapalhava o andamento dos trabalhos. “De que adianta”, sussurrara Áquila à esposa, “se ninguém entende e nada se edifica?”
A reunião daquele dia começou como sempre. Cânticos. Orações. A leitura de um trecho da carta que Paulo, o fundador, enviara de Éfeso. Mas o mal-estar subterrâneo não se dissipava. Era como um corpo com cãibras em músculos que não se conheciam. Até que Estéfanas, homem respeitado e de bom senso, se levantou. Não para discursar, mas para ler em voz alta, pausadamente, um trecho de outra carta que acabara de chegar, também de Paulo. Era uma resposta a perguntas que eles mesmos, em sua confusão, haviam enviado.
A voz de Estéfanas ecoou na sala quieta, só cortada pelo zurrar distante de um jumento.
“Irmãos, quanto aos dons espirituais, não quero que vocês permaneçam na ignorância.” A frase pairou no ar. Lídia ergueu lentamente o rosto. Marcos parou de se remexer.
“Há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diferentes tipos de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diferentes formas de atuação, mas é o mesmo Deus quem opera tudo em todos.”
Talita sentiu um calafrio percorrer sua espinha. As palavras não eram uma reprimenda, eram um desvelar.
Estéfanas continuou, e cada sentença era como um óleo derramado sobre feridas que ninguém ousava nomear. O texto falava de um só corpo, com muitos membros. E então, com uma clareza que cortou o coração de todos, Paulo começou a descrevê-los.
“O olho não pode dizer à mão: ‘Não preciso de você!’ Nem a cabeça pode dizer aos pés: ‘Não preciso de vocês!’”
Apolo, o eloquente, corou. Lembrou-se do olhar de Lídia, fixo no chão, enquanto ele tecia suas belas metáforas. Ele era a boca que falava. Mas de que adiantava a boca sem os ouvidos que escutavam o choro das viúvas, sem as mãos que cosiam as túnicas?
“Pelo contrário”, prosseguiu a voz firme de Estéfanas, “os membros do corpo que parecem mais fracos são indispensáveis.”
Marcos olhou para suas mãos largas, calejadas. Indispensáveis? A ele, que mal conseguia articular uma frase? A carta parecia responder sua dúvida muda: “E aquelas partes do corpo que parecem menos dignas, nós as tratamos com especial dignidade.” Seu serviço mudo não era inferior. Era a base, os pés que sustentavam o corpo para que a boca pudesse falar.
“Se o corpo todo fosse olho, onde estaria a audição? Se todo fosse audição, onde estaria o olfato?”
Áquila, ouvindo, sentiu um peso sair de seus ombros. O rapaz Lucas e seus sons estranhos… talvez fossem um membro necessário, ainda que ele, Áquila, não compreendesse sua função. Talvez a diversidade não fosse um problema a ser resolvido, mas um desígnio a ser abraçado.
Paulo listava os dons: palavra de sabedoria, palavra de conhecimento, fé, cura, milagres, profecia, discernimento, línguas, interpretação. Uma constelação de funções. Nenhuma era o sol que ofuscava as outras. Todas eram luzes do mesmo Espírito, distribuídas como Ele bem entendia, para o bem comum.
Quando Estéfanas chegou ao fim do capítulo e começou a falar de um caminho ainda mais excelente, o da amor, uma transformação silenciosa havia ocorrido na sala. Não era um fim, mas um novo começo. A luz das lamparinas já tremulava forte na escuridão que caía sobre Corinto.
Lídia foi a primeira a se mover. Levantou-se, não com tristeza, mas com uma quieta firmeza. Caminhou até Apolo e, sem cerimônia, pegou sua mão. “Irmão”, disse, sua voz rouca pelo pouco uso naquele dia, “suas palavras me comoveram. Mas minhas mãos precisam de direção. Conhece alguém entre os irmãos que esteja passando necessidade de vestimenta?” Apolo, surpreso, olhou para aquelas mãos ásperas e entendeu. Seu dom da palavra encontrou seu propósito: articular a necessidade e mobilizar o recurso. Ele começou a perguntar, a investigar.
Marcos se aproximou de Talita. “Aquela visão do laço”, disse, evitando seus olhos. “Podes descrevê-lo melhor? Talvez eu possa… inspecionar o caminho para o porto. Sabes, com essa perna, enxergo buracos que outros não veem.” Talita olhou para ele, e pela primeira vez não viu indiferença, mas um convite. Seu dom, assustador e abrupto, encontrava os pés para agir.
E Lucas, o jovem das línguas, viu Áquila se aproximar. Em vez de uma repreensão, o homem mais velho colocou uma mão pesada em seu ombro. “Não entendo teus sons, filho”, disse, sua voz áspera de sinceridade. “Mas se eles vêm d’Ele, então têm um lugar. Só peço uma coisa: se houver mensagem para nós, que Estéfanas, ou outro com o dom de interpretar, nos ajude a ouvi-la.”
O corpo, aos tropeços, começava a se perceber corpo. Cada dor, cada incômodo, era a comunicação de um membro com o outro. A hierarquia imaginária desmoronara. A mão não invejava o ouvido. O pé não desprezava o olho. Havia uma harmonia a ser buscada, não uma uniformidade a ser imposta.
Era apenas o começo. Os conflitos não se dissipariam por magia. A inveja e o ciúme ainda espreitariam nos cantos escuros do coração. Mas agora tinham um mapa, uma verdade mais profunda que suas impressões: eram um só. O Espírito que dava a palavra sábia a Apolo era o mesmo que fortalecia os braços de Marcos, era o mesmo que abria os olhos interiores de Talita. A diversidade não era um acidente, era a assinatura do Artífice.
Fora, a noite já havia caído sobre Corinto, cidade de comércio, vício e filosofia. Mas na sala superior da casa de Gálio, uma pequena luz, feita de muitas chamas distintas, queimava com uma claridade nova. Não era a luz de um só grande archote, mas a luz de muitas lâmpadas, cada uma em seu lugar, iluminando juntas os rostos daqueles que, afinal, começavam a enxergar uns aos outros.




