O mar de Cesareia cintilava sob um sol implacável, não com a placidez de um lago, mas com a fúria contida de águas profundas batendo contra o cais de Herodes. A brisa carregava o cheiro duplo de sal e poder. Naquela cidade erguida para agradar a Roma, cada pedra da pretorória de Félix parecia suar autoridade. E dentro, no recinto fresco e sombrio onde o governador administrava a justiça, o ar estava carregado de um tipo diferente de tempestade.
Paulo de Tarso, o homem no centro daquilo tudo, parecia deslocadamente pequeno. As correntes nos seus pulsos, no entanto, não eram as de um pequeno homem. Eram pesadas, frias, e tilintavam com um som metálico e baixo cada vez que ele ajustava a postura. Seu rosto estava marcado pela fadiga das semanas de confinamento, mas seus olhos, escuros e agudos, mantinham uma chama que a prisão não conseguira apagar. Ele observava, em silêncio, o teatro que se preparava.
Do outro lado do espaço, um grupo adentrou com estrépito. Ananias, o sumo sacerdote, vestia túnicas de linho de um branco ofensivo na penumbra, mas seu rosto era um monumento à ira contida. Seus lábios finos estavam comprimidos, e ele evitava olhar diretamente para Paulo, como se a simples visão do prisioneiro fosse uma contaminação. Ao seu lado, arrastando os pés com a importância de quem carrega o destino da nação, estavam os anciãos. E à frente, preparando-se para falar, estava Tertulo.
Tertulo era um orador. Isso se via na maneira como ele dispunha as pregas da toga, no cuidado com os cabelos, no olhar que percorria a sala avaliando o público invisível da história. Quando começou a falar, sua voz era um instrumento oleado, fluindo com uma deferência que beirava a obscenidade.
“Ilustríssimo Félix,” ele iniciou, com um ligeiro inclinar da cabeça, “gozamos de muita paz através de ti, e prosperidade tem sido trazida a esta nação por meio da tua previdência. Em todo tempo e em todo lugar, ó excelentíssimo, aceitamos isso com toda a gratidão.”
Paulo quase pôde sentir o cheiro do incenso barato daquela adulação. Félix, entronizado em sua cadeira, com o rosto impassível de um soldado endurecido que ascendeu ao poder através da intriga e do favor imperial, apenas acenou levemente. Ele conhecia o jogo.
A voz de Tertulo, então, mudou de tom. A melodia suave deu lugar a um martelo. “Para não te importunar demasiado, porém, rogo-te que nos ouças brevemente, com a tua habitual clemência. Encontramos este homem uma peste, promotor de sedições entre todos os judeus, por todo o mundo, e líder da seita dos nazarenos. Ele tentou ainda profanar o templo, e nós o prendemos, com a intenção de julgá-lo segundo a nossa lei.”
As palavras eram escolhidas para ferir: “peste”, “sedições”, “seita”. Palavras que ecoavam nos corredores do poder romano como um alarme. Tertulo ergueu um pergaminho, um gesto vazio, pois não havia documentos, apenas acusações. “O tribuno Lísias, porém, arrebatou-o das nossas mãos com grande violência, ordenando que os seus acusadores viessem a ti. Interroga-o a ti mesmo, e poderás certificar-te de todas estas coisas de que nós o acusamos.”
O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo tilintar das correntes de Paulo. Todos os olhos se voltaram para ele. Félix fez um gesto breve com a mão. “Tens a palavra.”
Paulo levantou-se. Não havia a retórica ensaiada de Tertulo em seus movimentos. Era uma quietude sólida. Quando falou, sua voz era clara, um pouco áspera pela falta de uso, mas carregada de uma convicção tranquila.
“Sabendo que há muitos anos julgas esta nação, discorro com maior confiança na minha defesa,” começou, e era verdade – havia um respeito factual ali, não a lisonja viscosa de antes. “Podes verificar que não faz mais de doze dias que subi a Jerusalém para adorar. E não me acharam no templo discutindo com alguém, nem amotinando o povo, nem nas sinagogas, nem pela cidade. Nem podem provar as coisas de que agora me acusam.”
Ele fez uma pausa, deixando a negação pairar. “Isto, porém, confesso a ti: que, segundo o Caminho, a que chamam seita, assim eu sirvo ao Deus de nossos pais, acreditando em todas as coisas que estejam de acordo com a Lei e no que está escrito nos Profetas. Tendo esperança em Deus, como estes mesmos também a têm, de que haverá ressurreição tanto dos justos como dos injustos. Por isso, procuro sempre ter uma consciência sem ofensas, tanto para com Deus como para com os homens.”
A menção à “ressurreição” causou um frêmito quase imperceptível na fileira dos acusadores. Era uma divisão teológica que Paulo conhecia bem, e que ele agora usava não como doutrina, mas como um fato que expunha a fratura naquela frente unida. Ele prosseguiu, direto ao ponto crucial.
“Ora, depois de muitos anos, vim trazer esmolas ao meu povo e oferecer sacrifícios. Foi nesse contexto que me acharam no templo, já purificado, sem ajuntamento nem tumulto. E eram alguns judeus da Ásia – que deveriam estar aqui presentes para me acusar, se é que tinham algo contra mim. Ou, então, que estes que aqui estão digam que mal encontraram em mim quando compareci perante o Sinédrio…”
Ele olhou diretamente para Ananias. O sumo sacerdote contraiu os maxilares. A ausência dos verdadeiros instigadores do tumulto, os judeus asiáticos que haviam sumido, era uma falha gritante no caso. Paulo terminou com uma simplicidade devastadora: “… a não ser esta única afirmação que, estando entre eles, eu gritei: ‘É por causa da ressurreição dos mortos que eu estou sendo julgado por vós hoje’.”
A sala ficou em silêncio. O discurso de Paulo não tinha ornamentos, apenas a armação nua dos fatos e uma fé que transformava a própria defesa em testemunho. Félix observava, seus dedos batendo levemente no braço da cadeira. Ele era um homem que conhecia a lei – a romana, pelo menos – e sabia reconhecer quando um caso se esvaziava. As acusações de sedição contra Roma evaporaram-se no ar; sobrava uma disputa religiosa interna, um assunto de palavras sobre um tal “Caminho” e sobre a ressurreição de mortos. Assuntos que um administrador pragmático desprezava, mas que também não valiam o risco de um motim.
Ele adiou. “Quando o tribuno Lísia descer,” disse, sua voz rouca e final, “decidirei o vosso caso.” Era um adiamento cômodo. Ordenou que Paulo fosse guardado, mas com certa liberdade – que os amigos pudessem vir servi-lo. E que o centurião não o impedisse.
Os dias se transformaram em semanas, e as semanas ameaçavam meses. Paulo permaneceu naquele limbo, uma cela mais ampla, uma sentença indefinida. E Félix, curiosamente, começou a mandar chamá-lo. Não para o tribunal, mas para os aposentos particulares de Drusila, sua jovem esposa judia. Era um cenário íntimo e opressivo: os tapetes ricos, o aroma de óleo de lírio, a beleza fria de Drusila, e Félix, o governador duro, agora fingindo interesse.
“Quero ouvir-te falar da fé em Cristo Jesus,” dizia Félix, e seus olhos não cintilavam com busca espiritual, mas com a avareza de um homem que acumulava tudo – riqueza, poder, e agora, talvez, algum conhecimento excêntrico para seu entretenimento.
E Paulo falava. Não mais como um acusado, mas como um embaixador em cadeias. Falava da justiça, do domínio próprio, e do juízo vindouro. As palavras, simples e terríveis, perfuravam a atmosfera luxuosa do quarto. Falava de um Justo diante do qual governadores eram insignificantes, de um domínio que não se obtinha por suborno ou intriga, de um juízo que não se podia adiar com ordens burocráticas.
Félix, acostumado a subjugar homens com a força ou comprá-los com prata, sentia-se estranhamente subjugado. Um tremor, não de medo, mas de um profundo desconforto, percorria seu ser. “Por agora podes retirar-te,” interrompia, a voz um pouco mais áspera do que o habitual. “Quando achar ocasião oportuna, te chamarei.” A ocasião oportuna nunca vinha. Ele esperava, também, que Paulo lhe oferecesse dinheiro pela liberdade – um suborno era uma linguagem que ele entendia perfeitamente. Mas Paulo só lhe oferecia palavras sobre um reino que não era deste mundo, e sobre um tesouro que a ferrugem não corroía.
Assim, dois anos se passaram em Cesareia. A poeira do verão dava lugar às chuvas do inverno, e novamente ao verão. Governadores tinham pressa; a justiça de Deus, aparentemente, não. Paulo vivia no intervalo, pregando a todos que iam até ele, escrevendo cartas, fortalecendo os irmãos. Enquanto isso, Félix, aquele homem que detinha todo o poder temporal sobre sua vida, afundava em sua própria covardia e ganância, até que um dia, diante de novos distúrbios, foi chamado de volta a Roma, deixando Paulo preso, como um favor político aos judeus, para seu sucessor, Pórcio Festo.
A última imagem que se tem é a do navio do governador partindo, suas velas infladas pelo vento que vinha do mar aberto, rumo a um destino incerto. E na fortaleza, um homem de correntes permanecia. Sua prisão era um fato. Mas sua voz, aquela voz que falava de justiça, domínio próprio e juízo, ecoava muito além das paredes de pedra, num reino que nenhum governador podia tocar, e que nenhuma cela podia conter. O processo estava parado, mas o Caminho, de forma alguma.




