Bíblia em Contos

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Bíblia

Transfiguração e a Fé do Vale

A brisa cortante descia das encostas do Monte Hermon, carregando o cheiro de terra úmida e pinheiros. Não era um lugar de repouso. Cesareia de Filipe, com seus templos pagãos esculpidos na rocha viva, era um território de ecos estranhos, onde a voz de Deus parecia ter de competir com o sussurro de deuses antigos. Yeshua havia trazido os três para cá – Pedro, Tiago e João – em um daqueles silêncios deliberados que os deixavam inquietos. Pedro, sempre movido por um impulso interior de preencher vazios, caminhava um passo à frente, os olhos escrutando o caminho pedregoso.

A conversa havia sido pesada. Lá atrás, na estrada, Yeshua falara novamente sobre sofrimento, rejeição, morte. Palavras que chocavam como água gelada no rosto. Pedro ainda sentia o eco da própria repreensão: “Para trás de mim, Satanás!”. A ferida daquela correção ainda latejava, uma dor surda que se misturava à confusão. Quem era este homem, que falava do Messias como um cordeiro marcado para o sacrifício?

Yeshua parou num pequeno platô, onde a vista se abria para o vale. O sol da tarde começava a se inclinar, tingindo as nuvens de um roxo profundo. Não disse uma palavra. Apenas olhou para eles, e aquele olhar tinha uma profundidade insuportável, como se visse através da carne, dos ossos, diretamente para o emaranhado de fé e medo que cada um carregava. Pedro sentiu um frio que não vinha da montanha. Então, começou.

Não foi um relâmpago, nem um estrondo. Foi uma transformação silenciosa, a partir de dentro. Seu rosto, tão familiar, tão humano com suas marcas de cansaço, começou a emitir uma luz que não ofuscava, mas revelava. Era como se uma cortina tivesse sido aberta, e a verdadeira substância de seu ser, normalmente velada pela carne, se tornasse visível. Suas roupas, simples mantos de lã, tornaram-se de uma brancura impossível, uma brancura que parecia absorver e depois refletir toda a luz do universo, mais brilhante que qualquer alvejante terreno poderia produzir. Pedro engoliu seco. Não era um reflexo do sol poente. A luz vinha *dele*.

E então, como se a visão não fosse já suficiente para despedaçar a razão, duas figuras se materializaram ao lado dele, conversando. Não houve aparição súbita; foi mais como se elas sempre tivessem estado ali, e seus olhos, agora abertos pela mesma luz, pudessem finalmente vê-las. Pedro reconheceu os rostos, não por tê-los visto antes, mas por uma certeza que brotou das Escrituras gravadas em seu coração. Moisés. Elias. A Lei e os Profetas, encarnados, sólidos, reais. E conversavam com Yeshua. Sobre o *êxodo* dele, que estava para se cumprir em Jerusalém. A palavra em grego ecoou na mente de Pedro: êxodo. Partida. Libertação através da morte.

O terror e o êxtase se fundiram em Pedro num caldeirão de emoções insuportáveis. Aquele era o momento! O momento da manifestação! A tenda da revelação, a Festa dos Tabernáculos profética! A voz jorrou dele antes que pudesse pensar, um borrão de sons tentando congelar a eternidade em um acampamento temporário. “Senhor, é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias!”. A frase soou patética, ridícula, mesmo em seus próprios ouvidos. Ele queria a permanência, o conforto de um marco, de um santuário no alto da montanha, longe da inevitabilidade da cruz que Yeshua insistia em mencionar.

Enquanto ainda falava, uma nuvem, densa e viva, desceu e os envolveu. Não era a névoa úmida da montanha; era uma presença, opressiva e suave ao mesmo tempo. O medo, um medo primitivo e sagrado, agarrou-os, e eles caíram com o rosto em terra. Da nuvem veio uma Voz. A mesma do Jordão, mas agora com o peso solene do Sinai: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado. A ele ouvi!”.

Quando Pedro ousou erguer o rosto, tremente, a visão havia cessado. A luz se fora. Moisés e Elias se foram. A nuvem se dissipara. Apenas o crepúsculo comum envolvia a montanha, e Yeshua, sozinho, com o rosto novamente comum, se aproximou. Tocou-os no ombro. Um toque humano, firme, caloroso. “Levantem-se”, disse, sua voz era a mesma de sempre, mas agora carregada de uma doçura infinita. “Não tenham medo”. Eles se levantaram, os joelhos ainda fracos, e ao olhar em volta, viram apenas a paisagem familiar, as pedras, as sombras alongadas.

No caminho de volta, descendo a trilha escura, Yeshua lhes deu uma ordem simples e solene: “Não contem a ninguém o que viram, até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dentre os mortos”. A ressurreição. A palavra pairou no ar, um mistério dentro do mistério. Eles guardaram silêncio, mas entre si, no íntimo, debatiam o que significaria “ressuscitar dentre os mortos”.

A cena que os aguardava ao pé da montanha foi um choque brutal. A glória indizível do cume dava lugar ao desespero tangível do vale. Uma multidão agitada, os outros nove discípulos cercados, acuados, e um homem gritando, seu rosto distorcido pela angústia. “Mestre, tem misericórdia do meu filho!”, ele bradou, correndo em direção a Yeshua. “Ele é lunático e sofre horrivelmente… muitas vezes cai no fogo, muitas vezes na água. Levei-o aos teus discípulos, e eles não puderam curá-lo!”

Pedro viu a dor no rosto de Yeshua, mas era uma dor diferente daquela do cume. Era uma mistura de compaixão profunda e uma frustração intensa, quase indignada. Ele olhou para os discípulos, e seu lamento pareceu sair das profundezas de uma alma cansada: “Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?”. As palavras cortaram mais que qualquer crítica. Era o lamento de Deus pela teimosia humana, pela fé que ainda se agarrava mais ao poder próprio do que ao poder dAquele que enviara.

“Tragam-me o menino”, ordenou Yeshua. Quando o trouxeram, o espírito imediatamente o agitou violentamente; ele caiu no chão, revolvendo-se com espuma na boca. A cena era caótica, trágica, o oposto absoluto da glória ordenada que haviam testemunhado. Yeshua, porém, permaneceu calmo. Perguntou ao pai, com uma calma que era em si mesma um desafio ao caos: “Há quanto tempo isso lhe acontece?”. “Desde a infância”, respondeu o homem, a voz quebrada. “Muitas vezes o tem lançado no fogo e na água, para o matar. Mas, se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos”.

E então veiu a frase que ressoaria para sempre nos ouvidos de Pedro, uma chave que ligava a montanha ao vale, a glória à fraqueza. “Se podes?”, repetiu Yeshua, e havia um fogo brando em seus olhos. “Tudo é possível ao que crê”. Imediatamente, o pai do menino exclamou, com lágrimas escorrendo livremente, num grito que era a essência de toda a verdadeira oração: “Eu creio! Ajuda a minha incredulidade!”.

Yeshua não hesitou. Repreendeu o espírito imundo com uma autoridade que não admitia discussão, como quem dá uma ordem a um servo rebelde. “Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: sai dele e nunca mais entres!”. O menino deu um grito, um último e terrível espasmo, e depois ficou imóvel, tão pálido que muitos na multidão sussurraram: “Está morto”. Mas Yeshua tomou-o pela mão, com a mesma naturalidade com que ajudara Pedro a levantar-se na montanha, e o ergueu. E o menino ficou em pé, são, sua mente clara, seu corpo em paz.

Mais tarde, dentro de casa, longe da multidão, os discípulos se aproximaram de Yeshua em particular. A pergunta que os atormentava era prática, quase áspera, nascida do fracasso: “Por que não pudemos nós expulsá-lo?”. A resposta de Yeshua foi simples, direta, e lançava uma ponte sobre todo o evento daquele dia. “Por causa da pequenez da vossa fé”. E então, com a paciência de quem ensina crianças, acrescentou: “Pois em verdade vos digo, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: ‘Passa daqui para acolá’, e ele passará. Nada vos será impossível”. E, baixando a voz, concluiu com uma seriedade sombria: “Mas esta casta de demônios não sai senão por meio de oração e jejum”.

Pedou olhou para as próprias mãos. Elas haviam desejado construir tendas no meio da glória. Haviam se mostrado impotentes diante do sofrimento no vale. A lição era clara, e doía. A fé não era um sentimento do cume, um êxtase a ser preservado. Era um grão minúsculo, uma decisão de confiança que devia ser exercitada na escuridão, alimentada pela oração secreta e pelo jejum, pela dependência total. O Filho amado, transfigurado, era o mesmo que descia ao vale para enfrentar o mal mais arraigado. E a eles, cabia apenas uma coisa: ouvi-Lo. Ouvir, e crer. Mesmo quando a única oração possível fosse um grito despedaçado: “Eu creio! Ajuda a minha incredulidade!”. O monte da transfiguração e o vale da enfermidade estavam unidos por um único fio tênue e forte: a voz do Pai, que apontava para o Filho. Tudo o mais era ruído.

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