O sol da sétima hora batia obliquamente sobre Mizpá, trazendo consigo não a calma, mas um peso úmido e opressivo. A poeira do caminho, levantada por um grupo de peregrinos ao longe, assentava-se lentamente sobre as muralhas da cidade, sobre os telhados, sobre a memória ainda recente da ruína. Gedalias, homem de paz num tempo de espada, governava dali, sob a sombra consentida dos caldeus. Era um equilíbrio frágil, um vaso de argila rareado sobre brasas.
No pátio da antiga residência do governador, Ismael, filho de Netanias, de linhagem real, esperava. Seus dedos tamborilavam uma melodia silenciosa contra o coldre da espada. Não era um homem de gestos amplos; sua impaciência era contida, íntima, como água que corrói a pedra por dentro. Os olhos, escuros e fixos, absorviam a cena: os servos preparando a mesa para a refeição principal, o vai-e-vem de homens que confiavam na palavra dada, na lei da hospitalidade. Um sorriso estreito lhe tocou os lábios, tão breve que poderia ter sido um tremor. Ele viera com dez homens, braços fortes, olhares que não se desviavam. Vinham em paz, diziam. Vinham prestar homenagem.
Gedalias recebeu-os pessoalmente. O governador era um homem cujo rosto carregava a fadiga da conciliação. Saudou Ismael com um aperto de braço, suas palavras soando genuínas naquele espaço aberto. “A casa é tua. O pão é teu. Encontramos graça em permanecer juntos, em reconstruir sobre as cinzas.” Havia uma sombra de alívio em sua voz, a esperança de que a ferida real, aquele sangue real que corria nas veias de Ismael, pudesse finalmente aquiescer, curvar-se à nova realidade.
A refeição foi servida sobre uma mesa larga de cedro. Pães achatados, ainda quentes, um guisado de lentilhas com aroma de cominho, azeitonas negras como pequenos olhos mortos. O ato de partir o pão era sagrado, um pacto tácito de não-agressão. Ismael e seus homens sentaram-se entre os homens de Gedalias, entre os pequenos mercadores e soldados judaicos que ali buscavam refúgio. A conversa era baixa, pontuada pelo som das taças de barro sendo assentadas na madeira.
Foi no ápice desse frágil convívio, quando as mãos se estendiam para o mesmo prato, que Ismael se ergueu. Não foi um movimento brusco, mas deliberado, como quem cumpre um dever penoso. Não disse uma palavra. Seu olho encontrou o de seus companheiros, e foi suficiente. O rugir que se seguiu não foi de fera, mas de ferro desembainhado, um som seco e terrível que cortou o ar morno. Gedalias, com um pedaço de pão ainda na mão, recebeu a primeira estocada. O espanto em seus olhos foi maior do que a dor, a traição consumando-se antes que a morte chegasse. Ele caiu sobre a mesa, derrubando taças que se estilhaçaram, misturando vinho tinto a um vermelho mais escuro.
O pátio transformou-se num matadouro. Os convivas, desprevenidos, foram colhidos no ato íntimo de comer. Gritos breves, sufocados, o baque de corpos contra o chão de terra batida. Os dez homens de Ismael trabalhavam com eficiência brutal, seus movimentos coordenados pela conspiração de longa data. Em minutos, o silêncio retornou, mais pesado e horrível do que o ruído anterior. Só os vivos eram Ismael e seu bando, e o cheiro do sangue que começava a competir com o aroma da comida.
Mas a fome de morte não estava saciada. Nos dias que se seguiram, Ismael manteve uma aparência sinistra de normalidade. A notícia do massacre ainda não vazara completamente. Foi então que chegaram a Mizpá oitenta homens, de Siquém, de Siló e de Samaria. Homens simples, de barbas empoeiradas e roupas rasgadas em sinal de luto, trazendo ofertas de cereal e incenso para a Casa do Senhor. Vinham em peregrinação, com a fé teimosa dos que viram seu templo ser reduzido a escombros, mas não seu Deus.
Ao encontrarem Ismael no caminho, perguntaram, ansiosos, por Gedalias. Ismael saiu ao seu encontro, e seu rosto agora era uma máscara de falsa condolência. “Vinde a Gedalias”, convocou, e sua voz era um fio de seda sobre um abismo. Ele os fez entrar na cidade, na mesma praça onde o sangue já se embrenhara na terra. E então, quando todos estavam dentro, as portas se fecharam.
Desta vez, o massacre foi metódico. Sessenta almas tombaram no mesmo solo profanado. Os vinte restantes, talvez os mais ágeis ou apenas os mais aterrorizados, suplicaram pela vida. “Não nos mates”, gritaram, “temos tesouros escondidos nos campos: trigo, cevada, azeite e mel!” A ganância, irmã gêmea da crueldade, fez Ismael hesitar. Concordou. Amarrou os sobreviventes como animais para o abate e os manteve vivos, não por misericórdia, mas para saquear seus segredos depois.
A cidade, agora um túmulo silencioso, tornara-se insustentável. Ismael decidiu fugir, rumo aos amonitas, seus aliados secretos, os instigadores de todo o sangue. Levou consigo os cativos, e também as filhas do rei e todo o resto do povo que Gedalias governara em Mizpá – almas resíduais, espoliadas de sua frágil paz. A coluna movediça de desespero pôs-se em marcha, deixando para trás portas abertas e um silêncio que berrava.
A notícia, porém, é um corvo que voa mais rápido que um homem a pé. Joanã, filho de Careá, e os outros capitães das forças dispersas que se escondiam nos areais e nas colinas, souberam. A fúria que os tomou não era apenas pela traição, mas por um futuro que se esvaía novamente. Reuniram seus homens e saíram no encalço.
Alcançaram-nos junto às grandes águas de Gibeão. O encontro não foi de batalha, mas de um confronto paralisado pela surpresa. Os cativos, ao verem seus libertadores, romperam em choro e correram para Joanã e seus homens. Ismael viu seu prêmio escapar-lhe entre os dedos. Com dois dos seus fiéis mais próximos, rasgou a multidão e fugiu, desaparecendo na direção de Amom, levando apenas a culpa e o fracasso.
Joanã ficou às margens do lago, com o povo salvo, chorando, olhando para trás, na direção de Mizpá. O que restara? Um governador morto à mesa, peregrinos assassinados no átrio, e um povo outra vez desamparado, carregando apenas a memória do ferro e do pão partido. O sol se punha, lançando sobre as águas de Gibeão um reflexo cor de sangue. E eles ali ficaram, no limbo, entre a justiça que falhara e o juízo que ainda não chegara, tendo por herança apenas o peso amargo de um capítulo escrito não por Deus, mas pela mão desvairada dos homens.




