Era uma terra cansada. Não pelo sol, que ainda batia forte nas folhas dos carvalhos, nem pela chuva, que às vezes vinha generosa. Era uma fadiga da alma, um peso antigo que todos carregavam nos ombros e ninguém sabia nomear. Nos vales de Judá, o pó das estradas parecia misturar-se com a poeira das esperanças esquecidas. O velho tronco da casa de Jessé, outrora vigoroso, agora parecia pouco mais que um toco ressequido à beira do caminho, lembrança de uma grandeza que a memória já mal sustentava.
Foi numa tarde assim, dessas em que o calor faz o ar vibrar e o silêncio ganha um zumbido baixo, que a história começou a ser recontada. Não com estrondo, mas com o sussurro teimoso da terra. Debaixo daquele toco aparentemente morto, uma força quieta trabalhava. A vida, teimosa, insubmissa, pressionava de baixo para cima. E num dia qualquer, quando a rotina do povo seguia seu curso morno, um pequeno rebento rompeu a casca dura do velho tronco. Era tenro, de um verde quase translúcido, frágil como um suspiro. Ninguém notou, a não ser um menino que pastoreava ovelhas perto dali e se abaixou, curioso, para tocar aquela novidade.
O rebento cresceu. Não com a urgência desesperada de um arbusto selvagem, mas com uma solenidade paciente, como se cada folha, cada centímetro de altura, fosse deliberado e cheio de propósito. Tornou-se um renovo, e depois, lentamente, começou a se firmar como um ramo promissor. E do coração desse ramo, algo mais profundo começou a emanar. Não era apenas vida vegetal; era uma presença. Os mais antigos, ao passarem perto, sentiam uma estranha calma. Era como se o ar ficasse mais leve, mais respirável.
O pastorzinho, agora um jovem, visitava o lugar com frequência. Chamavam-no de Eliab, mas ele não se importava com nomes. Sentava-se à sombra do ramo que já dava boa sombra e ali ficava, horas a fio. Um dia, enquanto repousava, viu uma cena que guardaria no peito para sempre. Um lobo magro, de olhos famintos e pelo eriçado, desceu da colina rochosa. Ao mesmo tempo, de um rebanho distante, separou-se um cordeiro gordo, desgarrado e desorientado. Os caminhos dos dois se cruzaram na clareira, bem diante do jovem. O coração de Eliab gelou. Preparou-se para o grito, para o ataque inevitável. O lobo parou. Cheirou o ar. Seus olhos âmbar fitaram a presa fácil. E então, algo mudou em sua postura. A tensão predatoria pareceu esvair-se de seus músculos. Ele se aproximou, não com o lombo arqueado do caçador, mas com uma curiosidade desajeitada. O cordeiro, inocente, não fugiu. E para espanto do jovem, o lobo deitou-se ao lado do animal, num gesto de cansada trégua. Não era amizade, ainda não. Era uma cessar-fogo da natureza, um suspiro no meio da luta eterna. Eliab jurou ter visto, naquele momento, uma faísca do espírito do Senhor pousando sobre o lugar – espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor ao Senhor.
A notícia do ramo e dos pequenos milagres à sua sombra começou a correr. Não como estrondo, mas como o riacho que encontra o leito seco. E com ela, veio uma certeza que se instalou no peito do povo, uma certeza antiga como as promessas feitas a Abraão. Daquele ramo brotaria um rebento. Um que não julgaria pela aparência dos olhos, nem decidiria pelo que ouvissem os seus ouvidos. Sua justiça seria como um fio de prumo, reta e verdadeira, pesando o coração dos humildes com equidade. Com o sopro dos seus lábios, a mentira morreria. Ele traria um reino onde o conhecimento do Senhor encheria a terra como as águas cobrem o mar.
E os sinais, tímidos, foram se multiplicando. Num pântano não muito longe dali, onde as águas barrentas escondiam perigo, o povo começou a ver algo inusitado. A víbora, filha da poeira, não mais buscaria apenas o escuro e a sombra para seu ninho. E a sua criação, os pequenos serpenteios, brincariam em buracos abertos na areia sem medo. Era como se a própria maldição do chão estivesse sendo revertida, lentamente, grão por grão.
Eliab, agora um homem com os cabelos começando a embranquecer nas têmporas, era a testemunha silenciosa de tudo. Viu o dia em que uma vaca e uma ursa pastaram lado a lado no mesmo campo verdejante, e seus filhotes – o bezerro desengonçado e o pequeno urso brincalhão – repousaram juntos, sob o olhar desconfiado, mas pacífico, das mães. O leão, rei outrora sanguinário, agora comia palha como o boi. E as crianças, aquelas que antes eram mantidas longe dos bosques, corriam e riam, colocando a mão na toca do basilisco, na cova da víbora cascavel, sem que nenhum mal lhes acontecesse.
Não era uma utopia instantânea. Ainda havia dor, ainda havia morte. A velha serpente, o dragão do mar, não tinha sido destruída. Mas seu poder estava sendo quebrado, dia após dia, pelo aroma do ramo que agora era uma árvore frondosa. O cetro do opressor, aquele que se achava dono das nações, estava rachando. O povo começou a entender: a raiz de Jessé estava ali, não como estandarte de guerra, mas como bandeira de um chamado. Um chamado para os remanescentes, os que haviam sido dispersos, lançados aos quatro ventos da Assíria e do Egito, de Elão e de Sinear, de Hamate e das ilhas do mar.
E num amanhecer especialmente claro, quando o primeiro sol dourava os cumes das monthas, Eliab viu a mais clara imagem da promessa. Do alto do monte Sião, a árvore parecia emitir uma luz própria, suave. E ele entendeu, num clarão de simplicidade, que o Renovo não viria para ser servido, mas para servir de sinal aos povos. Um sinal de reunião. Como um pastor que assobia para seu rebanho disperso, Ele ergueria sua bandeira, e os perdidos do mundo encontrariam o caminho de volta. Os caminhos se fariam planos, os vales se elevariam, os outeiros se abaixariam. Não por obra de escravos e pás, mas pela autoridade do seu sopro.
A terra ainda estava cansada, sim. Mas agora, era o cansaço da espera, não mais o da desesperança. E em cada pequena paz entre criaturas outrora inimigas, em cada gesto de justiça que brotava onde antes havia só cobiça, o povo via o futuro espalhando suas raízes no presente. O espírito do Senhor repousava sobre aquele lugar. E o rebento do tronco de Jessé seria, para sempre, o abrigo onde a criação, finalmente, respiraria aliviada.




