O ar dentro do Tabernáculo era denso, carregado do cheiro de incenso queimado, de óleo de oliva e de lã úmida. A luz bruxuleante das lâmpadas do candelabro de ouro puro dançava sobre as cortinas de linho fino, projetando sombras que pareciam respirar em conjunto com a assembleia. Era ali, naquele espaço entre o pó do acampamento e o absoluto do Santo dos Santos, que as coisas do mundo se encontravam com as ordens do céu. E uma dessas ordens, aparentemente simples, era a dos pães.
Todo sábado, sem falha, os sacerdotes da vez – desta feita, Itamar, o mais novo dos filhos de Aarão – realizavam o ritual. Doze pães de flor de farinha, amassados com azeite, dispostos em duas fileiras de seis sobre a mesa de madeira de acácia revestida de ouro puro. Sobre cada fileira, uma porção de incenso puro, como memorial, porção queimar ao Senhor. Os pães da semana anterior, já ressecados, eram retirados com reverência. Não iam para o lixo, não. Eram alimento santo, destinado apenas aos sacerdotes, dentro do recinto sagrado. Aquele ciclo semanal era um relógio silencioso para Israel, um lembrete de que mesmo o sustento comum – o pão – era, diante de Deus, uma oferta perpétua.
Fora das cortinas, a vida do acampamento fervilhava com seus próprios ritmos e tensões. Naquela tarde abafada, um rumor crescente chegou até a entrada da Tenda. Vozes alteradas, uma em hebraico, outra num dialeto egípcio áspero. A multidão se aglomerava em torno de dois homens. De um lado, um israelita da tribo de Dã, rosto marcado pelo sol e pelas lidas do deserto, membros robustos de quem conhecia o trabalho duro. Do outro, um homem de feições mistas, filho de uma israelita – Selomite, da tribo de Dã – com um pai egípcio. Seu nome era uma questão: para alguns, ele era apenas o “filho da israelita”; para outros, um estrangeiro entre o povo da aliança.
A discussão começara por causa de um punhado de gravetos, de um espaço de acampamento invadido, de um olhar de desdém. As palavras subiram de tom, da pragmática sobre lenha para a antiga ferida da identidade. O israelita, na fúria, lançou a acusação que cortava mais fundo que qualquer espada: “Você não pertence aqui! É um estrangeiro, um filho do Egito, um impuro!”
O filho da israelita encarou-o, os olhos faiscando de uma dor e uma raiva antigas. E então, naquele instante de fúria insana, ele soltou o que nenhum ouvido em Israel, desde a fundação do mundo, poderia suportar. Ele blasfemou o Nome. O Nome inefável, o Nome que Moisés ouvira na sarça, o Nome que era a própria essência da Aliança. Ele O pronunciou não em oração, mas como um cuspe de veneno, num grito alto e desafioso que fez o ar parar.
Um silêncio gelado caiu sobre a multidão. O próprio israelita que o provocara recuou, horrorizado, como se as palavras tivessem queimado sua própria pele. A blasfêmia pairou sobre o acampamento como um cheiro de enxofre. Agora, não era mais uma rixa entre homens. Era uma fissura aberta no próprio tecido do sagrado. Agiram rápido. Agarram o blasfemo, ainda contorcido de ódio, e o levaram à presença de Moisés. Depois, à espera do veredicto, o colocaram sob guarda.
Moisés, dentro de sua tenda, sentiu o peso descer sobre seus ombros como um manto de chumbo. A Lei era clara sobre muitas coisas, mas aquele caso específico – um filho de mãe israelita, vivendo no meio do povo, cometendo tal atrocidade – parecia requerer uma consulta mais alta. O ar dentro da tenda era estático. Ele podia quase ouvir o zumbido da indignação divina. Levantou-se e foi até a Tenda do Encontro, Aarão a seu lado, o coração pesado.
A resposta não veio em parábolas ou visões complexas. Veio com a solenidade cortante de um princípio imutável, uma lei que era como a própria pedra da montanha. A voz do Senhor, que Moisés discerniu no silêncio de seu espírito, foi direta:
“Leva o que blasfemou para fora do acampamento. Que todos os que ouviram coloquem as mãos sobre a sua cabeça. E então, toda a congregação o apedrejará.”
E acrescentou, estendendo o princípio para que ninguém jamais duvidasse de seu alcance: “Seja estrangeiro ou natural, aquele que blasfemar o Nome será morto.”
E mais: a vida pela vida, olho por olho, dente por dente. A justiça não seria um vale-tudo de vingança, mas uma medida exata, proporcional, que pertencia ao Senhor. A santidade do Nome era o alicerce sobre o qual todo o resto se sustentava.
No dia seguinte, o sol nasceu impiedoso sobre o deserto. A congregação reuniu-se, um mar de rostos sérios e pálidos, do lado de fora das muralhas de tendas. O homem foi trazido. Sua fúria havia se esvaído, deixando para trás apenas um vazio terrível nos olhos. Os que ouviram a blasfêmia – o israelita da tribo de Dã entre eles, agora com o rosto lavado em remorso – avançaram. Com gestos pesados, colocaram as mãos sobre a cabeça do blasfemo. Não era um gesto de violência, mas de transferência solene, de testemunho perante Deus e os homens: a culpa era dele, e a justiça a ser aplicada era a do Senhor.
O silêncio era absoluto. Nem o vento ousava soprar. Então, obedientes à ordem, mas com mãos que tremiam, pegaram as pedras. A primeira atingiu seu ombro com um baque surdo. Depois, outras seguiram, até que a figura, sob a chuva implacável, tomou a forma de um montículo indistinto sobre a areia clara. A justiça havia sido executada. Não com prazer, mas com um temor solene que deixou uma marca na alma de cada israelita ali presente.
Mais tarde, na tenda de Moisés, Itamar, o sacerdote, trouxe os pães ressecados da semana, agora alimento santo para ele e seus irmãos. O contraste era agudo. De um lado, o pão da presença, símbolo da aliança, da provisão contínua, da vida consagrada. Do outro, a memória da pedra e da poeira, o fim daquele que profanou a fonte da vida.
E o povo entendeu, naquele dia, de uma forma visceral que nenhum sermão poderia transmitir. A santidade de Deus não era um conceito decorativo, como os bordados das vestes sacerdotais. Era um fogo. E o Seu Nome era a centelha desse fogo. Poderia aquecer, iluminar, guiar. Mas quem o profanasse, quem tentasse apanhá-lo com mãos impuras para seus próprios fins de ódio, seria consumido. A lei, registrada depois por Moisés no rolo que continha os estatutos, tornou-se mais do que palavras. Tornou-se a memória do som de uma pedra batendo na areia, sob um sol que testemunhou, impassível, o preço de esquecer quem era Deus.




