As coisas começaram a esfriar. Não apenas o ar, que trazia um vento cortante das colinas mesmo em pleno sol, mas algo mais profundo, um frio que nascia nas entranhas dos homens. Eu via isso nos olhos deles, nos cantos da praça, quando as conversas baixavam de tom e os olhares se tornavam cínicos. “Onde está a promessa da sua vinda?”, ouviamos eles murmurarem, não mais com medo, mas com um desdém cansado. “Desde que os pais dormiram, tudo continua como desde o princípio da criação.” A voz de Simeão, sempre tão cheia de um fogo quieto, vinha à minha memória nessas horas. Ele previu este resfriamento da fé.
Lembro-me de como ele escrevia, a pena raspando o papiro com uma urgência solene. Não era um homem de muitos gestos, meu mestre Pedro, mas quando falava das últimas coisas, suas mãos, calejadas pelas redes de outrora, pareciam moldar o ar, traçando o invisível. “Amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia.” Ele repetia isso para nós, seus olhos claros fixando cada rosto, buscando raízes onde pudesse regar a verdade. A paciência divina lhe parecia ao mesmo tempo um mistério de bondade e um campo de prova para os nossos corações. “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.”
E ele nos falava do fim, não com um terror vazio, mas com a solenidade de quem conhece o princípio. Falava das águas antigas, daquela antiga ordem que pereceu, submersa. “Pela mesma palavra, os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo.” A imagem não era de destruição cega, mas de purificação inevitável, um juízo que separaria a essência da ilusão. Às vezes, ao anoitecer, olhando o horizonte onde o sol mergulhava no mar, eu pensava naquele fogo. Não nas chamas devoradoras que os homens podem acender, mas num calor tão intenso e fundamental que faria o mundo derreter como cera, expondo os alicerces de todas as coisas. “Os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos, abrasados, se dissolverão.” Ele escolhia as palavras com cuidado: estrepitoso estrondo. Não um silêncio, mas um rugido final.
Mas esse não era o fim da história. Era o fim do que é transitório, manchado, quebrado. A esperança de Simeão, e que ele plantou em nós, era verde e tenra como um broto após o incêndio. “Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça.” Aquilo me sustentava. Nos dias em que a perseguição apertava e a solidão era uma sombra constante, eu me agarrava a essa visão: um mundo onde a justiça não é uma estranha visitante, mas a moradora permanente. Onde o que é reto floresce sem obstáculos, e o shalom, a paz plena, é o tecido da realidade.
Por isso, suas últimas exortações ecoam em mim como um testamento. “Já que tudo será assim desfeito, que espécie de pessoas é necessário que vocês sejam?” A pergunta era um chamado à vigília, não passiva, mas ativa. Uma vida de santidade e piedade, apressando, pelo nosso viver, a manifestação do Dia de Deus. Apressando. Como se nosso amor pudesse, de alguma forma, abreviar a espera. E então, a advertência final, sobre as cartas do nosso amado irmão Paulo: “Nelas há algumas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis torcem, como também torcem as demais Escrituras, para a própria destruição deles.”
Vejo essa torção agora, todos os dias. Homens que pegam fragmentos da verdade, polindo-os até se tornarem ídolos confortáveis, justificativas para sua cupidez ou sua indiferença. E eu, aqui, um homem velho cujas juntas doem com o frio, guardo essas memórias como carvões acesos no meu peito. O mundo pode resfriar, o escárnio pode aumentar, a aparente estabilidade das coisas pode enganar os olhos negligentes. Mas a Palavra permanece. O dilúvio veio. O fogo virá. E depois, a manhã sem nuvens.
Por fim, as palavras dele, que agora são minhas também: “Vocês, portanto, amados, sabendo disso de antemão, guardem-se para que não sejam arrastados pelo erro desses insolentes e caiam da sua firme posição. Cresçam, porém, na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia da eternidade.”
O vento uiva lá fora, mas a lareira aqui crepita. Não é o fogo do juízo, é o fogo do aconchego, da memória, da espera vigilante. Amanhã, voltarei à praça. E, se perguntarem novamente “onde está a promessa?”, talvez eu simplesmente aponte para o céu, não o céu imóvel de agora, mas para aquele que há de vir, e direi, com a mesma calma teimosa de Simeão: “Ele vem. E não tarda.” A noite pode ser longa, mas a alvorada é certa. E nessa certeza, encontro forças para mais um dia de espera.




