Bíblia em Contos

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Bíblia

A Loucura que é Sabedoria

A chuva fina de Corinto grudava na poeira das ruas, formando uma lama pegajosa e cinzenta. Débora, sentada no pequeno átrio de sua casa, afastava os olhos do papiro aberto sobre os joelhos para observar a água escorrer pelo implúvio. O ar cheirava a terra molhada e a óleo de lamparina. A carta, trazida por Estéfanas na semana anterior, queimava-lhe a mente com palavras duras e estranhas. Era do apóstolo Paulo, aquele que lhes havia falado de Cristo anos atrás, e agora respondia a perguntas que ela mesma, em seu coração, não sabia totalmente formular.

A comunidade ali era um mosaico de contradições. No canto do átrio, Júlio, um liberto romano com marcas ainda visíveis no pulso, discutia calorosamente com Apolo, um judeu helenista de fala eloquente. A conversa, como sempre, descambava para “de quem” eles eram. “Eu sou de Paulo”, afirmava Júlio, com orgulho ferrenho. “Ele me batizou, ele me trouxe a verdade simples, sem floreios retóricos!” Apolo, por sua vez, erguia a voz melodiosa: “Mas é preciso sabedoria, meu irmão! A fé precisa ser compreendida, precisa dialogar com a filosofia. Eu sigo os ensinos de Apolo, que ilumina as Escrituras com uma luz nova!” Noutro grupo, murmuravam alguns sobre serem “de Cefas”, de Pedro, o pescador direto, a conexão com a terra e com os costumes. E ainda outros, com um ar de superioridade fatigada, declaravam-se “de Cristo”, como se possuíssem um canal exclusivo, um acesso direto que os colocava acima das disputas dos meros seguidores de homens.

Débora sentia um nó no estômago. Ela se lembrava do dia em que creu. Não havia sido por causa da lógica implacável de Apolo, nem pela força ímpar de Paulo. Fora algo mais simples e mais profundo. Fora o relato, cru e chocante, de um homem pregado num madeiro, abandonado, clamando ao seu Deus. Algo naquela imagem de fraqueza extrema havia rachado o orgulho que ela, uma artesã de tecidos respeitada, cultivava por sua habilidade e moderação. A mensagem parecia uma loucura, sim. Uma completa loucura. Enquanto costurava, ela pensava na sabedoria dos gregos que povoavam a cidade, nos discursos no ágora sobre lógica, virtude e destino. Pensava também nos sinais exigidos pelos judeus, nas expectativas de um Messias triunfante, vindo com trombetas e exércitos. E então colocava diante de si a figura do Cristo crucificado. Um escândalo. Um tropeço. Absurdo.

Paulo, na carta, parecia ler seus pensamentos mais secretos. Ele não amenizava o escândalo; ele o abraçava. “A palavra da cruz é loucura para os que se perdem”, escrevera. Débora podia quase ouvir a voz áspera do apóstolo ao ditá-las. Mas não era uma loucura qualquer. Era uma loucura que era mais sábia que a sabedoria dos sábios. Era uma fraqueza que era mais forte que toda a força humana. Ela olhou para as próprias mãos, calejadas pelo tear. Mãos de trabalhadora. Não eram mãos de filósofa, nem de sacerdotisa, nem de patrícia rica. Eram mãos comuns. E a mensagem havia vindo para pessoas comuns como ela, para os que não eram sábios de nascimento, poderosos ou de famílias nobres. Havia vindo para os que eram *nada*, para reduzir a *nada* os que se julgavam *algo*.

Uma disputa mais acalorada ecoou do canto. Júlio, vermelho de raiva, acusava Apolo de transformar o evangelho em mera retórica para agradar aos intelectuais. “Você esvazia a cruz de seu poder!”, gritava. Débora se levantou, um impulso súbito tomando conta dela. Caminhou até o centro do átrio, a chuva fina molhando seus cabelos soltos.

“Irmãos”, disse, e sua voz saiu mais firme do que esperava. Todos se calaram, surpresos. Ela não era dada a discursos. “Estamos discutindo sobre sabedoria. Sobre quem tem a mais pura, a mais eloqüente, a mais próxima da fonte.” Fez uma pausa, olhando para um e para outro. “Paulo pergunta: ‘Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o questionador deste século?'”

O silêncio se instalou, pesado, apenas quebrado pelo pingar da chuva no tanque.

“Olhem para nós”, continuou Débora, e um fio de ironia triste tingiu suas palavras. “Olhem para quem Deus escolheu. Não muitos sábios, não muitos poderosos, não muitos nobres. Mas o que é louco no mundo, Ele escolheu para confundir os sábios. O que é fraco, para confundir o forte. O que é insignificante e desprezado, e até o que não é, para aniquilar o que é.”

Ela estendeu a mão na direção da rua lamacenta, onde passavam mercadores, escravos, soldados comuns. “Para que ninguém se glorie diante d’Ele. Nem por seguir Paulo, ou Apolo, ou Cefas. A glória é d’Ele. Só d’Ele. Nossa sabedoria… nossa justiça… nossa santificação… nossa redenção… tudo vem d’Ele. Tudo é por causa *dEle*.”

Apolo baixou a cabeça, seus conhecidos argumentos parecendo de repente frágeis como gravetos secos. Júlio encolheu os ombros, a fúria esvaindo-se, substituída por um constrangimento profundo. O grupo que murmurava sobre ser “de Cristo” fitava os pés, percebendo a ironia amarga de sua divisão exclusivista.

Débora respirou fundo. “A mensagem não é sobre nós. Nunca foi. É sobre Cristo. E Cristo crucificado. Uma pedra de tropeço. Uma loucura. A única loucura que pode nos tornar sãos.”

Naquela noite, enquanto a chuva parava e um céu lavado revelava algumas estrelas pálidas, a comunidade partiu o pão. Não havia mais discussões sobre pertencimento. Havia um silêncio diferente, carregado não de tensão, mas de uma percepção nova e desconcertante. O pão era partido, o vinho era compartilhado, e no rosto de cada um – do liberto romano, do judeu eloquente, da artesã, do escravo que servia às mesas – havia o mesmo espelho: o reflexo de uma cruz, um instrumento de tortura romana, que se erguia no centro da história não como símbolo de derrota, mas como o estranho, o impossível, o único alicerce de qualquer glória que valesse a pena ter.

E Débora, ao provar o vinho amargo, pensou que talvez a verdadeira sabedoria não fosse compreender tudo, mas aceitar ficar perplexo diante do amor que se entregou, fraco e louco, para que ninguém, absolutamente ninguém, pudesse se gloriar, a não ser no Senhor. A loucura de Deus era mais sábia que os homens. E naquela noite, em Corinto, essa loucura tinha o gosto forte e puro da graça.

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