Bíblia em Contos

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O Primeiro Milagre em Caná

O calor da tarde em Caná era daqueles que pesa nos ombros, um manto úmido e pesado que chegava com o cheiro de poeira e figos maduros. A casa de Simão, o noivo, transbordava de vozes, risos e o movimento incessante de gente que vinha e ia. Era uma festa, uma verdadeira festa, que já durava dias, e no ar, misturado ao aroma do assado de cordeiro e do pão fresco, começava a pairar uma certa ansiedade discreta. Maria, a mãe de Jesus, percebera antes de todos. Com aquele olhar quieto que nada perdia, ela vira o mordomo, um homem sério de barba grisalha, sussurrar algo ao ouvido do noivo. E o rosto do jovem, antes iluminado pela alegria, perdera por um instante a cor.

Ela se mexeu entre as mulheres, seu véu simples balançando suavemente, até encontrar Jesus. Ele estava num canto mais tranquilo do pátio, ouvindo a discussão animada de alguns de seus novos discípulos – aqueles pescadores de expressão franca que o seguiam com uma curiosidade que beirava o deslumbramento. Maria se aproximou e, sem cerimônia, tocou-lhe levemente o braço.

“Eles não têm mais vinho,” disse ela, sua voz baixa mas clara como água de fonte.

Jesus a fitou. Seus olhos, em momentos como aquele, pareciam conter uma profundidade desconcertante, como se vissem muito além daquela festa, daquela crise doméstica, do horizonte de telhados de Caná. “Mulher, que temos nós com isso?” perguntou, e sua voz era mansa, mas carregada de um significado que fez Maria sustar a respiração por uma fração de segundo. “A minha hora ainda não chegada.”

Ela não debateu. Não insistiu. Apenas segurou aquele olhar por um momento mais longo, e então, virando-se para os servos que aguardavam próximos às talhas de pedra, disse com uma calma absoluta: “Fazei tudo o que ele vos disser.”

Houve um silêncio constrangedor. Os servos olharam para Jesus, depois para as seis talhas de pedra, vazias agora à exceção de alguns resíduos de água para as purificações ritualísticas. Eram grandes, imponentes, cada uma capaz de conter duas ou três medidas. Um objeto de uso prático e sagrado, ali, num canto, testemunhando o fracasso iminente da hospitalidade.

Jesus ergueu-se. Sua movimentação era tranquila, sem pressa, mas algo em sua postura fez com que o burburinho imediato diminuísse. Ele caminhou até as talhas.

“Enchei-as de água,” ordenou, e sua voz não era de comando, mas de simples constatação.

Os servos, acostumados à obediência, moveram-se. Pegaram os cântaros, dirigiram-se ao poço no fundo do pátio. O ruído da água batendo no fundo da talha de pedra ecoou, um som oco e úmido. Um, depois outro, depois outro. O trabalho foi penoso, suaram copiosamente sob o sol que se inclinava, mas encheram as talhas até a boca. A água parada, límpida, refletia o céu que começava a ganhar tons de açafrão.

Todos observavam. Os discípulos, intrigados. Maria, com as mãos serenamente cruzadas. O mordomo, à distância, com a testa franzida. A festa continuava ao fundo, alheia àquele pequeno drama no pátio.

Então, Jesus fez um gesto singelo. “Agora,” disse a um dos servos, “tirai um pouco e levai ao mordomo.”

O servo hesitou. Sua mente prática protestava: era água. Água que ele mesmo tirara do poço. Mas o olhar daquele homem de Nazaré era irrecusável. Ele mergulhou uma ânfora na talha mais próxima. O líquido que recolheu tinha uma cor que a luz do fim de tarde não explicava. Era âmbar, denso, como mel de flores do campo. Um aroma suave, complexo, envolvente, subiu até suas narinas. Não era o cheiro neutro da água. Era algo que lembrava uvas pisadas no lagar, terra quente após a chuva, e algo mais, indescritível.

Com mãos que tremiam ligeiramente, não de medo, mas de puro assombro, o servo levou a ânfora ao mordomo. O homem sério, responsável pelo decoro da festa, pegou o recipiente com ar de quem vai cumprir um mero protocolo. Levou-o aos lábios e bebeu.

O que se passou em seu rosto foi uma transformação lenta e completa. Seus olhos, antes preocupados, arregalaram-se. Ele engoliu, lentamente, deixando o sabor se espalhar. Era um vinho. Mas não um vinho qualquer. Era encorpado, rico, afrutado, com uma suavidade que os melhores vinhos da festa, já há dias consumidos, não possuíam. Era, sem sombra de dúvida, o melhor. O melhor que ele provara em anos de ofício.

Sem uma palavra ao servo, o mordomo cruzou o pátio com passos firmes e dirigiu-se ao noivo, que conversava nervosamente com alguns parentes. Puxou-o de lado, e sua voz, cheia de reprovação misturada a incredulidade, ecoou suficientemente para que alguns ouvissem:

“Todo homem serve primeiro o bom vinho e, quando os convidados já têm bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o bom vinho até agora!”

O noivo olhou para ele completamente perplexo. Seus lábios moveram-se, mas nenhum som saiu. Ele não guardara vinho algum. A despensa estava seca. Ele olhou para as talhas, para os servos que começavam a servir os convidados com ânforas cheias daquela bebida dourada, e depois seu olhar vagueou até Jesus, que já retornara ao seu lugar entre os discípulos, como se nada de extraordinário tivesse acontecido.

A festa ganhou um novo fôlego. O riso tornou-se mais solto, a música mais alegre, a dança mais desprendida. O milagre não fora espetacular. Não houve raios, nem vozes dos céus, nem sequer uma palavra em alta voz declarando o que se fizera. Acontecera nos bastidores, no local da purificação, através das mãos calejadas de servos anônimos que obedeceram a uma ordem aparentemente absurda.

João, o discípulo que mais tarde registraria aquele dia, observava tudo com o coração acelerado. Ele vira a água ser tirada, ele provara do vinho que dela surgira. E naquele sabor, naquele ato silencioso e poderoso, ele vislumbrou algo. Uma glória que não se impunha, mas que se oferecia. Uma graça que não vinha para resolver apenas crises cósmicas, mas também a vergonha doméstica de um noivo. Foi ali, no meio do cheiro de comida e do barulho de uma festa de aldeia, diante de talhas de pedra feitas para rituais de limpeza, que ele começou a crer. Não num conceito, mas no homem sentado ao seu lado, cujos olhos agora contemplavam os primeiros sinais das estrelas, com um discreto sorriso nos lábios, como quem guarda um segredo íntimo e demasiado bom. Aquele foi o princípio dos sinais, em Caná da Galileia. E revelou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. Tudo começou com uma falta de vinho, e com uma mãe que sabia em quem confiar.

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