Bíblia em Contos

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Bíblia

O Sermão da Montanha em um Coração

O sol da Galileia era um peso sobre os ombros dos homens que subiam a colina. Não aquele calor seco e violento do deserto, mas um calor úmido, carregado do cheiro da terra molhada pelo orvalho da manhã e do lodo do lago que reluzia ao longe. Jonas, um pescador de mãos calejadas e olhos marcados pelas madrugadas no mar da Galileia, caminhava com um passo mais lento que os outros. Não era o cansaço físico, mas um cansaço da alma, um peso que ele não sabia nomear. Na bolsa de couro, algumas moedas tilintavam com um som surdo, um lembrete constante das dívidas do pai, já falecido, e da irmã mais nova que precisava de um dote. O ar, em volta, zumbia com conversas ansiosas. Ouvia-se falar de impostos, da colheita que talvez falhasse, da ferrugem que atacara o trigo no vale.

No alto, um homem se sentara sobre uma pedra plana. Não tinha a postura rígida dos rabinos da sinagoga, nem vestia os mantos bordados dos doutores da lei de Jerusalém. Seus olhos, porém, pareciam abarcar toda aquela multidão heterogênea — camponeses, pescadores, mulheres com crianças no colo, alguns fariseus de sobrancelhas franzidas à distância. Quando começou a falar, sua voz não era um grito, mas chegou com estranha clareza, como se o vento que balançava as folhas dos oliveiras silenciasse para carregá-la.

“Bem-aventurados os pobres de espírito…” começou ele. Jonas ouviu, mas as palavras rolavam sobre ele como água sobre pedra lisa. Sua mente estava no lago, nas redes vazias da última noite, no rosto preocupado da mãe.

Então, o tom da voz mudou ligeiramente, tornando-se mais direto, quase íntimo, como se falasse a cada um em particular. “Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles…” Jonas olhou instintivamente para um grupo de homens bem vestidos à sua direita, fariseus que oravam de pé no ponto mais visível da colina, pronunciando cada sílaba com solenidade artificial, os filactérios alargados como faixas de campeões. Ele lembrava-se de os ver na sinagoga, as longas preces que mais pareciam discursos para a plateia. Havia nisso uma falsidade que sempre o repelira, um sabor amargo de teatro sagrado.

A voz do homem na pedra continuou, tecendo imagens que cortavam como faca. “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas…” Jonas quase sorriu. Não tinha trombeta, nem esmola para dar. Mas lembrou-se da vez em que, com um pouco de lucro inesperado, comprara um cordeiro para a família de um vizinho doente. Fizera-o de noite, quase envergonhado, temendo que vissem e pensassem que estava se exibindo. Aquela memória, à luz daquelas palavras, ganhou um novo calor, uma pureza que não percebera antes.

“E, quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos…” A cena era tão vívida que Jonas podia ver a poeira das ruas de Cafarnaum. “Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em oculto.” *Aposento*. A palavra ecoou. Para Jonas, o aposento era o canto traseiro do barco, antes do amanhecer, com o som das águas batendo no casco como único acompanhamento. Era ali, no escuro, com o cheiro de peixe e rede, que suas palavras confusas subiam, mais suspiros do que frases. E aquilo, dizia aquele homem, era oração. O coração de Jonas deu um salto, um alívio súbito. Deus não estava preso à solenidade da sinagoga. Estava ali, no cheiro do lago, na fadiga dos ossos.

E veio então o trecho que parecia cravar-se diretamente na ferida que ele carregava no peito. “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, e onde os ladrões escavam e roubam…” Suas moedas, na bolsa, pareceram queimar-lhe o quadril. Era por aquilo que ele trabalhava, se angustiava, perdia o sono. Um tesouro de terra, que a doença de um dia poderia levar, ou um credor implacável. A voz, no entanto, não era de condenação, mas de um convite absurdo, desarmante. “Olhai para as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta…”

Jonas ergueu os olhos. Um bando de pardais riscava o céu azul acima da colina, mergulhando em direção a um campo. Eram insignificantes, barulhentos, comuns. E Deus os alimentava. Ele, Jonas, se considerava mais valioso que muitos pardais. A tensão em seus ombros começou a ceder, milímetro a milímetro.

“E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos?” A voz era suave agora, quase cantante. “Observai como crescem os lírios do campo: não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.” Jonas olhou para o chão. Entre as rochas, pequenas flores campestres, de um roxo humilde, balançavam. Eram efêmeras. Amanhã poderiam murchar. Mas naquele momento, sob a luz dourada da tarde, eram de uma beleza tão completa, tão gratuita, que pareciam um milagre silencioso. Salomão, com todas as suas riquezas, nunca tivera aquela simplicidade gloriosa. E se Deus vestia assim a erva do campo, que hoje está e amanhã é lançada ao fogo… uma certeza começou a brotar dentro dele, tímida, como a primeira folha verde após o inverno.

A ansiedade, aquela velha companheira que lhe apertava o estômago ao pensar no futuro, foi desmontada peça por peça. “Não andeis, pois, ansiosos pelo dia de amanhã, pois o amanhã trará a sua própria ansiedade. A cada dia basta o seu próprio mal.” Era uma sabedoria prática, terrena, e ao mesmo tempo profundamente celestial. Não era uma promessa de riqueza ou de dias fáceis. Era um chamado a uma mudança de olhar. Um convite a confiar. Não no destino cego, mas num Pai. Seu Pai. Que sabia de todas as suas necessidades, antes mesmo que ele as pedisse.

O discurso fluía, falando do Reino, da justiça, e tudo soava conectado, como os fios de uma única rede lançada sobre as profundezas do coração humano. Quando a voz se calou, não houve um grande aplauso, mas um silêncio espesso, carregado. As pessoas desciam a colina devagar, como quem sai de um lugar sagrado, mas sem solenidade vazia. Havia um pensativo quieto nos rostos.

Jonas desceu com os outros. O calor ainda estava lá, o mesmo caminho poeirento. Mas algo era diferente. As moedas na bolsa tilintavam com o mesmo som, mas já não pesavam o mesmo. Ao passar por um campo, viu os lírios roxos. Parou por um instante. O amanhã ainda trazia suas incertezas: a irmã, as dívidas, as redes. Mas ele não sentia mais o frio da ansiedade no peito. Sentia, em seu lugar, um espaço novo, como um aposento vazio e limpo, onde poderia entrar e fechar a porta. Olhou para o céu, onde as primeiras estrelas começavam a cintilar, pálidas ainda. E respirou fundo, o ar morno da Galileia, que agora parecia carregado de uma presença simples e próxima. Seguiu caminho para casa, e seus passos, embora cansados, tinham uma leveza que ele há muito não conhecia.

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