O sol da tarde pesava sobre Jerusalém como um manto de bronze. Uma poeira fina, trazida de longe por ventos secos, revestia as pedras das casas e entranhava-se nas gargantas. Na pequena casa de barro e madeira na parte baixa da cidade, Jeremias sentia o peso ser mais do que físico; era uma opressão que vinha da terra e descia do céu. Seus ossos doíam de uma canseira antiga, a mesma que apodrecia os alicerces da nação. Fora, ouviam-se gritos esparsos, o choro agudo de uma criança, o arrastar de pés desesperançados. O cheiro do medo era tangível, um odor acre de suor frio e cinzas.
Ele estava só. A solidão era sua companheira mais fiel há anos. Rolou o pequeno rolo de couro sobre a mesa áspera, suas mãos calejadas tremendo não de idade, mas da carga tremenda que sempre precedia o ato. A mensagem vinha como uma tempestade dentro de seu peito, uma agonia divina que precisava ser despejada em palavras ou ele arrebentaria. Não era sua voz que buscava, era *Voz*. Um silêncio que rugia.
Fechou os olhos. E viu.
Não era uma visão ordenada, como os sacerdotes gostariam de descrever nos pórticos do Templo. Era um caos de imagens esfaceladas, um pesadelo acordado que o engolia. Ouviu primeiro o som: um grito coletivo, tão denso de angústia que parecia dobrar o próprio ar. Era o grito de Jacó, o grito de um homem ferido, agonizante, com as mãos pressionando o flanco onde a dor latejava sem piedade. Um grito que vinha de todas as direções, do passado e do futuro, dos vales de Judá e dos campos poeirentos do exílio que ainda não chegara, mas que já se anunciava no cheiro do vento leste.
“Assim diz o Senhor”, sussurrou sua boca ressecada, e a pena mergulhou no tinteiro. As palavras saíam tortas, urgentes, arranhando o couro. “Ouvi a voz de terror, de pavor, e não de paz.” Ele descrevia o que via: homens com rostos pálidos como cal, mãos agarrando a cintura como mulheres em trabalho de parto. Cada contração era o avanço de um exército, o estampido de um cavalo, o ruído metálico de espadas sendo afiadas. Não havia rei que salvasse, nem aliado que ouvisse. Aquele dia seria grande, único, um parto difícil para uma nação que não queria nascer de novo.
A pena corria, e a tinta era negra como a noite que se aproximava lá fora. Jeremias via os cepos nos ombros, a servidão pesada. Viu o povo cativo, caminhando por estradas que não eram suas, sob um céu hostil. E ouviu, no meio do clamor, a outra camada da Voz. Não era suave. Era rochosa, firme, cortando o gemido coletivo como uma faca corta um cordão.
“Todavia”, escreveu, e a palavra pareceu ecoar na sala abafada, “não te destruirei de todo.” Houve uma pausa. Seu pulso doía. Ele olhou para a palavra “todavia”. Era um penhasco no meio de um rio devastador. Sobre ele, uma promessa se equilibrava.
A visão mudou. A agonia do parto não cessava, mas agora, entre os gritos, havia um outro som. Um quebrar de jugos. Não um quebrar fácil, mas violento, como madeira verde estalando sob pressão extrema. E a Voz, inconfundível, firme: “Servirei ao Senhor, seu Deus, e a Davi, seu rei, que levantarei para eles.”
Davi. O nome pairou no ar carregado como um aroma de algo perdido. Não era o rei histórico, poeira há séculos. Era algo por vir, uma raiz brotando de um toco carbonizado. Uma esperança com forma de rei, um pastor que viria buscar o que estava disperso.
Jeremias enxugou a testa. A noite caíra completamente. Uma lua opaca banhava a cidade de um tom doentio. Ele continuou a escrever, agora descrevendo a cura. Não uma cura mágica, instantânea. Era a cura de um ferimento profundo, deixado aberto por orgulho e infidelidade. “Curarei tuas feridas”, ditava a Voz, e Jeremias via, em flashes, não o desaparecer das cicatrizes, mas o vigor voltando a um corpo espancado. Via os muros sendo reconstruídos sobre velhas ruínas, mas não por mãos estrangeiras. Por mãos que haviam aprendido, no cativeiro, o valor da pedra e do cimento.
Havia ira na mensagem. Uma ira justa, fervente, contra os opressores que pensavam que seu poder era definitivo. “Eu os consumirei”, e a pena quase perfurou o couro. O cálice da ira seria passado para Babilônia também. A justiça era um círculo completo. Ninguém escapava.
Ele chegou ao final, exausto. O rolo estava cheio. As palavras finais eram sobre restauração. Não uma restauração de conto de fadas. Era uma restauração real, suada, conquistada através do juízo. A cidade se reergueria sobre a verdade. O palácio teria justiça. E o coração do povo, aquele coração de pedra que tanto denunciara, seria quebrantado e depois, só depois, sarado.
Jeremias deixou a pena cair. Fora, a cidade de Davi dormia um sono inquieto, ignorante da tempestade que havia sido registrada naquela sala pobre. Ele olhou para o rolo. As palavras eram duras, eram um diagnóstico mortal. Mas, sussurradas nelas, como o fio de ouro numa vestimenta rasgada, havia uma promessa teimosa. O amor do Senhor era um amor obstinado. Fería para curar. Destruía para refazer. Exilava para trazer de volta.
O profeta encostou a cabeça na parede fria. A mensagem estava completa. Amanhã, ele a leria em voz alta, e muitos torceriam o rosto em ódio. Mas algumas poucas almas, em algum canto escuro, ouvindo o grito de Jacó e o “todavia” divino, guardariam aquelas palavras no peito. Seriam a semente. A semente que dormiria no solo escuro do exílio, até que chegasse o tempo do broto. Até que o clamor se transformasse em canto.




