O dia amanheceu quente em Jerusalém, com aquele sol que parecia querer derreter a pedra clara dos muros. Eliabe ajustou o cinto de couro sobre a túnica, sentindo o peso das moedas já mais leve do que gostaria. O mercado fervilhava, um mar de vozes, cheiros de especiarias, animais e pó. Ele tinha uma pequena barraca de tecidos, herança do pai, mas os últimos tempos tinham sido duros. A seca no norte atrasara as caravanas, e o pouco linho que tinha era de qualidade inferior.
Enquanto arrumava um rolo de lã áspera, viu Natã, um homem de fala mansa e olhos sempre um pouco distantes, se aproximar. Natã era dado a planos grandiosos. “Eliabe, meu amigo!”, saudou, com um sorriso largo. “Ouvi dizer que os nabateus estão pagando o dobro pela púrpura de Tiro. Um conhecido meu parte para Petra em três dias. Com um pequeno investimento, podemos ter parte na carga. Lucro certo.”
O coração de Eliabe deu um salto. Lucro certo. As moedas que restavam no cinto queimavam-lhe o quadril. A imagem de sua mulher, Ana, remendando a mesma túnica pela terceira vez, passou-lhe pela mente. “É seguro?”, perguntou, tentando disfarçar a ansiedade.
“Como a rocha de Sião”, Natã garantiu, baixando a voz. “Mas é preciso decisão rápida. E silêncio. Não quero sócios demais.”
A promessa era doce como mel. Eliabe, com aquele desejo urgente de mudar sua sorte, concordou. Entregou a Natã quase tudo o que tinha, recebendo em troca um aperto de mãos e a promessa de retorno em uma lua. “Quem se apressa a ficar rico”, ele pensou distraidamente enquanto via Natã desaparecer na multidão, “não ficará sem punição.” A frase veio à mente como um eco de algo que seu próprio pai costumava murmurar, mas a ansiedade pelo ganho a abafou.
Nos dias que se seguiram, a barraca parecia mais vazia, e o silêncio em casa, mais pesado. Ana não reclamou, mas seus olhos perguntavam. Quando Eliabe finalmente foi procurar Natã, soube que o homem tinha partido para Cesareia, não para Petra, e ninguém sabia de nenhuma caravana nabateia. A fúria que sentiu foi tão quente quanto o sol do meio-dia. Sentou-se à beira do poço, a cabeça entre as mãos. A pobreza o havia alcançado como um ladrão, e ele não tinha para quem clamar. Percebeu, amargamente, que seu próprio desejo imprudente o tornara vulnerável. “A pobreza é a rede para os pés do negligente”, resmungou consigo mesmo, e a verdade do provérbio caiu sobre seus ombros com peso real.
No caminho de volta para casa, humilhado, passou por um pequeno ajuntamento perto do portão. Um levita, homem magro e de semblante sério, discursava para um grupo pequeno. “A falsa testemunha não ficará impune”, dizia o homem, sua voz clara cortando o ar poeirento. “E aquele que profere mentiras perecerá.” As palavras ecoaram na mente de Eliabe como um julgamento. Natã era uma falsa testemunha de seu próprio caráter, e ele, Eliabe, fora um ouvinte ávido daquela mentira. Seguiu adiante, o coração mais pesado do que o bolso vazio.
A vida apertou. As refeições tornaram-se mais escassas, e o respeito dos vizinhos, mais fino. Percebeu, então, outro provérbio se desdobrando diante de si: “Todos os irmãos do pobre o odeiam; quanto mais se afastam dele os seus amigos!”. Homens com quem antes trocava uma palavra rápida agora desviavam o olhar. A solidão era um manto frio, mesmo sob o calor.
Foi num desses dias sombrios que encontrou Jônatas. Não um homem rico, mas um curtidor que trabalhava perto do Vale de Hinom. O cheiro do ofício o seguia, e muitos o evitavam. Jônatas, porém, parou ao ver a expressão carregada de Eliabe. “O mercado está difícil para todos”, disse simplesmente, oferecendo-lhe um pedaço de pão achatado. Não era caridade, era companhia. Começaram a conversar, e Eliabe, com a vergonha transbordando, contou sobre Natã e sua tolice.
Jônatas ouviu em silêncio. Depois, disse: “Muitos são os que lisonjeiam o nobre, e todo mundo é amigo do homem que dá presentes”. Seu sorriso era triste. “É raro quem se importa com o homem quando não há nada a ganhar.” Ali, na beira do caminho poeirento, com o odor do couro no ar, Eliabe encontrou uma verdade mais profunda que todo o ouro de Petra: “A amizade leal é defesa forte, e quem a encontra, encontra um tesouro”. Jônatas não tinha riquezas para oferecer, mas tinha constância. E naquela hora, isso valia mais.
O tempo, esse fiador implacável, trouxe suas consequências. Soube-se, meses depois, que Natã fora apanhado em Cesareia tentando vender gado roubado como se fosse seu. A justiça romana não fora branda. A notícia correu o mercado, e Eliabe, ao ouvi-la, sentiu um frio na espinha. A ira do rei, como a do César distante ou a do próprio Senhor, era como o rugido de um leão. Transgredir era atraí-la sobre si.
Aos poucos, com a ajuda discreta de Jônatas, que lhe conseguiu alguns trabalhos com caravaneiros conhecidos, Eliabe foi reconstruindo sua vida. Lento, grão a grão. Aprendeu a desconfiar das palavras doces e das promessas fáceis. Aprendeu a ouvir, realmente ouvir, não apenas o que desejava escutar. “O que responde antes de ouvir”, recordava-se agora com clareza, “comete estultícia que é a sua vergonha.”
Uma tarde, já com os negócios um pouco mais estáveis, viu um de seus vizinhos mais abastados, um certo Semei, discutindo alto com sua esposa na porta de casa. A mulher chorava baixo, envergonhada. As palavras de Semei eram ásperas, injustas, destiladas em raiva. Eliabe se lembrou de Ana, de seu silêncio carregado durante seus piores dias. Um versículo que nunca dera muita importância veio-lhe, então, com força total: “A casa e os bens são herança dos pais; do Senhor, porém, a esposa prudente”. Ele percebeu, num relance, que sua fortuna verdadeira nos meses de vacas magras não fora o pouco linho que restara, mas a mulher que, com prudência e paciência, mantivera o lar de pé. Semei, com toda sua riqueza, era pobre de um bem inestimável.
Anos se passaram. Eliabe nunca se tornou um homem rico segundo o mercado, mas tornou-se sábio de uma sabedoria que não se contava em dracmas. Entendeu que o temor do Senhor, aquele respeito reverente e fundo, realmente conduzia à vida. E quem o possuía repousaria satisfeito, intocado pelo mal – não pelo mal exterior, que podia vir como seca ou injustiça, mas pelo mal interior, aquele que brota da insensatez e corrói a alma.
Certa noite, sentado à porta de sua casa já pacífica, com o cheiro do jantar de Ana vindo de dentro e o som dos grilos começando seu canto, ele olhou para o céu que escurecia sobre Jerusalém. Jônatas, sentado ao seu lado em silêncio companheiro, tomava um gole de vinho simples. Não havia necessidade de muitas palavras. A jornada desde aquela manhã quente de tolice até este crepúsculo tranquilo foi a lição mais longa e profunda de sua vida. As palavras de Salomão, antes apenas letras num rolo, haviam se tornado carne e osso, alegria e dor, fracasso e graça em sua própria história. E ele soube, no íntimo do seu ser, que a sabedoria não estava na rapidez do ganho, mas no passo lento e firme de quem aprende a ouvir, a escolher os amigos e a temer, acima de tudo e de todos, ao Senhor.




