Bíblia em Contos

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A Raiz da Promessa

Era uma tarde quente, quase imóvel, no acampamento à sombra das tamareiras. O ar pesava, carregado do cheiro seco da terra e do esterco dos rebanhos. Um homem mais velho, seu rosto sulcado como um leito de riacho no verão, afastava com a mão enrugada os insetos teimosos que zuniam perto de seu ouvido. Seus olhos, porém, não viam o rebanho disperso ou o horizonte tremeluzente. Viam séculos. E sua voz, rouca e irregular como o caminho dos pastores, começou a tecer memórias que não eram apenas suas, mas de um povo inteiro.

“Ouçam”, disse ele, e a palavra saiu como um suspiro carregado. “Ouçam e lembrem. Lembrem das coisas que ele fez, os milagres que suas mãos realizaram, os julgamentos que sua boca proferiu. Mas não comecem pelo mar partido ou pelas pragas. Não. Comecem mais longe, no princípio do laço.”

Ele fez uma pausa, bebendo um gole de água escura de um odre. “Nós somos semente de Abraão. Isso não é um título bonito, não. É uma raiz seca enterrada na promessa. Ele, o Altíssimo, chamou um homem de Ur. Apenas um. Um andarilho com estrelas nos olhos e areia nas sandálias. E fez com ele uma aliança. Um corte eterno. ‘À tua descendência dou esta terra.’ Canaã. E Abraão era como nós: um peregrino, um estrangeiro, sem terra própria, vivendo em tendas. Mas a promessa era o seu título, mais firme que qualquer escritura de pedra.”

O velho tossiu, uma tosse seca que ecoou no silêncio que se formara ao seu redor. Alguns jovens se haviam aproximado, sentando-se na terra poeirenta.

“E essa descendência… como uma planta tenra que o vento parece querer arrancar. Isaque, o filho da promessa nascido do riso. E Jacó… ah, Jacó.” Um sorriso quase imperceptível tocou os cantos de sua boca. “Um suplantador desde o ventre. Aquele que agarrou o calcanhar e depois agarrou a bênção com suas artimanhas. Mas foi a ele, ao fugitivo, ao que sonhava com escadas para o céu em pedras duras para travesseiro, que o Eterno confirmou a aliança. Israel. Aquele que luta com Deus. Esse nome nós carregamos. Não é um nome fácil.”

Ele ergueu os olhos para o céu, que começava a pintar-se de púrpura. “E então… José. O filho amado do manto colorido. Vocês conhecem a história. A inveja que cheira a sangue e a mentira, o poço seco, a caravana de ismaelitas levantando poeira no caminho para o Egito. Ah, mas os caminhos dele são profundos como o abismo. O mesmo que foi vendido como escravo, com os pés presos em grilhões de ferro, cuja alma foi atormentada até desfalecer… esse mesmo homem se viu, de repente, com um colar de ouro no peito e o anel de Faraó na mão.”

A voz do velho ganhou um ritmo novo, mais vivo. “Foi a fome. A mesma fome que apertou o ventre de nossos pais em Canaã, que os trouxe, vacilantes, às portas do Egito. E quem os recebeu? O vice-rei, o salvador do Egito, que eles não reconheceram sob as vestes linho fino. José. A vara de ferro que sustentou a família da promessa. Poucos, um punhado de estrangeiros, entraram na terra do Nilo. E lá, na fornalha do Egito, naquele lugar de ídolos e deuses com cabeça de animal, a semente cresceu. Multiplicou-se. Tornou-se um povo forte, numeroso. E isso começou a incomodar.”

O tom escureceu, como as sombras que alongavam. “Veio um rei que não se lembrava de José. Que só via uma multidão estrangeira e sentiu medo no coração. E o medo gera crueldade. A servidão. A vida amargurada com barro e tijolos, sob chicotes implacáveis. Cada nascimento hebreu era uma ameaça. Cada gemido, uma oração sem palavras. Até que o clamor subiu. Não foi um grito organizado, bonito. Foi o ruído sujo da dor esmagada, e ele chegou aos céus. E Deus ouviu.”

Agora o ancião falava com uma intensidade febril, seus olhos brilhando na penumbra. “Lembrem-se de Moisés, sua vara, sua mão. Lembrem-se das trevas que podiam ser apalpadas, da água tornada em sangue, das rãs invadindo os fornos, das úlceras, da chuva de pedra que feria animais e plantas, dos gafanhotos que cobriam a face da terra, da escuridão que paralisou uma nação… e da morte que passou de porta em porta. Cada praga era uma pancada no coração de um deus egípcio. Um julgamento. E Faraó, seu coração pesado como granito, só cedia para depois endurecer ainda mais. Até a noite em que não houve mais concessão. Apenas o pranto e o sangue do cordeiro nos umbrais.”

Ele respirou fundo, o peito cansado subindo e despondo. “E a saída. Apressada, com a massa ainda sem fermento. E o mar… o mar diante de nós, as águas empilhadas como muralhas, e atrás, o estrondo dos carros de guerra, o clarão das lanças. O pavor. E então, o caminho aberto no abismo, um corredor de terra úmida com paredes de água. A travessia. E o retorno das águas, cobrindo cavalos, carros e a soberba de um exército. O alívio que vira cântico. Aquele dia, nós vimos com os olhos da fé o que a promessa faz: ela abre caminhos onde não existem.”

A noite já havia caído por completo. Uma estrela, depois outra, pontilhavam o manto escuro. A voz do velho tornou-se mais serena, uma murmuração quase íntima. “E depois… a nuvem de dia, a coluna de fogo de noite. A água que jorrou da rocha, o pão do céu que sabia a mel silvestre. Quarenta anos de deserto. Não foi um passeio. Foi uma forja. Ele os sustentou, para que não fraquejassem. Para que a fé, como os pés, criasse calos.”

Ele finalizou, olhando para os rostos jovens, mal iluminados pelo brilho fraco de uma lamparina de azeite. “E tudo isso, desde Abraão até esta terra à nossa frente, que ainda não é totalmente nossa… tudo isso foi por causa de uma palavra. Uma aliança. Para que guardemos seus estatutos, obedeçamos às suas leis. Não foi por mérito nosso, que somos teimosos e esquecidos. Foi porque ele se lembrou. Da sua santa promessa. Do juramento que fez a Abraão, nosso pai. E nos deu esta terra, para a possuíssemos. Nada mais, nada menos. Lembrem-se. Não esqueçam. Contem a seus filhos. A história não começa com vocês. Ela apenas passa por suas mãos. E a promessa… a promessa continua.”

Calou-se. Só se ouvia o cantar distante de um grilo e o balido tranquilo de um cordeiro. A narrativa não terminara com estrondo, mas com o silêncio pesado da lembrança. Cada um ali carregava agora, no peito, o peso e o brilho daquela longa corrente de graça e juízo, que começara com um homem sob as estrelas e os trouxera até à beira da terra prometida. Era a sua história. Eram eles.

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