Bíblia em Contos

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A Última Escolha de Ismael

O sol da tarde caía como um manto pesado sobre a vila de pescadores, mas o calor não era o que sufocava Ismael. Era o silêncio. O mercado, outrora um coro de vozes negociando peixes, frutas e farinha, agora murmurava baixo, como maré antes da tempestade. Os olhos das pessoas desviav-se dos seus, fixando-se num ponto além do ombro, no novo poste de madeira erguido na praça. Nele, uma placa de bronze polido reluzia sob a luz laranja do crepúsculo. Não trazia palavras, apenas um símbolo: uma figura composta, algo entre um leopardo, um urso e um leão, com uma boca que parecia sorrir de modo obsceno. Era a imagem do Consenso. O novo governo. A nova salvação, diziam alguns.

Tudo começara com o homem do mar. Ismael tinha visto, com estes próprios olhos, da proa do seu barco, o *Destemido*. Uma manhã de nevoeiro cerrado, quando o ar cheirava a sal e a algo metálico, como ferrugem molhada. Das águas cinzentas, ele emergiu. Não nadando, mas de pé, como se caminhasse sobre um chão invisível. A água escorria de seus trajes que não eram trajes, mas uma pele que lembrava escamas escuras. Seu rosto era liso, belo até, mas seus olhos… seus olhos eram placas de vidro fosco, refletindo nada. Nem o céu, nem o medo dos pescadores. A voz dele não era um som; era uma vibração que se instalava nos ossos. Falou de unidade, de prosperidade, de um mundo sem conflito. Falou do Grande Irmão Terrestre que logo viria, um líder surgido das próprias entranhas da humanidade, para consolidar aquele poder.

E veio. Veio do deserto que ficava além das montanhas. Lembro-me do dia em que as telas, aquelas que agora estão em cada esquina, mostraram sua chegada à capital. Ele tinha a ferida. Todos falavam da ferida. Uma chaga horrível no lugar do coração, uma coisa purulenta e viva que deveria tê-lo matado. Mas ele riu para as câmeras, ergueu os braços, e a ferida fechou-se, deixando apenas uma cicatriz brilhante, como pele nova de cobra. O milagre, chamaram. A ressurreição do espírito da civilização. Ele tinha o carisma de um pai severo e a lógica fria de um contador. Seus discursos não prometiam paraísos distantes; prometiam pão na mesa hoje, segurança nas ruas amanhã, e um lugar ao sol para todos que aceitassem o progresso. O progresso tinha um nome: o Sinal.

O Sinal. No início, era apenas uma conveniência. Um chip sob a pele da mão direita, ou para os mais tradicionalistas, uma tatuagem com a mesma imagem da besta-leopardo na testa. Com ele, você comprava, vendia, viajava, trabalhava. Sem ele, você não era ninguém. Você era um fantasma. Ismael resistira. Sua avó, uma mulher enrugada como uva-passa, mas com fé de carvalho, lia todas as noites de um livro antigo, com páginas tão frágeis que pareciam voar em pó. Ela sussurrava passagens sobre um Cordeiro, sobre um dragão, sobre uma marca que não era marca, mas uma escolha de lealdade. “Ismael”, ela dizia, suas mãos trêmulas segurando as dele, “não é sobre a mão. É sobre o coração. Eles querem o seu coração.”

Raquel, sua mulher, tinha os olhos vermelhos de tanto chorar. “O pequeno João está com febre”, ela soluçava. “O médico do posto só atende com o Sinal. O remédio, na farmácia, só com o Sinal. Até o peixe, se você for vender sem o Sinal, eles confiscam o barco. É o boicote total.” Ela não olhava mais para o mar, olhava para a placa na praça. Havia fome naquele olhar. Fome de normalidade, de alívio.

A besta da terra, a segunda, era a mais insidiosa. Não vinha com discursos grandiosos. Era o professor da escola, agora ensinando a “História do Recomeço”. Era a cantora famosa, entoando hinos ao Consenso nos estádios. Era o algoritmo que ditava o que você lia, o que você via, o que era verdade. Ela dava vida à imagem da primeira besta, fazendo-a falar, fazendo-a parecer divina. E realizava prodígios. Na praça, vi com estes olhos que agora ardem de cansaço, um dos emissários do Consenso pegar um telefone velho e, com um toque, fazê-lo falar com a voz de um parente morto. A multidão suspirou, maravilhada. Outro fez fogo cair do céu numa pira controlada, um espetáculo pirotécnico que chamaram de “fogo do céu”. A sedução não era pelo terror, mas pela maravilha. Era um evangelho de milagres baratos, de soluções fáceis.

A pressão tornou-se um torno. Os amigos de Ismael, um a um, cederam. “É só uma formalidade”, diziam, evitando seu olhar. “Não significa que a gente acredite naquilo tudo.” Mas ele via a mudança. A luz nos olhos deles se apagava um pouco, substituída por uma conformidade brilhante e vazia. A vila se dividia entre os marcados e os intocáveis. Os intocáveis eram como leprosos. Suas casas eram pichadas. Seus filhos apedrejados ao voltar da escola vazia. O próprio ar parecia negar-lhes passagem.

A noite em que Raquel trouxe a proposta foi a mais escura. Ela não chorava mais. Seu rosto estava frio, talhado em mármore. “O representante veio aqui. Ele disse… ele disse que se você aceitar o Sinal, eles dão um cargo a você. Na administração do porto. Teríamos comida, remédios. O João teria futuro.” Ela fez uma pausa, a voz se partindo. “Ele disse que se você se recusar, vão levar o João. Para uma escola especial. Para reeducação.”

Ismael saiu para a praia. O mar estava negro, batendo com uma fúria surda contra as pedras. O céu, sem luas, sem estrelas, parecia um abismo. Ele olhou para suas mãos, calejadas pela rede e pelo leme. Mãos que sabiam trabalhar, criar, sustentar. Agora, eram a fronteira de uma guerra invisível. Aceitar o Sinal seria viver. Seria ver seu filho crescer. Seria ter a mulher de volta. Mas seria adorar. Não explicitamente, não no primeiro momento. Mas seria aceitar que aquele poder tinha o direito de definir sua existência, de comprar e vender sua alma no mercado da conveniência. Seria aceitar que a ferida que se fechava era maior milagre que a criação silenciosa do mundo ao amanhecer. Seria cuspir nas histórias da avó, no Cordeiro imolado, na esperança teimosa e quieta que ainda ardia em seu peito como um carvão quase apagado.

Recusar era um caminho de sombras. Significava a fome, a perseguição, talvez a morte. Significava entregar seu filho ao molde do novo mundo. Era um preço de sangue e lágrimas.

Ele não ouviu vozes do céu. Não viu anjos. Sentiu apenas o vento salgado cortando seu rosto e, no fundo do peito, um eco. Um fragmento das leituras da avó, que agora se assentou nele com o peso de uma rocha: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.”

Ao amanhecer, Ismael voltou para casa. O dia raiava cor de sangue sobre o mar. Ele abraçou Raquel, que estava rígida e silenciosa. Beijou a testa de João, que ardia em febre. Depois, pegou seu velho casaco e saiu. Caminhou em direção à praça, onde já se formava uma fila diante da tenda branca do registro. O ar cheirava a café e a medo.

Ele não entrou na fila. Parou diante da placa de bronze, onde a besta-leopardo sorria seu sorriso vazio. As pessoas olhavam, alguns com pena, outros com irritação, a maioria com alívio por não serem ele. Ismael respirou fundo, o ar entrando em seus pulmões como uma oração sem palavras. E então, lentamente, com uma calma que lhe parecia alheia, virou as costas para a imagem, e começou a caminhar em direção ao porto, para seu barco vazio, para o mar aberto e incerto.

Não era um gesto heroico. Era apenas um homem, terrivelmente assustado, escolhendo em quem confiar. O preço seria pago em lágrimas, ele sabia. Mas naquele momento, sob a luz crua da manhã, ele ainda era dono da própria alma. E para alguns, na economia obscura daquele tempo final, isso era a única vitória que restava.

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