A oficina de Gaius cheirava a couro cru, suor e a fuligem do lampião de barro que tremulava na parede. O dia em Éfeso começara há horas, e o ar já pesava, úmido e quente, carregado dos ruídos da rua dos curtidores. Gaius, um homem de trinta e poucos anos com marcas de cinza nas mãos calosas, concentrava-se na costura de uma correia de sandália, a ponta da sovela de ferro encontrando o ritmo antigo do trabalho. Sua mente, porém, não estava no couro. Estava num rolo de papiro que lhe fora lido na reunião dos irmãos no primeiro dia da semana, palavras enviadas por Tiago, o irmão do Senhor. Palavras que o haviam deixado inquieto.
“Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas.” A frase martelava dentro dele, mais persistente do que o bater de seu próprio martelo.
A tarde avançava quando a cortina de couro que servia de porta foi afastada. Dois homens entraram. O primeiro, Demétrio, era conhecido. Mercador de tecidos, usava um manto de linho fino com uma delicada bordagem púrpura nas bordas. Seus anéis reluziam fracamente na penumbra da oficina. Atrás dele, quase uma sombra, veio Lucas. Gaius reconheceu-o também; era um dos carregadores do cais, um homem magro e fortemente musculoso, vestido com uma túnica remendada e suja da labuta do porto. O cheiro do mar e do suor vinha com ele.
“Paz seja contigo, Gaius!” saudou Demétrio, com uma voz clara e educada. “Preciso de um novo cinto para minha túnica de banquetes. Algo em couro de Cilicia, bem trabalhado.”
Gaius levantou-se rapidamente, esfregando as mãos num pano. “Paz, Demétrio! É uma honra. Sente-se, por favor, tenho um banco mais confortável aqui atrás.” Apressou-se a remover algumas ferramentas de um banco de madeira com encosto, ofegante. “Posso lhe oferecer um pouco de vinho? É simples, mas refresca.”
Demétrio assentiu com um sorriso condescendente e sentou-se, enquanto Gaius buscava uma pequena ânfora. Lucas permaneceu de pé, próximo à entrada, seus olhos cansados observando a transação. Gaius, num movimento quase automático, lançou-lhe um breve aceno de cabeça, mas voltou toda sua atenção ao mercador.
“O couro da Cilicia é realmente o melhor. Tenho um pedaço já curtido, macio como um pêssego. Posso gravar o padrão que o senhor desejar”, falava Gaius, suas palavras saindo em um fluxo ansioso.
Enquanto discutiam medidas e preços, Lucas esperou. Ele não tinha dinheiro para encomendas. Seu calçado direito estava descosido, a sola quase se desprendendo. Ele só viera na esperança de que Gaius, um irmão na fé, pudesse dar uma olhada rápida, quiçá dar alguns pontos, talvez em troca de um favor futuro na descarga de um barco. Mas vendo a deferência com que o artesão tratava o homem rico, seu rosto se fechou. A fadiga do dia transformou-se num peso mais denso, um cansaço da alma. Após alguns minutos, sem que Gaius lhe dirigisse novamente a palavra, Lucas baixou a cabeça e saiu silenciosamente, engolindo a humilhação. A cortina de couro balançou para trás, deixando entrar uma rajada breve de ar quente que não refrescou nada.
Só depois de acertados todos os detalhes com Demétrio, recebendo um adiantamento generoso em moedas de prata, é que Gaius notou a ausência. “Onde está o carregador?”, perguntou, distraído.
“Ah, deve ter seguido seu caminho”, respondeu Demétrio, levantando-se. “Homens daquela estirpe são sempre apressados. Até a próxima, Gaius.”
Quando o mercador se foi, a oficina pareceu subitamente mais silenciosa, mais vazia. As palavras de Tiago voltaram com a força de uma maré: “Se, com efeito, entrar na vossa reunião algum homem com anéis de ouro, em traje de luxo, e entrar também algum pobre em traje sujo, e tratardes com deferência o que traz o traje de luxo e lhe disserdes: ‘Senta-te aqui num lugar de honra’, e disserdes ao pobre: ‘Fica de pé ali’ ou: ‘Senta-te abaixo do escabelo dos meus pés’, não fizestes distinção entre vós mesmos e não vos tornastes juízes movidos de maus pensamentos?”
Gaius deixou-se cair em seu banco de trabalho. O couro fino da Cilicia estava diante dele, mas seu valor parecia ter se esvaziado. Ele não apenas dera o melhor assento a Demétrio; dera-lhe toda a sua presença, sua solicitude, sua oferta de vinho. A Lucas, apenas um olhar vago. E Lucas era um deles! Um que invocava o nome do Senhor. A vergonha queimou o rosto de Gaius, mais quente que o calor do dia. Ele se lembrara das reuniões. Orgulhava-se de sua sã doutrina, debatia com vigor sobre a graça e a fé verdadeira. Cantava os salmos com fervor. Mas aquilo… aquilo fora um ato real, um julgamento silencioso e cruel escrito não em palavras, mas em desatenção.
A noite caiu sobre Éfeso. Gaius, incapaz de comer, foi visitar Marcus, um irmão mais velho, ex-fabricante de tendas que agora passava os dias ensinando. Encontrou-o em seu pátio modesto, sob uma videira, reparando uma rede de pesca à luz de uma lamparina.
“Marcus, preciso falar”, começou Gaius, a voz carregada. E contou o acontecido, a visita, sua própria atitude servil, a partida silenciosa do carregador.
Marcus não disse nada por um longo momento, seus dedos idosos ainda trabalhando o linho da rede. “Tu conheces as palavras de Tiago”, disse por fim, não como uma acusação, mas como uma constatação dolorosa. “Ele pergunta: ‘Qual é o proveito, meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?’”
“Mas eu tenho fé!”, protestou Gaius, fracamente. “Creio que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo. Confesso isso!”
Marcus ergueu os olhos, seus olhos profundos refletindo a chama. “Até os demônios creem, e estremecem, Gaius. A fé deles não os transforma, apenas os aterroriza. A tua fé, quando viu o irmão necessitado, o irmão de trajes sujos, o que ela fez? Ela o vestiu? O aconchegou? Ou ficou apenas dentro de ti, um belo sentamento, enquanto tuas mãos e teus olhos serviam ao rico?”
A analogia era brutal em sua clareza. Gaius viu a cena novamente: sua fé, como um espectro inútil, parada num canto da oficina, observando enquanto ele, o homem de carne e osso, praticava a injustiça. Fé sem obras. Fé morta. A expressão de Tiago ecoou como um veredicto.
“Como um corpo sem espírito está morto”, murmurou Marcus, concluindo o pensamento, “assim também a fé sem obras é morta.”
Os dias que se seguiram foram de um lento renascimento para Gaius. Ele não se tornou ruidosamente caridoso, nem anunciou suas intenções. A transformação foi quieta, nascida do arrependimento. Começou a frequentar o cais no fim da tarde, não como patrão, mas como alguém que procura. Encontrou Lucas descarregando sacas de grãos, os ombros tensos sob o peso.
“Lucas”, chamou, sua voz mais firme do que ele esperava. “Irmão.”
O carregador virou-se, cauteloso, uma sombra de desconfiança em seu olhar.
“Minha oficina fica perto. Seu calçado está desmanchando. Traga-o amanhã, no começo da manhã, antes do trabalho. Vou consertá-lo. Sem custo. És meu irmão.”
O silêncio entre eles foi preenchido apenas pelo grito das gaivotas. A desconfiança em Lucas lentamente se dissolveu, não em sorriso, mas num aceno grave de cabeça. “Obrigado, Gaius.”
No dia seguinte, Lucas apareceu. Enquanto Gaius, com mãos hábeis, refazia a costura da sandália com couro resistente, ofereceu-lhe pão e queijo. Dessa vez, foi Lucas quem sentou no banco melhor. Conversaram pouco – da pesca difícil, do preço do trigo, da saúde da mulher de Lucas. Era uma conversa banal, terrena. Mas para Gaius, cada ponto dado era uma oração, um ato de fé que respirava, que vivia.
Quando Lucas partiu, calçado renovado e com um pedaço de couro sobressalente para futuros reparos, Gaius olhou para suas mãos. Eram as mesmas mãos calosas que haviam servido a Demétrio com ansiedade. Mas agora, servindo a Lucas com dignidade silenciosa, pareciam diferentes. Tinham unido o que a boca confessava ao que a vida realizava.
A carta de Tiago permanecia em sua mente, mas agora não como um martelo de condenação, e sim como um projeto de construção. “Mostra-me a tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé.” A fé de Gaius, finalmente, estava aprendendo a andar. E seus pés, calçados com a compreensão tardia, seguiam um caminho mais difícil, mais poeirento, mas infinitamente mais real do que o brilho frio das moedas de prata sobre a mesa do curtidor. Era o caminho que levava ao irmão. E, portanto, ao Senhor.




